Kevin Oliveira
Kevin Oliveira
Colaborador e aluno de doutoramento do Centro de Estudos do Ambiente e do Mar (CESAM) e do Departamento de Ambiente e Ordenamento (DAO) da Universidade de Aveiro (UA)

A poluição do ar surge a nível global como uma das principais causas de morte, sendo responsável por cerca de 400.000 mortes prematuras por ano. Estima-se que 77% da população urbana da União Europeia (UE-28) esteja exposta a concentrações de partículas finas (PM2.5) que excedem os limites recomendados pela OMS.

O comportamento do cidadão: a chave para um futuro com ar de qualidade

0
280

Apesar das melhorias registadas nas últimas décadas, em muitas zonas a poluição atmosférica continua a ser um problema com repercussões na saúde humana e nos ecossistemas. As áreas urbanas são de particular preocupação por serem locais onde se combinam altas densidades populacionais e elevados níveis de poluição.

De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), a poluição do ar surge a nível global como uma das principais causas de morte, sendo responsável por cerca de 400.000 mortes prematuras por ano. Estima-se que 77% da população urbana da União Europeia (UE-28) esteja exposta a concentrações de partículas finas (PM2.5) que excedem os limites recomendados pela OMS.

A Agência Europeia do Ambiente evidencia a necessidade de reduzir a poluição do ar, realçando a importância das parcerias a nível internacional, nacional e local, em coordenação com outras políticas sectoriais, ambientais e climáticas. No entanto reforça a importância de soluções ao nível de desenvolvimento tecnológico, mudanças estruturais e dos hábitos e comportamentos dos cidadãos. 

A importância do comportamento do cidadão

O projeto ClairCity foi desenhado com o objetivo de aumentar a consciencialização e envolvimento do cidadão sobre a poluição do ar e as emissões de carbono, analisando como o seu comportamento contribui para estes problemas.

O projeto colocou o poder de decisão nas mãos dos cidadãos para determinar as melhores soluções locais de mitigação, através de iniciativas de envolvimento dos cidadãos, autoridades locais, decisores políticos e outras partes interessadas, com a principal preocupação de garantir uma maior proteção da saúde humana e do ambiente na Europa. 

O projeto ClairCity analisou seis cidades/regiões Europeias piloto, sendo que em Portugal o projeto incidiu nos municípios da Comunidade Intermunicipal da Região de Aveiro (CIRA). O estudo mostra que, apesar da grande procura por alternativas de mobilidade na região, o número de cidadãos da região que recorrem a transporte público e/ou à mobilidade ativa é muito reduzido em comparação com os outros casos de estudo do projeto.

A rede, a frequência e os tempos de viagem dos transportes públicos foram apontadas como as principais barreiras, e portanto, uma desvantagem em comparação com o conforto que os carros podem oferecer.

Para o futuro, os resultados apontam para uma enorme procura destas alternativas, desde que as barreiras atuais sejam ultrapassadas. Relativamente às formas de aquecimento residencial, há uma enorme procura por energias renováveis.

Atualmente, cerca de 5% dos cidadãos inquiridos usam fontes renováveis e 52% querem usar estes tipos de energia no futuro. Os padrões de consumo atuais, e as mudanças de comportamento no futuro, dependem largamente do preço dos combustíveis fósseis, sendo o custo da energia a principal barreira à mudança identificada.

Partículas PM2.5 preocupam

A quantificação do cenário base permitiu concluir que a Região de Aveiro apresenta concentrações de poluentes em conformidade com os valores-limite legais estabelecidos pela União Europeia. No entanto, as PM2.5 demonstram ser o poluente mais preocupante, estimando-se que em 2015, 49% da população da região tenha estado exposta a concentrações de PM2.5 acima das recomendações da OMS. Com base nos resultados obtidos nas diversas fases do projeto, foi possível chegar a um cenário final, o qual foi quantificado em termos de emissões, concentrações de poluentes e impactos na saúde.

Os cidadãos da Região de Aveiro e grupos de interesse inquiridas reforçam a necessidade da mudança de hábitos, demonstrando uma evidente preocupação com o setor dos transportes embora as concentrações de NO2, associadas maioritariamente ao tráfego rodoviário, não sejam particularmente críticas na Região.

Evidência disso é o facto de o cenário futuro selecionado ser composto por dez medidas, das quais nove têm como foco o transporte. Ao contrário, as partículas são um problema na região, principalmente durante o inverno, devido à elevada utilização das lareiras como fonte de aquecimento residencial.

Embora o aquecimento residencial seja a principal fonte identificada de emissões de partículas, isso não foi apontado pelos cidadãos da região como uma fonte relevante de poluição do ar.

O facto de não terem sido apresentadas medidas de energia/ aquecimento, pode ser entendido como medidas extremamente difíceis de implementar, ou indicar uma falta de perceção relativamente aos impactos da queima de biomassa na qualidade do ar e das possíveis alternativas de aquecimento mais limpas. As mudanças de comportamento na Região em termos de padrões de mobilidade conduzirão a reduções extraordinárias das concentrações de NO2 em mais de 80% em 2050.

Setor residencial requer medidas específicas

Por outro lado, a falta de ambição nas medidas para o setor residencial reflete-se nas escassas reduções de concentração de material particulado na região. Considerando apenas a implementação dos cenários definidos no âmbito do projeto ClairCity, em 2050, as concentrações de PM2.5 reduzirão em apenas 3% face aos valores atuais, levando a que em 2050 ainda exista população exposta a valores superiores aos estipulados pela OMS. Os resultados do ClairCity evidenciam que os cidadãos da Região de Aveiro terão que fazer mais para além do que se comprometeram no âmbito do projeto, para conseguir benefícios para a sua saúde e qualidade de vida no futuro. 

Se os cenários definidos pelos cidadãos fossem implementados contribuiriam para benefícios importantes na saúde humana. Verificando-se para 2050, reduções de 6, 11 e 63 mortes prematuras e de 50, 139 e 714 anos de vida potencialmente perdidos atribuídos aos níveis de poluição de PM2.5, PM10 e NO2, respetivamente. 

O projeto ClairCity mostra assim, tendo como exemplo a Região de Aveiro em Portugal, que são possíveis melhorias significativas na qualidade do ar com mudanças de comportamento do cidadão. As projeções dessas mudanças em termos de mobilidade traduzem-se em reduções de concentrações de NO2, enquanto que a ausência de mudanças comportamentais, como por exemplo nas questões de aquecimento residencial, revelam a persistência de problemas de poluição atmosférica associados a material particulado. 

Artigo feito em coautoria com a Prof. Myriam Lopes e a investigadora Vera Rodrigues, ambas da Universidade de Aveiro.

Deixe um comentário

avatar
  Subscribe  
Notify of