A Savannah Resources, que em Portugal desenvolve o projeto da Mina do Barroso, anunciou hoje um acordo de princípio para o desenvolvimento de uma parceria estratégica com a Galp Energia para investir em projetos de lítio no nosso país, um metal chave na composição de baterias de veículos elétricos.

Nos termos do acordo, ainda sujeito a aprovação final pelas partes envolvidas, a Galp investirá cerca de 5,2 milhões de euros na aquisição de 10% na empresa portuguesa subsidiária da Savannah Resources.

As duas empresas estão também a avaliar, em regime de exclusividade, a possibilidade de assinatura de um contrato para a venda de 100.000 toneladas por ano de concentrado de lítio da Mina do Barroso, o que equivale a cerca de 50% da produção total anual. A concretizar-se, este acordo é um passo significativo para o desenvolvimento do projeto.

“Estamos muito satisfeitos em anunciar a Galp como um potencial investidor e futuro parceiro estratégico no nosso projeto em Portugal e acreditamos que a Mina do Barroso terá um papel relevante na transição para a mobilidade elétrica na Europa”, afirma David Archer, CEO da Savannah Resources.

Segundo o mesmo responsável, “a Galp é uma das empresas líderes, a nível europeu, no setor da energia e das renováveis, com compromissos assumidos para a transição energética e certamente que a sua experiência em projetos de larga escala será relevante para se avançar com o desenvolvimento responsável e sustentável da Mina do Barroso”.

Exploração de espodumena de lítio

Este é visto como o mais significativo projeto de exploração de espodumena de lítio na Europa Ocidental, com os seus defensores a referirem que será estruturante para a economia nacional e estratégico para reduzir a dependência deste mineral raro a nível da UE.

O projeto estima alimentar mais de 600.000 veículos elétricos através do lítio anualmente extraído das concentrações de espodumena existentes no local. Trata-se de um projeto que potenciará a instalação de toda a cadeia de valor das baterias de lítio em Portugal.

Polémica ambiental: populações contestam

O projeto tem, contudo, sido alvo de protestos continuados da população Covas do Barroso (distrito de Vila Real) e de várias associações de proteção do ambiente, designadamente da Quercus, dado que a região do Barroso é património agrícola mundial, reserva da biosfera e a maior parte do concelho integra a Rede Natura 2000.

Em comunicado, a Savannah Resources contrapõe que “a Mina do Barroso apresenta-se como um exemplo de sustentabilidade e inovação no setor mineiro português, onde tudo foi estudado aprofundadamente e está projetado com o maior rigor, desde a gestão da água à utilização da energia”.

No entanto, a Associação Unidos em Defesa de Covas do Barroso, que tem sido uma voz contra o avanço da Mina do Barroso, diz que o projeto se trata de uma mega-mina à céu aberto que ameaça o património mundial agrícola.

De resto, chegou a ser feita uma petição a solicitar o cancelamento do projeto de prospeção da Mina do Barroso e demais pedidos de prospeção nas zonas circundantes, para preservar o ambiente, o património e a saúde e qualidade da população.

Foto: Associação Unidos em Defesa de Covas do Barroso

“Diz a Savannah que a Mina do Barroso será verde e inteligente. No entanto, pretende escavar várias minas a céu aberto e que ocuparão uma área equivalente a 125 campos de futebol, instalar uma planta de tratamento do material extraído e abrir caminhos nos montes, tudo isto a escassos metros das nossas casas”, refere a Associação Unidos em Defesa de Covas do Barroso.

A Associação Unidos em Defesa de Covas do Barros diz que a mina não afetará apenas a paisagem, já que trará consequência a nível de ruído (das explosões usadas para remover as rochas que contêm o lítio), do ar (contaminado pelas poeiras resultantes dessa remoção) e das águas subterrâneas (severamente afetadas, tanto pelas escavações como pelo consumo de água requerido para funcionamento da mina). 

“Estima a empresa precisar de 390.000 m3 de água por ano, o que equivale a mais do dobro da quantidade consumida no concelho de Boticas! Em risco ficam igualmente os cursos de água que a empresa pretende desviar na área de concessão, bem como a qualidade da água e da vida no nosso rio Covas. É fácil perceber que estamos perante um cenário cuja cor é mais cinzenta que o que nos querem fazer acreditar, e que de inteligente pouco tem. O lítio em si pode não ser tóxico, mas o mesmo já não se pode dizer da sua extração”, apontam os porta-vozes das populações.

Num manifesto publicado na sua página de Facebook, a Associação de defesa de Covas do Barroso contra o projeto da Mina do Barroso, acusa ainda a empresa de fazer “promessas para o futuro quando não foi sequer capaz de cumprir no passado ou no presente. Em 2017, receberam o aval da população para realizar as atividades de prospeção. Nessa altura, prometeram uma intervenção praticamente sem impactos nos terrenos, mas deixaram-nos estragos que ainda hoje estão à vista de todos. Mentiram-nos. Perante o nosso descontentamento, ainda nos quiseram comprar, oferecendo-nos bolos-rei para no Natal. Estamos há três anos à espera que a Savannah reduza os danos causados, deixando de fazer uma reparação aqui e outra acolá apenas para publicar fotografias na sua revista”.

Foto: Associação Unidos em Defesa de Covas do Barroso

Os porta-vozes do movimento apontam igualmente o dedo às instituições públicas responsáveis por fiscalizar a atividade: “Quando confrontadas com o atuar da empresa, remetem a responsabilidade para Savannah. Enquanto isso, participam em encontros internacionais com os dirigentes da empresa para promover o projeto”.

Leia mais aqui:

Portugal quer ter cluster do lítio: Quercus contesta exploração de minério

Mina do Barroso: como será a exploração?

A Mina do Barroso é um projeto da Savannah Lithium, Lda, empresa subsidiária da Savannah Resources Plc., uma sociedade cotada na bolsa de valores de Londres AIM (London Stock Exchange) focada na prospeção e desenvolvimento de ativos mineiros em vários países do mundo.

Onde fica?
A Mina do Barroso localiza-se no Norte de Portugal, cerca de 400 km a norte de Lisboa e aproximadamente 140 km a nordeste do Porto. A área de intervenção da Mina do Barroso localiza-se nas freguesias de Dornelas e de Covas do Barroso (maioritariamente em Covas do Barroso), concelho de Boticas, distrito de Vila Real, entre a Serra do Barroso e o rio Tâmega, a cerca de 12 km a Sudoeste de Boticas.

A Mina do Barroso contém minerais de quartzo, feldspato, espodumena e micas, sendo que o mineral que contém lítio é a espodumena.

A Mina do Barroso irá produzir concentrados de espodumena, não lítio. Explicam os responsáveis desta mina que a espodumena é um mineral de lítio inerte, não reativo e não tóxico, usado para produzir sais de lítio que são usados na produção de baterias que equipam os veículos elétricos ou que são usadas para armazenar energia produzida de forma renovável.

A espodumena será concentrada através de simples processos gravíticos que utilizam maioritariamente água, sendo depois, numa primeira fase do projeto, exportada para uma unidade industrial onde será convertida em hidróxido ou carbonato de lítio.

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