Rui Ganhão
Rui Ganhão
Investigador doutorado do MARE (Centro de Ciências do Mar e do Ambiente) do Politécnico de Leiria e coordenador da licenciatura de Engenharia Alimentar da ESTM/IPL

O atual enquadramento provocado pelo COVID19 originou alterações comportamentais nas pessoas no que diz respeito a necessidades e hábitos de consumo. A Euromonitor International identificou as novas tendências globais de consumo no sector alimentar para 2021, como a sustentabilidade e responsabilidade social, desejo por conveniência, segurança e fortalecimento do digital.

Sector Alimentar: novos e interessantes desafios

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As projeções indicam um crescimento demográfico que pode chegar em 2050 a 9,5 mil milhões de pessoas, correspondendo a um aumento de cerca de 60% na produção de alimentar.

No entanto, o potencial produtivo das áreas de cultivo sustentável ronda um aumento de 20%, apresentando assim um desafio à Engenharia Alimentar.

Os hábitos alimentares de consumo tem vindo a alterar devido a diferentes fatores socioeconómicos, a diferentes perfis de consumidor e até por questões de segurança alimentar.

Ligar mar e terra

Nos últimos anos o Politécnico de Leiria através do curso Engenharia Alimentar e da investigação aplicada desenvolvida no MARE -Politécnico de Leiria tem vindo a interagir com a indústria de modo a interligar os recursos alimentares marinhos e os recursos de origem animal e vegetal provenientes da terra.

Na área dos recursos alimentares marinhos já foram desenvolvidos (e em execução) mais de 40 projetos  e estabelecidas cerca de 100 parcerias com diferentes empresas.

Esta dinâmica tem contribuindo inclusivamente para ancorar o lançamento de produtos alimentares inovadores. Também aqui são aplicadas novas tecnologias, que preservam e valorizam diversas matérias primas com incremento de valor na cadeia de transformação.

A título de exemplo refere – se o projeto em execução, “PAS – Paté de Percebe com Amora Silvestre”, do programa Mar 2020. O PAS tem como objetivo principal tirar partido do conceito de economia circular, em que um subproduto é um recurso para outra atividade económica, pretende-se no final criar uma cadeia de valor que justifique o não desperdício do recurso através da implementação de novos processos ou a criação de novos produtos, isto é a elaboração de um paté de percebe com adição de frutos silvestres.

Agroalimentar português é resiliente

Nos últimos anos o sector alimentar tem vindo a consolidar-se no panorama europeu, sendo que Portugal não é exceção. Apesar do quadro pandémico que atravessamos, segundo os dados do INE de 2020, no que diz respeito ao setor das exportações pode-se concluir que o setor dos alimentos e bebidas foi o menos afetado.

A fileira alimentar e, em particular, a industria agroalimentar, demonstrou ao longo  destes dois anos de crise pandémica a sua capacidade de se adaptar ás novas necessidades e a um novo perfil de consumidor. 

A FoodDrink_Europe refere que a indústria alimentar continua a ser o maior sector de produção em termos de volume de negócios, valor acrescentado e emprego, sendo um dos principais motores da economia europeia.

Assim, a indústria alimentar tem a responsabilidade de continuar a gerar crescimento e empregos sempre com o objetivo de garantir o bem-estar do consumidor, e não esquecendo, obviamente, a sustentabilidade.

Um desafio será formar e interagir com novos técnicos alimentares com formação específica e diferenciada, de modo a abordar os desafios de forma responsável, criando soluções integradas com os restantes sectores da economia. Este é claramente um dos objetivos da licenciatura de Engenharia Alimentar do Politécnico de Leiria.

Objetivos do Setor alimentar

Atualmente os sistemas alimentares deverão estar projetados em solucionar problemas relacionados com:

i) saúde (desnutrição, obesidade, diabetes)
ii) sociais (pobreza, migrações, pressão da urbanização) e
iii) ambientais (decréscimo dos recursos naturais, perda de biodiversidade, alterações climáticas e desperdício alimentar).

Tendo em consideração estes desafios surgiu a necessidade de efetuar a transição para sistemas alimentares sustentáveis. Neste sentido na agenda 2030, a ONU estabeleceu os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS).

Por outro lado, os sistemas alimentares tendo como base a Engenharia Alimentar devem garantir o abastecimento alimentar com produtos saudáveis, seguros e nutricionalmente equilibrados utilizando recursos naturais de forma sustentável.

Entender o consumidor

Um outro desafio será percebermos como está a evoluir o “perfil de consumidor”, no que diz respeito às diferentes opções de compras e de dietas.

O atual enquadramento provocado pelo COVID19 originou alterações comportamentais nas pessoas no que diz respeito a necessidades e hábitos de consumo. A Euromonitor International identificou as novas tendências globais de consumo no sector alimentar para 2021 e pode-se estabelecer uma relação apertada com alguns conceitos, tais como:

  • sustentabilidade/responsabilidade social;
  • desejo por conveniência,
  • segurança
  • e fortalecimento do digital.

A resiliência e a adaptabilidade são características que estão bem presentes na atualidade.

No passado mês de fevereiro a Inovcluster  e o INSA divulgaram também um estudo sobre as novas tendências alimentares para o sector agroalimentar e alimentação saudável.

Este estudo destaca a transparência na comunicação/rotulagem interligada com a certificação; a produção de alimentos sem “terra” e o surgimento de mais alternativas vegetais; uma maior preocupação  em procurar alimentos que protejam a saúde e o bem estar global (conforto, imunidade, nutrição personalizada); por outro lado também foi revelado neste estudo que há uma tendência crescente do “online” na informação e utilização de novas aplicações que facilitam a escolha, compra e pagamento dos alimentos; por fim é referida a tendência  do comprar “local no local”, aqui também com a interação “ do digital” com as lojas de bairro.

Novas tendências e Certificação

Segundo dados do INSA nos próximos anos haverá um crescimento nos alimentos fermentados (8%), um aumento do mercado global do microbiana humano (23%) sendo que o mercado global de produtos de saúde tenha um crescimento de 7%.

Uma realidade que está em crescendo é a utilização das apps para a escolha/seleção dos alimentos a comprar, com recurso ao perfil nutricional de cada alimento e á “descodificação” do rótulo

Outro percurso que o sector terá que percorrer apesar de ser um processo voluntário, é a certificação, pois é fundamental na melhoria continua do sistema de gestão alimentar. As empresas certificadas podem promover e competir de uma maneira mais eficiente. Por outro lado, a certificação é a confiança transmitida na compra do alimento.

Os tempos atuais são anos de grandes desafios e oportunidades para o sector alimentar e para a Engenharia Alimentar. A crise gerada pelo COVID19 colocou diferentes desafios ás instituições do ensino superior que responderam de maneira a procurar as soluções. Visando a retoma e considerando que a fileira alimentar corresponde ao sector produtivo que maiores e mais rápidos contributos poderá prestar a Portugal no seu caminho da recuperação económica e financeira,

Deverá ser dada especial atenção á articulação entre o ensino, a investigação e a transferência do conhecimento de modo a que surja uma parceria forte com a Industria Alimentar e com a Ordem dos Engenheiros na valorização do Engenheiro Alimentar.

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