A tendência a nível europeu de criar mais zonas urbanas em que a velocidade máxima de circulação seja de 30 km/h para proteger os utentes mais vulneráveis pode ainda criar algum tipo de resistência nalguns automobilistas, mas o facto é que, cientificamente, a medida contribui, de forma decisiva, para a redução da sinistralidade, sobretudo, a mais grave.

No âmbito da campanha de Segurança Rodoviária “Compromisso 30 – Ruas com vida”, a Autoridade Nacional de Segurança Rodoviária (ANSR) salienta que cada km/h acima do limite de velocidade resulta num aumento de 4% a 5% no número de acidentes fatais.

De acordo com a ANSR, 1 em cada 3 acidentes fatais tem como causa principal a velocidade.

Explicam os técnicos de segurança rodoviária que numa colisão entre um veículo e um peão, a probabilidade de o peão sobreviver é de 90% se o veículo circular a 30 km/h, descendo para 20% se o veículo circular a 50 km/h.

Por esse motivo, “as zonas 30 devem ser implementadas onde as pessoas vivem, trabalham e brincam”, defende a ANSR.

A campanha de Segurança Rodoviária “Compromisso 30 – Ruas com vida” foi lançada pela Autoridade Nacional de Segurança Rodoviária (ANSR) em parceria com a Câmara Municipal de Lisboa (CML), com a Companhia Carris de Ferro de Lisboa (CARRIS) e com a Polícia Municipal de Lisboa (PML). Decorreu nos dias 17 a 23 de maio.

A campanha “Compromisso 30 – Ruas com vida” teve como objetivo não só sensibilizar e envolver os cidadãos para circularem a velocidades reduzidas nas ruas das cidades, mas também para sensibilizar os gestores de infraestruturas e as câmaras municipais para os benefícios de redesenhar e adaptar as ruas urbanas de modo a que os limites de velocidade sejam de 30km/h.

Na campanha foram sensibilizadas 2.234 pessoas, tendo mais de 1.100 pessoas assinado uma carta de compromisso da campanha (1.062 presencialmente e 59 online) que apela à implementação de ruas com limites de velocidade reduzida para salvar vidas.

“Com a campanha ‘Compromisso 30 – Ruas com Vida’ foi possível agregar várias entidades em torno da missão de reduzir os atropelamentos em Lisboa, mostrando que os acidentes não são uma fatalidade e as suas consequências mais graves podem ser evitadas através da adoção de comportamentos seguros na estrada, quer por parte dos condutores, quer por parte dos peões”, reforça a ANSR.

O exemplo espanhol

Em Espanha, onde o limite de 30 km/h foi estabelecido em 70% das vias urbanas, os efeitos são já visíveis, sobretudo em localidades onde esta regra vigora há mais tempo, como é o caso de algumas cidades da Galiza, designadamente Pontevedra cuja limitação de circulação de 30 km/h existe desde 2011.

Aliás, em Pontevedra, a última vítima mortal (cidadão de 81 anos) resultante de um atropelamento aconteceu em 2011.

“É sabido que uma redução drástica na velocidade nos espaços urbanos reduz a letalidade e a violência nas ruas de uma forma espetacular”, diz Miguel Anxo Fernández Lores, presidente da câmara da cidade galega. O município de Pontevedra “tomou a decisão há dez anos e os resultados que obtemos são absolutamente espetaculares”.

Para além do número de mortos, também o número de acidentes nas ruas do centro de Pontevedra baixou (531 em 2011, 351 no ano passado); bem como as estatísticas de lesões ligeiras (de 171 para 77); e de feridos graves, ou seja, com necessidade de internamento hospitalar: de uma média de 140 há vinte anos, passou para 21 em 2011 e apenas quatro em 2020.

As autoridades espanholas sublinham que a probabilidade de morrer no caso de se ser atropelado por um automóvel é de 15% se a viatura circular a 30 km/hora. Esse risco eleva-se para 85% se o veículo rolar a 50 km/hora.

Pontevedra

Em declarações à “La Voz de Galicia”, o autarca de Pontevedra lembra que não se trata apenas de colocar cartazes que limitem a velocidade. “É necessário projetar as cidades para fazer cumprir essa limitação”, inserindo estreitamentos de faixa para os automóveis, lombas e passadeiras elevadas entre outras medidas físicas que façam com que os 30 km/h seja uma velocidade real sem que até seja necessária a intervenção de radares.

Estas modificações na via indicam “aos condutores que são eles quem invade o espaço pedonal e não o contrário”, finaliza Miguel Anxo Fernández Lores.

No ano passado, Pontevedra deu mais um passo em frente, aplicando um novo limite de 10 km/h para ruas e áreas de convivência entre peões e veículos.

A lógica é adaptar o trânsito de veículos – sejam eles quais forem, desde automóveis a bicicletas ou scooters elétricas – ao ritmo de um pedestre. Nas entradas dessas áreas já existem placas alertando para esse novo limite.

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