O falecimento do arquiteto paisagista Gonçalo Ribeiro Telles, esta quarta-feira, em Lisboa, aos 98 anos, levou o governo a decretar um dia de luto nacional que será assinalado esta quinta-feira, dia 12 de novembro, e a evocar a figura de um dos primeiros, senão mesmo o primeiro político português, a trazer para a atualidade as questões ambientais.

Isso mesmo foi destacado pelo Primeiro-Ministro, António Costa, no seu Twitter: “O país tem para com Gonçalo Ribeiro Telles uma enorme dívida de gratidão, quer no lançamento das bases da política ambiental em Portugal, quer no desenvolvimento de uma consciência ecológica. Sendo um homem à frente do seu tempo, as ideias que defendia há 50 anos e eram então consideradas utópicas, são hoje comummente aceites. A sua perda é inestimável. O seu legado, felizmente, perdura, e somos todos seus beneficiários”.

O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, lamentou igualmente a morte do arquiteto paisagista, lembrando-o como uma “consciência crítica” no plano ambiental e sublinhando o legado que deixa.

Em 2019 foi instituído o Prémio Gonçalo Ribeiro Telles para o Ambiente e Paisagem. Trata-se de uma iniciativa conjunta do Instituto Superior de Agronomia da Universidade de Lisboa, da Causa Real, da Ordem dos Engenheiros e da APAP – Associação Portuguesa dos Arquitectos Paisagistas. A entrega do 1º prémio ocorreu em janeiro de 2020.

“Arquiteto paisagista, durante anos ao serviço da Câmara Municipal de Lisboa, todos conhecem alguns dos seus trabalhos nos espaços públicos e jardins de Lisboa e Área Metropolitana, com destaque para o jardim da Fundação Gulbenkian, com o qual venceu, ex aequo, o Prémio Valmor”, diz Marcelo Rebelo de Sousa na página da Presidência da República.

“Como ambientalista com responsabilidades públicas, representou desde cedo, e durante décadas, uma consciência crítica esclarecida, contribuindo igualmente para importantes atos legislativos como a Lei De Bases do Ambiente ou a Lei do Impacto Ambiental, combates que prolongou na fundação de um partido ambientalista, o Movimento Partido da Terra”, declarou Marcelo Rebelo de Sousa.

Jardins da Gulbenkian (Foto: ©Fundação Gulbenkian)

Papel na consagração da Reserva Ecológica Nacional

Também o Ministro do Ambiente e da Ação Climática, João Pedro Matos Fernandes, veio lamentar “profundamente o falecimento do arquiteto Gonçalo Ribeiro Telles”, recordando-o como um “ativista da causa pública” e “uma das figuras da sociedade portuguesa que mais se empenhou na defesa do ambiente e na valorização do mundo rural, tendo sido decisiva a sua ação na consagração da Reserva Ecológica Nacional e na Reserva Agrícola Nacional”.

Nascido em 1922, Gonçalo Ribeiro Telles formou-se em Agronomia e Arquitetura Paisagista em 1950, no Instituto Superior de Agronomia, tendo desempenhado diversos cargos políticos e participado na fundação de instituições referenciais no panorama da cultura nacional. Publicou vários livros e artigos. A nível nacional foi agraciado com o Grau de Oficial da Ordem Militar de Sant’Iago (1969), Grã-Cruz da Ordem Militar de Cristo (1988), Grã-Cruz da Ordem da Liberdade (1990). Internacionalmente, destaca-se: o Prémio da Latinidade Troféu Latino «João Neves Fontoura» (2010) e o Prémio Sir Geoffrey Jellicoe (2013). Em termos políticos, em 1993 cofundou o Movimento Partido da Terra. Entre 1974 e 1976 foi subsecretário de Estado do Ambiente e secretário de Estado de Ambiente. De 1981 a 1983 desempenhou as funções de Ministro da Qualidade de Vida e em 1985 foi vereador da Câmara Municipal de Lisboa pelo Movimento da Terra.

João Pedro Matos Fernandes sublinha que Ribeiro Telles “foi sobretudo um ilustre defensor da causa pública ambiental, para a qual contribuiu com as suas ideias, planos e projetos”.

Nascido em 25 de maio de 1922, em Lisboa, Gonçalo Ribeiro Telles idealizou os chamados “corredores verdes” da capital e concebeu o Cabeço das Rolas, em Lisboa, e os ainda hoje emblemáticos jardins da Fundação Calouste Gulbenkian, em conjunto com o arquiteto António Viana Barreto.

O pesar da Fundação Gulbenkian

O desaparecimento de Gonçalo Ribeiro Telles motivou, igualmente, um profundo pesar por parte do Conselho de Administração da Fundação Calouste Gulbenkian que considerou o arquiteto paisagista “uma figura ímpar ligada à instituição desde o primeiro momento”.

Isabel Mota, presidente da Fundação Gulbenkian, lembra “o amigo e visionário que inspirou gerações de arquitetos paisagistas, responsável, em conjunto com António Viana Barreto, pelo desenho do jardim da Fundação Gulbenkian, um espaço que se tornou emblemático para todos os que diariamente aqui esquecem o bulício da cidade”.

Jardins da Gulbenkian (Imagem: ©Fundação Gulbenkian)

A presidente da Fundação destaca “o incansável defensor das cidades ecológicas e humanizadas, das reservas e parques naturais, dos jardins e das hortas urbanas, perante a ameaça constante dos interesses privados e corporativos”.

Isabel Mota acrescenta: “Nunca é demais realçar o espírito de um homem à frente do seu tempo que viu, como poucos, o que reservava o futuro numa altura em que os alarmes das crise ecológica e climática ainda não soavam com a força de hoje. Um homem profundamente cansado de ter razão que tantas vezes viu a cidade tomar um rumo contrário à visão que, sabiamente, defendia, baseada num profundo conhecimento e num amplo bom-senso. Este homem que apreciava o carácter dinâmico dos jardins, tão ligado ao movimento da vida, como gostava de dizer, com elementos que nascem, crescem, reproduzem-se e morrem, ficará para sempre ligado a esta Fundação e a este jardim admirável que ajudou a criar”.

Jardins da Gulbenkian (Foto: Fundação Gulbenkian/©Paula Corte-Real)

Sabia que…
… em 2016, no festival de cinema IndieLisboa, foi apresentado o documentário A Vossa Terra – paisagens de Gonçalo Ribeiro Teles, do realizador João Mário Grilo? O filme tem uma duração de 59 minutos.

A Gulbenkian sublinha que da sua passagem pelo governo nasceu um conjunto de decretos-lei que foi determinante para a definição de uma política de ambiente e de paisagem, destacando-se a Reserva Agrícola Nacional e a Reserva Ecológica Nacional.

Enquanto deputado na Assembleia da República são da sua responsabilidade as propostas da Lei de Bases do Ambiente, da Lei da Regionalização, da Lei Condicionante da Plantação de Eucaliptos, da Lei dos Baldios, da Lei da Caça, e da Lei do Impacte Ambiental.

“Do trabalho desenvolvido como vereador na Câmara Municipal de Lisboa (CML) sublinhamos a criação do Parque Periférico de Lisboa, o Projeto do Corredor Verde de Ligação do Alto do Parque Eduardo VII ao Parque Florestal de Monsanto e a Proposta de Estudo de uma Estrutura Biofísica e Cultural para o Concelho de Lisboa”, diz a Gulbenkian.
Entre 1951 e 1953 integra a 3ª Repartição de Arborização e Jardinagem da Direção dos Serviços Especiais da CML.

Entre 1955 e 1960 é admitido como Arquiteto Paisagista do Gabinete de Estudos de Urbanização da CML, dirigido pelo engenheiro Guimarães Lobato.

Foto: Fundação Gulbenkian/© Márcia Lessa

De 1971 a 1974 dirige, enquanto arquiteto paisagista, o setor de Planeamento Biofísico e de Espaços Verdes do Fundo de Fomento da Habitação.

Em 1975, juntamente com um conjunto de jovens arquitetos paisagistas Alexandre Cancela d’Abreu, Margarida Cancela d’Abreu e o escultor Nuno de Mendonça, funda o curso de Planeamento Biofísico que em 1981 se transformaria na licenciatura em Arquitetura Paisagista da Universidade de Évora. Naquela instituição foi Professor Catedrático, entre 1976 e 1992, depois Professor Emérito e recebeu, em 1994, o grau de Doutor Honoris Causa.

Enquanto profissional liberal desenvolveu um conjunto de projetos a várias escalas da paisagem: jardins privados e públicos, parques públicos, corredores verdes, implantação de rodovias, recuperação de pedreiras, recuperação de quintas de recreio, integração paisagística de unidades fabris, ordenamento rural e do território.

Algumas das obras de mais destaque

Mata de Alvalade (1951-1955); Plano de Urbanização da Quinta Grande em Oeiras (1953); Ajardinado da Avenida D. Rodrigo da Cunha (1953); Alvalade Bairro das Estacas (1953) Enquadramento da Capelinha de São Jerónimo (1953-1959); Alfama e Castelo- Enquadramento Verde (1953-1959); De 1959 a 1969, juntamente com António Facco Viana Barreto, desenha o jardim da Fundação Calouste de Gulbenkian. Em 1958 já havia sido convidado pelo Eng. Guimarães Lobato a desenhar o Jardim das Instalações Provisórias da Fundação; Shell Banática Integração e Valorização Paisagística (1963); A pedreira da Tijocal (1963); Estudo Geral do Enquadramento Paisagístico do Vale da Ribeira de Algés (1967); Prainha – Três Irmãos Revisão do Plano de Urbanização (1969); Plano Integrado de Almada (1971-1976); Jardim na mata dos Medos (1994).

Centro Interpretativo Gonçalo Ribeiro Telles

A Gulbenkian criou um Centro Interpretativo do Jardim Gulbenkian, um espaço multimédia com o nome de Gonçalo Ribeiro Telles, em homenagem ao arquiteto paisagista que concebeu o jardim e agora faleceu, em conjunto com António Viana Barreto, já falecido em 2012.

Foto: Fundação Gulbenkian/© Márcia Lessa

Este centro permite ao público perceber como foi pensado o jardim, evidenciando, por intermédio de meios audiovisuais, aspetos que normalmente são pouco visíveis. Os seus visitantes podem experimentar vários ambientes em vídeo-hall numa proposta que se inspira nos “10 Mandamentos” que Ribeiro Telles define para a criação de um Jardim e que pode ver aqui neste link que remete para a Fundação Gulbenkian.

Todo o projeto do Jardim Gulbenkian encontra-se ainda documentado no website da Gulbenkian, com registos da Fundação e dos dois arquitetos paisagistas responsáveis. Clique aqui para saber mais.

 

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