A sustentabilidade – da produção ao consumo, dos comportamentos às decisões tratéticas – é um dos grandes desafios que o nosso país enfrenta para este ano, de acordo com a consultora Ernst & Young (EY).

A análise consta do estudo “Conhecer os desafios ajuda a encontrar o caminho? Portugal: Desafios para 2021” que o Watts On leu.

Dentro do capítulo da sustentabilidade, a EY enumera seis aspetos que vamos destacar noutros tantos artigos.

Este primeiro diz respeito ao Eco-Living: “Esta nova realidade, moldada por um contexto de incertezas e transição de valores, gira em torno da casa e do ambiente familiar na procura pelo equilíbrio perdido entre a vida pessoal e a vida profissional. É o foco nesse bem-estar que tem vindo a despertar uma maior consciência para o impacto da pegada individual, que se traduz no aumento do consumo ético – um tipo de consumo centrado em valores como a sustentabilidade, os direitos humanos, o bem-estar dos animais ou as condições de trabalho mais justas”, refere Sara Rego, Senior Consultant Business Design & Transformation.

Esta especialista cita o mais recente relatório conduzido pela EY em Portugal – o Future Consumer Index -, segundo o qual cerca de 29% dos consumidores confirma a intenção de serem mais conscientes sobre as suas ações e o impacto que elas têm no mundo. “Quer seja por convicção e alinhamento de valores, quer pelo receio do impacto negativo (e dramático) do atual modelo de economia linear na qualidade de vida das pessoas, a verdade é que esta alteração na intenção de compra e comportamento exerce uma forte pressão sobre as marcas e organizações com vista a uma resposta mais célere e a um maior compromisso na resposta a estas novas necessidades”, destaca Sara Rego.

Estudo completo da EY aqui.

“Este despertar de consciência estende-se à forma como comemos, como nos vestimos, trabalhamos, viajamos ou nos mantemos saudáveis. 2021 transformará aquilo que é hoje uma necessidade – a procura pelo bem-estar – num estilo de vida mainstream”, considera a EY no documento “Conhecer os desafios ajuda a encontrar o caminho? Portugal: Desafios para 2021″.

A consultora descreve algumas tendências Eco-Living que marcarão este ano.

O vestuário torna-se minimalista

“A segunda indústria mais poluente a nível mundial é uma das mais impactadas pela pandemia – a crescente consciência dos efeitos adversos da indústria têxtil no ambiente tem impulsionado a procura por marcas mais éticas”, escreve a consultora.

Sara Rego lembra uma recente abordagem da Business Research Company (BRC) que estima que o mercado global da moda ética cresça de $6.35 mil milhões em 2019 para $8.25 mil milhões em 2023 com uma taxa de crescimento anual composta de 6,8%.

consumo

“Contudo, como resultado do encerramento das lojas físicas, o distanciamento social e o trabalho remoto, o vestuário deixou de ser uma prioridade na vida das pessoas. As marcas tiveram que se reinventar, transitar para o online e repensar o seu posicionamento para atrair este segmento cada vez mais crescente de consumidores informados e conscientes. Estes procuram marcas alinhadas aos seus valores e estão dispostos a procurar alternativas que respondam a essa necessidade”, salienta a especialista da EY.

Ou seja, o consumo está a obedecer, cada vez mais, a novos critérios.

Nesse sentido, em 2021, a moda digital terá continuidade, com desfiles online e designs em 3D, antevê a EY. “A sustentabilidade tornar-se-á o foco das grandes marcas, com novas agendas para a redução da sua pegada de carbono, aposta num modelo de negócio mais circular e maior foco na diversidade e inclusão das suas coleções e comunicação”.

Já os consumidores – salienta a consultora – “irão continuar a fazer escolhas mais ponderadas, apostando em guarda-roupas cápsula, um conceito de armário minimalista, compacto e versátil, que promove a reutilização de peças-chave”.

Maior flexibilidade na alimentação

Em termos de Eco-Living, a EY aponta ainda a transformação trazida pela pandemia ao quotidiano, aos nossos hábitos de consumo e comportamentos – incluindo o que comemos, como comemos e como nos mantemos saudáveis. “Com a saúde e bem-estar a assumir posições de destaque nas nossas prioridades, a alimentação continuará a ter um papel importante durante o próximo ano”.

Uma das tendências, afirma Sara Rego, Senior Consultant Business Design & Transformation, serão os “superalimentos” e a ativação do sistema imunitário.

consumo

Sara Rego recorre a um estudo da Market Research, que diz que mais de 50% dos consumidores afirmaram ter tomado mais suplementos de estímulo ao sistema imunitário em 2020.

“Para além do sistema imunitário, haverá também uma maior preocupação na escolha de uma alimentação que sirva um propósito – verificar-se-á um maior apoio à economia e produção ao nível da comunidade. Esta tendência provocará, também, uma alteração na dieta alimentar no sentido de incluir práticas alimentares mais sustentáveis e amigas do ambiente – como, por exemplo, reduzir o consumo de carne ou optar por refeições à base de vegetais. A ideia é ter uma dieta flexível, ou seja, apostar num consumo moderado de carne e alimentos de origem animal. De acordo com um estudo da Statista, mais de 60% dos Millennials nos EUA estão interessados em adotar esta dieta”, declara a EY.

Formas de trabalhar mais híbridas

A consultora EY afirma que a “disrupção causada pela COVID-19 a vários níveis e o stress de um contexto desconhecido, têm vindo a provocar um aumento de depressões e doenças do foro psicológico que impactam fortemente o desempenho profissional. Dado o estigma em torno destes temas, a tendência é evitar o assunto no local de trabalho e refugiar-se na tecnologia”.

A esse respeito, na sua análise, Sara Rego dá conta de um estudo conjunto da Oracle e Workplace Intelligence, segundo o qual 80% dos inquiridos optariam por uma resposta rápida, imparcial e sem julgamento de um robot em detrimento de um ser humano, no que toca à resolução de problemas de stress ou psicológicos.

consumo

“No sentido de encontrar soluções para estes problemas, várias organizações têm apostado em parcerias com empresas de tecnologias de bem-estar, que ajudem os colaboradores a meditar, a manterem-se em forma e a promoverem uma dieta saudável (ex.: Headspace, Calm ou BetterHelp). A pandemia provocou, também, mudanças nas expectativas dos colaboradores face às organizações. Estes esperam um maior compromisso por parte dos empregadores em fazer a diferença – horas de trabalho mais flexíveis, licença remunerada, instalações seguras, formação ou apoio à saúde mental – e um maior alinhamento com os seus valores pessoais”, afirma Sara Rego.

“Para ajudar a colmatar os problemas de isolamento provocado pelo trabalho remoto, a tendência será a adoção de espaços e equipas de trabalho híbridas, conciliando trabalho remoto e presencial promovendo, ao mesmo tempo, a socialização, a independência e a flexibilidade”, declara a EY.

Viagens mais “smart”

consumo

A procura do bem-estar estende-se também à forma como viajamos, salienta também a EY na sua reflexão.

Assim, este ano de 2021 será pautado por “um crescente aumento das escapadelas domésticas para repouso e recuperação de energias, nomeadamente para zonas rurais, com especial atenção para locais que ofereçam retiros, aulas de meditação e ioga ou terapias de spa”, afirma Sara Rego.

“As viagens mais longas serão ponderadas e os consumidores optarão por destinos com baixa incidência de COVID-19 e estâncias com certificado de segurança sanitária. O consumo consciente chegou também às viagens com uma maior preocupação por parte dos consumidores sobre o impacto ambiental das suas ações – prevê-se um aumento na procura de locais com práticas amigas do ambiente e com forte compromisso na redução da pegada ambiental. Nesse sentido, muitas organizações do setor do turismo estão a repensar as suas estratégias de negócio com vista a desenvolver uma abordagem holística de férias que promova a redução dos efeitos ambientais durante a estadia de um hóspede”, conclui a EY.

Na introdução do estudo da EY, João Alves, Country Managing Partner da EY Angola, Portugal, Moçambique, salienta que o ano de 2020 ficou marcado pela pandemia e pelos seus impactos sociais e económicos, “numa chamada à realidade do modelo de desenvolvimento e de sociedade em que vivemos”. De acordo com este consultor, o ano de 2021 “vai trazer dois tipos de desafios: por um lado, vai expor consequências económicas da pandemia que têm vindo a ser mitigadas pelas medidas de apoio do Estado; por outro, vai tornar claro que o mundo pós-pandemia é diferente, com clientes e colaboradores que evoluíram para além do que era o padrão no início de 2020”. De todos estes desafios, afirma João Alves, “emerge uma tendência cada vez mais segura e que a EY já defendia antes da pandemia: fenómenos globais como as alterações climáticas e uma postura mais atenta das novas gerações estão a traduzir-se numa reorientação das prioridades dos investidores, tornando cada vez mais importante a adoção de estratégias de criação de valor a longo prazo, que atendem às necessidades de todos os stakeholders: acionistas, colaboradores, clientes e a sociedade em geral”.

Deixe um comentário

avatar
  Subscribe  
Notify of