Diogo Lopes
Diogo Lopes
Bolseiro de Pós-Doutoramento do Centro de Estudos do Ambiente e do Mar (CESAM) e do Departamento de Ambiente e Ordenamento (DAO) da Universidade de Aveiro (UA)

Mais de 128 mortes naturais / cardiorrespiratórias registadas em Portugal continental foram atribuídas às elevadas concentrações de PM10 resultantes dos incêndios florestais de outubro de 2017.

O impacto dos fogos de 2017 na qualidade do ar e saúde

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Os incêndios florestais são das catástrofes naturais mais graves em Portugal, pela recorrente ocorrência, pela extensão que atingem e pelos efeitos destrutivos que causam. O ano 2017 ficará para sempre registado como um dos mais mortíferos pelos incêndios florestais.

Entre os dias 15 e 16 de outubro foram registados um conjunto de grandes incêndios florestais (GIFs) que causaram um elevado número de vítimas entre a população civil (45 mortes e cerca de 70 feridos), destruição de centenas de habitações e empresas, assim como, mais de 200.000 hectares ardidos em menos de 24 horas (cerca de 2.4% do território nacional) resultando em diversos danos ambientais entre os quais a degradação da qualidade do ar em Portugal Continental (Fonte).

O período de seca prolongada em que o País se encontrava devido ao impacto das alterações climáticas, o efetivo do dispositivo operacional terrestre parcialmente desmobilizado por já estarmos fora da fase Charlie, numa época de menor incidência de fogos florestais e um fenómeno meteorológico muito pouco usual no território Português (o furação Ophelia) foram identificados como sendo os potenciadores das centenas de ignições que se registaram neste evento extremo de fogo (Fonte).

Descrição dos grandes incêndios florestais

Na região centro de Portugal Continental foram formados sete GIFs (ver Figura 1), produzidos por uma ou mais ignições, que se propagaram de forma contínua entre as 6h00 do dia 15/10/2017 até às 8h00 do dia 16/10/2017. O primeiro alerta de incêndio florestal foi registado no GIF de Seia tendo ardido aproximadamente 17.000 hectares de uma zona de floresta e matos. A segunda ocorrência foi verificada 3 horas mais tarde na freguesia de Vilarinho (GIF de Lousã) no qual arderam cerca de 54.400 hectares. O GIF de Oliveira de Hospital teve início às 10h26 e foi um dos GIFs com maiores impactos com a destruição de várias habitações e instalações industriais, para além de ter resultado numa vasta área florestal ardida (51.430 hectares). Relativamente ao GIF de Sertã, este teve início na freguesia de Ermida e Figueiredo por volta do meio-dia do dia 15/10/2017 (30.980 hectares ardidos). Na zona litoral de Portugal Continental o primeiro alerta de incêndio florestal foi dado por volta das 14h00 nos GIFs de Leiria e Quiaios sendo que estes GIFs contabilizaram um total de 43.841 hectares de área ardida. Por fim, às 17h21 foi registado o último alerta de incêndio no GIF de Vouzela. Para além de ter sido último GIF a ter início foi dos que registou menor área ardida (15.960 hectares) (Fonte).

Localização das estações de monitorização de qualidade do ar (circulo negro) que registaram as concentrações mais elevadas de material particulado (PM10) e identificação das áreas afetadas pelos GIFs nos dias 15 e 16 de outubro de 2017.

Níveis de poluição atmosférica e impactos na saúde humana

Em Portugal, a rede de monitorização de qualidade do ar (Fonte) gerida pela Agência Portuguesa do Ambiente (APA) fornece dados horários das concentrações de gases comuns (e.g. NO2) e material particulado (e.g. PM10). 

Entre os dias 15 e 16 de outubro de 2017, várias estações de monitorização de qualidade do ar em Portugal continental registaram níveis críticos de PM10 (Figura 2). O facto de os fogos florestais emitirem elevados níveis de material particulado (PM10) para a atmosfera e este poluente poder ser transportado a longas distâncias da sua fonte emissora fez com que fossem registadas concentrações médias diárias de 95 µg.m-3, 82 µg.m-3, 138 µg.m-3, 400 µg.m-3 e 75 µg.m-3 de PM10 no Porto, Aveiro, Coimbra, Leiria e Lisboa, respetivamente. Em média estes níveis de poluição atmosférica foram 3 vezes superiores ao definido pela Diretiva da Qualidade do Ar (2008/50/CE) relativo ao valor limite diário de PM10 (50 µg.m-3) para a proteção da saúde humana.

Em termos horários os valores medidos de PM10 variaram entre 0-183 µg.m-3, 28-217 µg.m-3, 53-296 µg.m-3, 42-1000 µg.m-3 e 47-118 µg.m-3 no Porto, Aveiro, Coimbra, Leiria e Lisboa, respetivamente. A estação de monitorização de qualidade do ar que está localizada mais próxima do GIF de Leiria foi a que registou os valores mais elevados tendo as concentrações aumentado consideravelmente a partir das 18h00 do dia 15 de outubro (4 horas depois de ter sido dado o alerta de incêndio florestal no GIF de Leiria).

Concentrações horárias de PM10, entre 15 e 16 de outubro de 2017, registadas pela rede de monitorização de qualidade do ar Portuguesa

Relativamente ao impacto das concentrações de PM10 na saúde humana, devido às suas dimensões microscópicas, este poluente pode penetrar no sistema respiratório causando diversos problemas de saúde nos humanos (e.g. respiratório e cardiovascular). Segundo um estudo publicado recentemente (Fonte), mais de 128 mortes naturais/cardiorrespiratórias registadas em Portugal continental foram atribuídas às elevadas concentrações de PM10 resultantes dos incêndios florestais de outubro de 2017. Os distritos com os valores mais elevados de mortes naturais/cardiorrespiratórias foi Lisboa (36 casos), a região com maior número de habitantes, seguido de Leiria (27 casos), onde foi registado os níveis de PM10 mais elevados. 

Neste sentido uma vez que é expectável que a ocorrência de eventos extremos de fogo sejam cada vez mais frequentes em Portugal é fundamental desenvolver sistemas de previsão operacionais capazes de prever e comunicar a população potencialmente exposta a níveis críticos de poluição atmosférica devido aos incêndios florestais ativos assim como fornecer informações práticas/úteis à população, proteção civil, entidades de saúde e Comissões de Coordenação de Desenvolvimento Regional; de forma a reduzir drasticamente o impacto dos fogos florestais na sociedade e economia.

Este artigo tem a co-autoria de Johnny Reis (aluno de doutoramento da Universidade de Aveiro e Bombeiro Voluntário em Albergaria-a-Velha).

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