A diversidade de peixes de água doce existentes no mundo, que é crítica para a saúde, segurança alimentar e subsistência de centenas de milhões de pessoas, está cada vez mais em perigo. Uma em cada três espécies está já ameaçada de extinção, de acordo com o relatório “Peixes Esquecidos do Mundo”, publicado por 16 organizações internacionais de conservação.

“A crise mundial da natureza tem tido mais impacto nos nossos rios, lagos e zonas húmidas, como em mais nenhum lugar, e o indicador mais claro dos danos que estamos a causar é o rápido declínio das populações de peixes de água doce. É um sério alerta a que temos de prestar atenção”, disse Afonso do Ó, especialista em água da ANP|WWF.

“Apesar da sua importância para as comunidades locais em todo o mundo, os peixes de água doce são invariavelmente esquecidos e desconsiderados sempre que são tomadas decisões relativas a barragens hidroelétricas ou utilização de água”, refere Afonso do Ó.

Cláudia Correia, especialista em gestão pesqueira de base comunitária, considera que em Portugal, “os ecossistemas de água doce são importantíssimos para o ciclo de vida de espécies migradoras, que utilizam estes sistemas para desova ou crescimento. A perda de habitats associada à construção de barreiras nos cursos de água, a extração de inertes, a poluição e a pesca comercial desajustada e sem obrigação de declaração, constituem ameaças para estas espécies, levando ao seu declínio no nosso país”.

Foto: James Suter/Black Bean Productions/WWF-US

Esta especialista em gestão pesqueira destaca que “espécies como o sável, a lampreia-marinha, e o salmão têm visto as suas populações diminuírem devido à inacessibilidade dos locais de desova. Por outro lado, a sobrepesca e atividades de pesca ilegais contribuem amplamente para este declínio, especialmente para a enguia, em que a pesca ilegal (de meixão), apesar de estar regulamentada como crime, continua a ter uma forte expressão”.

O relatório detalha a variedade mundial das espécies de peixes de água doce, com as últimas descobertas a elevarem o total para 18.075 – representando mais de metade de todas as espécies de peixes do mundo e um quarto de todas as espécies de vertebrados na Terra.

“A pesca em água doce constitui a principal fonte de proteína para 200 milhões de pessoas em toda a Ásia, África e América do Sul, bem como empregos e meios de subsistência para 60 milhões de pessoas. As populações saudáveis de peixes de água doce também sustentam duas enormes indústrias globais: a pesca recreativa gera mais de 100 mil milhões de dólares anuais, enquanto os peixes de aquário são os animais de estimação mais populares do mundo e impulsionam um comércio global estimado em até 30 mil milhões de dólares”, afirma a ANP| WWF.

Foto: Jeremy Shelton

Contudo, apontam os ambientalistas, os peixes de água doce continuam a ser subvalorizados e negligenciados – e milhares de espécies estão agora a caminhar para a extinção.

Denunciam os ecologistas que a perda de biodiversidade de água doce é duas vezes superior à dos oceanos ou florestas.

“De facto, 80 espécies de peixes de água doce já foram declaradas “Extintas” pela Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas da IUCN, incluindo 16 só em 2020. Entretanto, as populações de peixes migratórios de água doce diminuíram 76% desde 1970 e os grandes-peixes, uns catastróficos 94%”, afirma a ANP| WWF.

Ameaças também em Portugal

O relatório destaca ainda a combinação devastadora de ameaças que os ecossistemas de água doce enfrentam, ameaças às quais Portugal não escapa, e que incluem a destruição de habitats, barragens e outras barreiras em rios de curso livre, captação de água para irrigação, e poluição doméstica, agrícola e industrial.

Além disso, os peixes de água doce também estão em risco devido à pesca excessiva e às práticas de pesca destrutivas, à introdução de espécies não nativas invasoras e aos impactos das alterações climáticas, bem como à extração não sustentável de areia e crimes contra a vida selvagem, referem os ambientalistas.

“Há uma longa lista de ameaças, mas há também soluções – e 2021 oferece uma esperança real para que o mundo possa inverter a maré e começar a reverter décadas de declínio das populações de peixes de água doce”, afirmam os ecologistas.

Foto: Petteri Hautamaa WWF Finland

Para a ANP|WWF, “o mundo deve aproveitar a oportunidade para assegurar um acordo global ambicioso sobre biodiversidade na conferência da Convenção das Nações Unidas sobre Diversidade Biológica em Kunming, China – um acordo que deve, pela primeira vez, prestar tanta atenção à proteção e restauração dos nossos sistemas de apoio à vida em água doce como à proteção de florestas e oceanos do mundo”.

Relatório online pode ser acedido aqui.

Para Afonso do Ó, “a boa notícia é que hoje sabemos o que é preciso fazer para salvar os peixes de água doce. Assegurar um novo acordo para os ecossistemas de água doce do mundo irá trazer vida de volta aos nossos rios, lagos e zonas húmidas em vias de extinção. Também retirará espécies de peixes de água doce da ameaça de extinção – assegurando alimentos e empregos para centenas de milhões de pessoas, salvaguardando ícones culturais, aumentando a biodiversidade e melhorando a saúde dos ecossistemas de água doce que sustentam o nosso bem-estar e prosperidade”.

Em que se deve basear o novo acordo?

Em concreto – aponta a ANP|WWF, este Novo Acordo para a Natureza e as Pessoas deve basear-se na transição de água doce delineada na 5ª Perspetiva Global de Biodiversidade da CDB, “que ecoa os 6 pilares do Plano de Recuperação de Emergência para a biodiversidade de água doce liderado pela WWF – um plano abrangente que pode fornecer soluções à escala necessária para inverter o colapso das populações de peixes de água doce”.

“O que precisamos agora é de reconhecer o valor dos peixes de água doce e da pesca, e que os governos se comprometam com novas metas e implementação de soluções, bem como de dar prioridade aos ecossistemas de água doce que necessitam de proteção e restauração. Precisamos também de ver parcerias e inovação através de ações coletivas envolvendo governos, empresas, investidores, sociedade civil e comunidades, à semelhança do trabalho de parceria que a Rede Douro Vivo, à qual a ANP|WWF pertence, fez nos últimos anos na bacia hidrográfica do Douro”, disse Afonso do Ó.

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