Jean Graton, autor francês, natural de Nantes, e argumentista de banda desenhada criador da personagem Michel Vaillant, que faleceu esta quinta-feira, com 97 anos de idade foi “um verdadeiro embaixador do desporto motorizado”, cuja obra e paixão influenciaram gerações de leitores e criaram um universo que ainda hoje “brilha nas livrarias”, na descrição da editora Dupuis.

Desde 1957, quando Michel Vaillant se fez à estrada no mundo dos quadradinhos (primeiro com quatro histórias de quatro páginas cada e mais tarde, em 1959, no seu primeiro álbum em “Le Grand Défi” – “O Grande Desafio”) que as peripécias do famoso piloto criado por Graton têm passado por todos os cantos do globo e pelas mais variadas pistas e cenários, sempre com grande realismo e rigor na transposição para o papel.

“Jean Graton [10 agosto 1923 – 21 janeiro 2021] foi o último ‘monstro sagrado’ da época de ouro da banda desenhada franco-belga, ao lado de nomes como Franquin, Albert Uderzo e René Goscinny”, lembrou a editora Dupuis.

Ainda que as histórias sejam fictícias, nos enredos entram múltiplos pilotos (até o português Pedro Lamy, em “A prova”, de 2003) e equipas reais (de Fórmula 1, de Resistência e Ralis), que revelavam uma grande paixão automobilística. Não obstante Vaillant tenha conduzido esmagadoramente veículos com motores térmicos, este intrépido ás do volante teve também nas mãos, pelo menos, um automóvel elétrico, numa história criada por Philippe Graton (filho de Jean Graton) e Denis Lapière.

Com efeito, no álbum “Voltage” (“Voltagem”, em português), de 2013 (editado entre nós pelas Edições ASA/Público), Michel Vaillant dirige-se para Bonneville Salt Flats (Lago Salgado de Bonneville) para a tentativa de estabelecer o recorde mundial de velocidade com um veículo elétrico.

Recorde de velocidade na mira

A trama da história remete para a mesma atmosfera de “Match 1 por Steve Warson” (de 1968 e editado entre nós pelas Edições Autosport), quando Vaillant e o seu amigo Steve Warson tentam bater a velocidade do som, na América, a bordo do Sonic Bird.

Desta feita, a aventura passa-se com um supersónico veículo elétrico, um automóvel Vaillant inspirado no Venturi VBB-3 BuckeyeBullet (Venturi VBB-3).

“Voltage” tem a particularidade de relacionar a ficção de Michel Vaillant com Gildo Pallanca Pastor (CEO e proprietário da Venturi Automobiles), a equipa Venturi Grand Prix Formula E Team, co-fundada pelo ator de cinema Leonardo DiCaprio.

Neste álbum “Voltage“, que é o segundo álbum da segunda série de Michel Vaillant, podem ser encontrados outros EV, mais concretamente bicicletas elétricas inspiradas nas SEV Velicks.

© Graton-Lapière-Bourgne-Benéteau/Graton Editeur/Dupuis, 2013. Album “Voltage”

Nesta aventura, se Michel Vaillant conseguir ultrapassar os 700 km/h, colocará a empresa Vaillante em vantagem no mercado dos veículos elétricos e recuperará a autorização para regressar às pistas, já que ficou temporariamente sem licença para disputar corridas devido a um castigo imposto pela FIA (Federação Internacional do Automóvel) por ter abandonado uma prova, disputada no circuito de Portimão, para tentar encontrar o filho desaparecido.

© Graton-Lapière-Bourgne-Benéteau/Graton Editeur/Dupuis, 2013. Album “Voltage”

“Voltagem” tem argumento de Philippe Graton (filho de Jean Graton) e Denis Lapière e desenhos de Benjamin Benéteau e Marc Bourgne. Philippe Graton esteve desde sempre ligado às aventuras de Michel Vaillant: primeiro colaborando com o pai nas pesquisas e, depois, como editor. Assina o seu primeiro argumento em 1994 com “La Piste de Jade” e cria, em 1995, a colecção “Les Dossiers Michel Vaillant”. Em 2012, Philippe Graton dá início a uma nova temporada da série Michel Vaillant, onde se insere este álbum “Voltagem”.

“Impedido de competir até ao final da temporada na sequência dos acontecimentos no circuito de Portimão, e abalado com a determinação do seu filho em envolver-se num negócio que ele considera incompatível com os valores da família, Michel Vaillant atravessa um período de dúvidas e incertezas”, lê-se na sinopse da obra.

“A pressão é enorme, já que é a credibilidade e o prestígio das próprias fábricas Vaillante que estão em jogo. Falhar está completamente fora de questão, tanto por causa dos patrocinadores como do seu pai, o patriarca da família, que nunca escondeu o seu desdém pelos automóveis elétricos”, conclui a sinopse.

Como tudo terminará? Vale a pena ler (ou reler) a história, embora não tenha sido concebida propriamente por Jean Graton (mas sim pelo seu filho, Philippe). Contudo, é Michel Vaillant no seu melhor!

Com o desaparecimento de Jean Graton, fica a memória deste criador único que tantos momentos de diversão e entusiasmo deixou em milhares de leitores de BD, pelo mundo fora, e que também se deixou render ao fascínio dos veículos elétricos.

Merci Jean (e Philippe) Graton!

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