Com a transição energética a impulsionar a mudança para a mobilidade elétrica, os concessionários e oficinas automóveis terão também de dar um passo em frente e passar a oferecer soluções de carregamento públicos para veículos elétricos.

A ideia foi avançada por Ricardo Oliveira, CEO do World Shopper e analista do setor automóvel, durante o encontro empresarial da Associação Nacional de Empresas de Comércio e Reparação Automóvel (ANECRA) subordinado ao tema “Híbridos e Elétricos: Está preparado para o futuro?”, que se realizou online esta terça-feira.

“As marcas automóveis já têm estado a fomentar nos concessionários que sejam disponibilizados carregadores. Parece-me que não têm apenas que ser os concessionários. Têm que ser todos os operadores do setor automóvel, dos stands independentes às oficinas, a ter carregadores públicos porque é uma forma de gerar tráfego nessas instalações dos clientes de veículos elétricos”, salienta Ricardo Oliveira.

“É muito importante que esses carregadores sejam públicos. Hoje em dia, já há formas de disponibilizar estes carregadores com um investimento muito reduzido por parte dos operadores. Há empresas que colocam carregadores em parques públicos e depois dividem a receita dos carregamentos com os proprietários destes parques que podem ser oficinas e stands”, afirma Ricardo Oliveira.

Concessionários e oficinas têm de passar a oferecer soluções de carregamento públicos

O responsável do World Shopper vê, de resto, neste investimento uma forma do retalho e da manutenção automóvel se aproximarem de uma nova geração de clientes.

Para este analista, a disponibilização de postos de carregamento de acesso público para viaturas elétricas por parte de concessionários e oficinas irá permitir ainda aos operadores do setor “começar a construir relações” com os proprietários de veículos elétricos e de “começar a perceber quais são as suas necessidades e as suas expectativas e, desta forma, começar também a mudar a mentalidade e as organizações, preparando-as para o advento de mais veículos elétricos”.

Pedro Gonçalves, diretor de marketing da Kia Portugal, que também interveio neste encontro empresarial, subscreve a ideia, afirmando que “a própria venda de energia é uma hipótese” dos concessionários diversificarem as suas fontes de receita perante a nova realidade da eletrificação.

“Já há algumas redes de concessionários a trabalhar nesse sentido de serem também comerciantes de energia, porque vamos ter carregadores em todo o lado, incluindo nas concessões e em todo o tipo de serviços”, diz o responsável da Kia.

Menor manutenção de veículos

O tema da menor manutenção dos veículos elétricos e o impacto que isso terá na rentabilidade do após-venda foi também abordado neste webinar.

Acerca disso, Pedro Gonçalves trouxe outro ponto para cima da mesa: “Acredito que o preço da mão-de-obra [para a assistência das viatutas elétricas, n.d.r.] não pode continuar a ser o mesmo porque estamos a falar, por um lado, de uma mão-de-obra muito mais especializada e, por outro lado, um risco inerente à atividade que é maior [fruto dos técnicos lidarem com equipamentos de alta tensão, n.d.r.]”.

“O preço da mão-de-obra tem de evoluir” de forma a conseguir compensar parcialmente as perdas, entende o responsável da Kia que admite que a mão-de-obra, “se calhar, terá de custar o dobro”.

Pedro Gonçalves declara “que o consumidor terá de perceber isso e cabe também às marcas consicencializá-lo para isso”.

Aposta noutros serviços

Paralelamente, o diretor de marketing da Kia Portugal sublinha a importância das marcas trabalharem em conjunto com as suas próprias redes de retalho “noutro tipo de serviços que possam ser cobrados aos próprios consumidores e que sejam valorizados por eles mesmos”.

Pedro Gonçalves refere que “há um desafio do lado do retalho, mas também do lado das marcas para criar essas oportunidades e novos serviços de mobilidade”.

Uma das ideias sugeridas por Pedro Gonçalves passa, por exemplo, pela disponibilização de uma App e de uma subscrição especial, através da qual o consumidor pode conseguir uma autonomia maior para o seu veículo elétrico em determinados períodos de tempo em que precise de um maior alcance para realizar os trajetos que idealizou.

Ricardo Oliveira, da World Shopper, tem a mesma opinião: “Há muitas oportunidades na eletrificação. Apesar dos veículos elétricos terem uma menor manutenção, é possível criar um serviço de após-venda rentável que vai funcionar com estes veículos. Está tanto na mão dos concessionários, como na mão dos operadores independentes. Os automóveis elétricos vão precisar de ser assistidos e vamos ter que repensar a forma como servimos o cliente”.

Outro tipo de test drives, precisam-se

Nesta troca de ideias à volta dos desafios da eletrificação para o setor automóvel, Ricardo Oliveira defendeu a necessidade de mudança “de uma mentalidade de combustão para uma atitude mais elétrica” no modo como também os concessionários apresentam os veículos elétricos aos seus potenciais compradores.

“Isto tem a ver, não apenas com o conhecer a fundo o produto e o veículo elétrico, mas também com todo o ecossistema que envolve o veículo elétrico. Para isso não basta um test drive curto com um elétrico: não basta irmos a uma apresentação de um novo modelo elétrico ou estudarmos na teoria os veículos elétricos. É preciso mesmo viver com veículos elétricos, assentes em experiências de longo prazo com EV. Ou seja trazer os EV para o dia-a-dia”, defende Ricardo Oliveira.

Para este analista “há uma oportunidade única no mercado neste momento, graças a esta transição energética”.

Segundo Ricardo Oliveira, “o setor automóvel está constantemente a comunicar para os seus potenciais clientes sobre novos modelos e campanhas e os clientes têm já dificuldade em ouvir tanta informação vinda de tantas marcas e operadores diferentes. A vantagem que me parece que há aqui, no caso da mobilidade elétrica, é que os clientes estão à procura de respostas, têm dúvidas, precisam de esclarecimentos e isso faz com que estejam recetivos a falar com o setor, a se relacionarem com os operadores”.

E esta abertura permite – na perspetiva deste consultor – posicionar os profissionais do setor para poderem apresentar as melhores propostas elétricas aos consumidores.

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