Vera Sequeira
Vera Sequeira
Investigadora Auxiliar da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa e do MARE – Centro de Ciências do Mar e do Ambiente, Polo FCUL

A correta gestão pesqueira garante a reprodução e consequente continuidade e conservação dos recursos, promovendo uma exploração sustentável. A investigação nesta área é fundamental, nomeadamente no que diz respeito às espécies com menor interesse comercial que recolhem menor investimento em termos de conhecimento biológico. Mas enquanto consumidores temos, também, uma palavra a dizer. As nossas escolhas influenciam o Oceano.

Como ser um consumidor sustentável de pescado?

0
267

O Oceano providencia cerca de 20% de proteína animal a mais de 3,3 biliões de pessoas. A combinação única de proteínas de qualidade elevada, vitaminas e nutrientes que apenas existem no pescado, faz dele uma excelente fonte de alimento.

A Organização Mundial de Saúde recomenda, por isso, um consumo regular de peixe entre uma a duas porções de 150 g por semana, o que resultaria num consumo anual per capita de 11,7 kg de peixe. Mas a média anual mundial de consumo situa‐se nos 20.9 kg (FAO, 2020) e, em Portugal, este valor chega aos 60,9 kg (EUMOFA, 2020), o que faz do nosso país um dos maiores consumidores de pescado do mundo.

Para fazer face a estas necessidades, a exploração pesqueira tem-se intensificado e os mananciais têm sido colocados sob pressão. Se em 1990 a percentagem de mananciais pesqueiros dentro de níveis biológicos sustentáveis se situava nos 90%, em 2017 esse valor desceu para 65,8% (FAO, 2020). Em 2018, foram capturadas globalmente 96,4 milhões de toneladas de pescado, o valor mais alto registado. A produção mundial proveniente de aquacultura tem feito um esforço para responder às exigências atingindo também um valor máximo em 2018 de 82,1 milhões de toneladas (FAO, 2020).

Em Portugal, foram capturadas 188 537 toneladas de pescado, em 2019 e a produção de aquacultura situou-se nas 13 992 toneladas, em 2018 (DGRM, 2020). As espécies de peixe mais capturadas foram a cavala, o carapau, a sardinha, o biqueirão e o atum (DGRM, 2020). As mais produzidas em aquacultura em termos de peixes marinhos são o pregado, a dourada e o robalo. Mas entre as mais compradas pelo consumidor nacional estão o atum, o bacalhau, a pescada, o salmão, a dourada e o robalo.

Estes dados sugerem uma elevada exploração e um consumo centrado num pequeno grupo de espécies, nem sempre as mais abundantes e muitas vezes importadas, com consequente sobre-exploração dos recursos e desequilíbrios nos ecossistemas marinhos. A correta gestão pesqueira garante a reprodução e consequente continuidade e conservação dos recursos, promovendo uma exploração sustentável. A investigação nesta área é fundamental, nomeadamente no que diz respeito às espécies com menor interesse comercial que recolhem menor investimento em termos de conhecimento biológico. Mas enquanto consumidores temos, também, uma palavra a dizer. As nossas escolhas influenciam o Oceano.

Dicas para um consumo sustentável de pescado

Consumir de forma sustentável significa consumir menos e melhor, considerando os impactos ambientais, sociais e económicos. O consumo de pescado é sustentável quando provém de fontes cujo impacto na saúde do oceano é mínimo e assegura a disponibilidade de recursos para as gerações futuras. Implica a utilização de um conjunto de práticas relacionadas com a aquisição de produtos e serviços que visam diminuir ou até mesmo eliminar os impactos no meio ambiente.

Então o que devemos ter em conta no momento de escolher?

  1. Devemos analisar o rótulo do pescado. Todo o pescado à venda deve estar rotulado e conter informação sobre o nome da espécie e o preço, mas também sobre a zona de captura, a arte de pesca utilizada e a lota onde foi desembarcado. A etiqueta CCL (Comprovativo de Compra em Lota) é um selo que garante que o pescado nacional foi controlado e rastreado desde o momento de captura até ao momento do seu desembarque nas lotas portuguesas. Como se aplica a embarcações nacionais que operam na nossa costa, garante uma menor pegada ecológica, já que o pescado não é importado (como acontece com o salmão ou o bacalhau que não são capturados nas nossas águas). Escolher pescado nacional é por isso outro importante fator a ter em conta.
  2. A seletividade e o impacto no ambiente marinho das artes de pesca são outro aspeto a considerar. O arrasto é menos seletivo que as restantes artes e mais destrutivo, mas todas as artes de pesca apresentam impactos negativos, contribuindo para a pesca acessória e, quando perdidas no mar, para o lixo marinho e pesca fantasma. Apostar no consumo de espécies capturadas por artes diferentes contribui para uma diminuição do impacto das menos seletivas e mais impactantes. Será importante, também, aumentar a investigação para conhecer melhor a seletividade das artes, desenvolver mecanismos que melhorem a eficiência das mesmas, valorizar espécies com menor interesse comercial, e criar produtos para consumo que aproveitem pescado menos procurado ou outro rejeitado.
  3. O tamanho mínimo de referência de conservação deve também ser tido em conta. Esta medida de gestão está definida para várias espécies comercializadas no nosso país. Garante que o pescado acima de determinado tamanho já atingiu o estado adulto, tendo tido a possibilidade de se reproduzir pelo menos uma vez ao longo da sua vida garantindo, assim, a renovação dos mananciais. Enquanto consumidores podemos evitar a aquisição de pescado abaixo deste tamanho garantindo uma maior sustentabilidade.

Na hora de escolher devemos ainda ter em consideração:

  • As espécies pelágicas que vivem mais perto da superfície, como o carapau e a cavala, são mais abundantes e possuem menos problemas no que diz respeito aos seus mananciais;
  • Devemos diminuir a ingestão de predadores de topo, como o atum e o bacalhau, e optar por espécies de níveis médio ou inferiores da cadeia alimentar que são, no geral, mais abundantes, permitindo aumentar a resiliência das populações;
  • Com mais de 200 espécies de pescado à disposição, a regra de ouro é diversificar o consumo. Prove novas espécies e experimente novas receitas.
  • Por fim, informe-se. Online encontrará guias de pescado e informação diversa sobre pesca que o ajudarão a fazer escolhas mais sustentáveis (WWF, DOCAPESCA, DGRM).

Referências

  • FAO, 2020. The State of World Fisheries and Aquaculture 2020. Sustainability in action. Rome.
  • EUMOFA, 2020. The EU Fish Market 2020 Edition. European Union, Luxembourg.
  • PORDATA. Peixe capturado: total e por principais espécies. Consultado a 15 jan 2021.
  • DGRM. 2020. Estatísticas da Pesca 2019. Instituto Nacional de Estatística, I. P. Lisboa.
  • WWF. O guia WWF para o consumo de pescado. Consultado a 15 jan 2021.
  • DOCAPESCA, Portos e Lotas, S.A. Do Mar ao Prato. Consultado a 15 jan 2021.
  • DGRM, Direção-Geral de Recursos Naturais, Segurança e Serviços Marítimos. Pesca Profissional. Consultado a 15 jan 2021
Foto de camila igisk

Deixe um comentário

avatar
  Subscribe  
Notify of