As temperaturas muito baixas no passado fim-de-semana de 16 e 17 de janeiro (sábado e domingo) conduziram a um episódio de poluição particularmente grave pelas enormes emissões provenientes do uso de lenha em muitas habitações em zonas urbanas e rurais que se verificaram desde a Península de Setúbal até à Região Norte, denuncia a associação Zero.

“As condições meteorológicas particulares envolvendo vento fraco e uma inversão térmica, limitando assim uma maior dispersão dos poluentes, quer horizontal, quer vertical, conduziram a concentrações muito elevadas de alguns poluentes, com destaque para as partículas resultantes da queima de biomassa”, afirmam os ambientalistas.

A Zero, através da consulta ao site da Agência Portuguesa do Ambiente que disponibiliza as medições, identificou que no domingo, dia 17 de janeiro, foi ultrapassado o valor-limite diário de partículas inaláveis (PM10) (50 μg/m3) em cinco estações de monitorização de qualidade do ar das redes geridas pelas diferentes Comissões de Coordenação e Desenvolvimento Regional.

As duas piores situações – aponta a Zero – verificaram-se nas estações de Paio-Pires no Seixal e em Estarreja, com valores médios diários de 87 μg/m3 e 83 μg/m3, respetivamente. Ao mesmo tempo, e nessas duas estações, foi superado também de forma significativa o valor médio diário recomendado pela Organização Mundial de Saúde para as partículas finas (PM2,5) de 25 μg/m3, tendo-se atingido 73 μg/m3 e 72 μg/m3 em Estarreja e no Seixal, respetivamente.

Área Metropolitana de Lisboa Sul

Na Área Metropolitana de Lisboa Sul, envolvendo concelhos como Almada, Barreiro e Seixal, o índice de qualidade do ar no domingo foi mesmo “mau”, refere a associação. A norte do Tejo, três zonas apresentavam um índice “fraco” e as restantes “médio”, com uma única exceção no interior centro.

“O perfil das concentrações ao longo do dia é coincidente, entre as várias estações de monitorização, com um pico ao final do dia e início da noite, precisamente quando o aquecimento através de lareiras é mais utilizado”, dá conta a Zero.

Em baixo encontra-se a figura relativa aos dados de partículas inaláveis (PM10) da estação de monitorização de Paio Pires no Seixal para sábado e domingo, dias 16 e 17 de janeiro, respetivamente.

Região Norte sem medições de partículas

A associação ambientalista denuncia ainda o facto da região Norte não ter medições de partículas “quando a situação era ainda mais grave que no Centro litoral e arredores de Lisboa”. Ao todo, encontram-se 21 estações de medição sem dados de partículas e uma estação com dados duvidosos

“Na consulta corrente que a Zero efetua às medições de qualidade do ar através da internet, sobressai um alerta urgente para a necessidade e obrigação de disponibilização de dados em muitas estações da Região Norte. No dia 17 de janeiro, não existiam dados de partículas inaláveis (PM10) disponíveis em 21 estações, nem dados relativos a partículas finas (PM2.5) que deveriam ser disponibilizados em cinco estações. Face às temperaturas registas, o Norte Litoral de Portugal muito provavelmente apresentaria concentrações ainda mais elevadas do que as restantes zonas do país”, salienta a associação.

ZERO quer soluções alternativas à queima ineficiente de biomassa dados os prejuízos para a saúde

A Zero considera que este episódio de poluição é “consequência da falta de políticas que alertem para a perigosidade do uso excessivo de lenha, principalmente de forma ineficiente, e do custo que soluções alternativas estruturais têm, a começar pela sustentabilidade energética dos edifícios, à promoção de sistemas de climatização ativa eficientes e menos poluentes”.

Recorrer “ao uso de biomassa através da queima de lenha em lareiras deve ser feito recorrendo a recuperadores de calor tão eficientes quanto possível ou através de sistemas a pellets”, afirma a Zero.

Uso de biomassa: moderado ou proibido

Os ecologistas salientam que “a utilização de biomassa deve ser, no entanto, sempre moderada ou mesmo proibida em determinadas circunstâncias meteorológicas, porque a queima de madeiras, de acordo com o tipo de instalação, pode causar uma poluição do ar muito significativa por partículas com grandes prejuízos para a saúde pública, podendo ainda prejudicar a qualidade do ar interior, e em algumas situações, tal como aquando do uso de braseiras, provocar intoxicações por monóxido de carbono que podem levar à morte”.

A Zero alerta que é fundamental avançar com a estratégia para a reabilitação de edifícios públicos e privados, que no seu entender “é a medida verdadeiramente estruturante e de longo prazo que é necessário implementar e cujo avanço deve ter lugar em breve. Da mesma forma, a estratégia de combate à pobreza energética é um elemento essencial para lidar com a incapacidade de muitas famílias para conseguirem garantir conforto térmico nas suas casas”.

Aparelho respiratório afetado
“Os efeitos das partículas inaláveis na saúde humana manifestam-se sobretudo ao nível do aparelho respiratório, dependendo da sua composição química. As partículas em suspensão de maiores dimensões são normalmente filtradas, podendo estar relacionadas com irritações ao nível do nariz e das vias respiratórias superiores, e hipersecreção das mucosas. Já as partículas mais finas são normalmente mais nocivas dado que atingem os pulmões em profundidade e passam para a corrente sanguínea, causando e/ou agravando doenças respiratórias e cardiovasculares, e até cancro do pulmão”, informa a Zero.

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