O estudo “Conhecer os desafios ajuda a encontrar o caminho? Portugal: Desafios para 2021” da consultora Ernst & Young (EY) coloca como tema prioritário a sustentabilidade e o investimento em recursos humanos.

No Watts On estamos a destacar os aspetos mais relevantes da análise da EY em torno da sustentabilidade num conjunto de seis artigos.

Depois de termos abordado o Eco-Living, a redifinição da estratégia das empresas com a agenda ESG (Environmental, Social and Governance), o setor financeiro como mola para apoiar as empresas em projetos sustentáveis e a longo prazo, salientamos neste quarto artigo os desafios que o país enfrenta para garantir que possui os recursos humanos necessários para suportar a transição para uma economia neutra em carbono até 2050.

Na perspetiva da EY, estes desafios “são de grande dimensão e exigem um investimento substancial”.

Resposta à crise pandémica e económica

Num artigo assinado por Manuel Mota (Partner EY, Financial Accounting & Advisory Services) e por Bernardo Rodrigues Augusto (Manager EY, Climate Change & Sustainability Services) salientam que “a pandemia instituída pela COVID-19 desviou a Europa da sua rota transformadora para uma sociedade moderna e próspera, eficiente no uso de recursos e baixa em carbono, estabelecida pelo Pacto Ecológico Europeu”.

Os consultores afirmam que “é agora preciso continuar a dar a resposta necessária à crise pandémica, mas também à crise económica e social que daí resultou, de uma forma coesa, sustentável e inclusiva, retomando uma trajetória de crescimento sustentado”.

Estes especialistas referem que o Plano Preliminar de Recuperação e Resiliência (PRR) está organizado em nove roteiros para a retoma do crescimento sustentável e inclusivo, “entre os quais se encontra o potencial produtivo e emprego, sob o pilar da resiliência. Contudo, a relevância deste tema não se encerra na resiliência social e económica, sendo também uma temática crucial para a transição climática”.

Na visão da EY, os desafios que o país enfrenta para garantir que possui os recursos humanos necessários para suportar a transição para uma economia neutra em carbono até 2050 são, em primeira instância, relativos aos empregos já existentes nos setores em transição.

Setor de energia com grandes transformações

“O setor da energia é aquele que enfrenta maiores transformações, pois necessita de abandonar não só os recursos fósseis, mas também a maioria dos processos e infraestruturas associados a este modo de produção de energia. A transição para energias renováveis como a solar, a eólica e o hidrogénio requer a requalificação dos trabalhadores de todo o ecossistema deste setor, garantindo que ninguém fica para trás”, referem estes analistas.

No âmbito da indústria, a EY destaca a necessidade do trabalho especializado e qualificado para suportar a transição para tecnologias mais eficientes e desenvolvimento de modos de produção inovadores.

Setores estratégicos para a descarbonização e bioeconomia

“O PRR identifica os setores têxtil e vestuário, calçado e da resina como setores estratégicos para a descarbonização e bioeconomia. Mas de fora não devem ficar as indústrias petroquímicas e do cimento que, em conjunto com a produção de energia, constituem as atividades com maiores emissões de carbono em Portugal”, lembram os consultores.

Para a EY, “é preciso capacitar o setor da construção para fazer face ao problema urgente da reabilitação de edifícios, melhorando a sua eficiência energética e, consequentemente, combatendo a pobreza energética mas também, investir na inovação tecnológica e no emprego científico que suporta o desenvolvimento de materiais e técnicas de construção inovadoras que melhoram não só a performance energética dos edifícios, mas também a performance ambiental, através de materiais de origem biológica que atuam como reservatórios de carbono e produzem menos resíduos”.

No setor primário, é preciso também investir na renovação e qualificação do emprego e dos recursos humanos, salienta a consultora que acrescenta que a agricultura, a floresta e a aquacultura (na produção de algas) representam atividades importantes para a neutralidade carbónica pelo seu potencial de captura de carbono.

Criação de soluções para o combate às alterações climáticas

“A restruturação e qualificação do emprego neste setor potencia a criação de soluções para o combate às alterações climáticas, cujo desenho inovador pode ainda beneficiar outros aspetos ambientais como a proteção e promoção da biodiversidade”.

O documento da EY sublinha ainda que, além dos empregos em transição, existem também oportunidades e desafios nos novos empregos verdes.

“O setor terciário, que representa 69.8% da população portuguesa empregada, pela sua aparentemente reduzida utilização de recursos e emissões de carbono, fica frequentemente fora do âmbito da transição energética. É por isso importante dotar este setor de profissionais altamente qualificados, com capacidade de compreender e abordar a complexidade das próprias organizações, do seu funcionamento e das suas interligações com os sistemas naturais, para garantir a transição energética e ecológica deste setor, acompanhando inovações nos modelos de negócio e temáticas emergentes tais como a sustainable finance”.

“Os investimentos previstos para o potencial produtivo e emprego no PRR podem assim configurar uma resposta integrada aos desafios das qualificações e emprego levantados pela pandemia e pela transição climática, simultaneamente”, concluem os analistas.

Deixe um comentário

avatar
  Subscribe  
Notify of