A Fundação Calouste Gulbenkian tem uma parceria com a Food Initiative para a promoção da economia circular da alimentação nas cidades.

Lisboa, Porto e Torres Vedras são três cidades portuguesas que integram a Food Initiative, um projeto internacional liderado pela Fundação Ellen MacArthur que promove, nas grandes cidades, a aplicação do conceito de economia circular da alimentação – consumo de alimentos produzidos de forma regenerativa e local, aproveitamento dos alimentos ao máximo; comercialização de produtos alimentares saudáveis, não só do ponto de vista nutricional mas também pela forma como são produzidos.

desafio: Dar nova vida ao desperdício

A Fundação Gulbenkian destaca o facto de nestas três cidades portuguesas decorrerem projetos que estão a apostar em pequenos produtores locais para favorecer cadeias de distribuição mais curtas, a facilitar o acesso a produtos biológicos e sustentáveis ou a resgatar alimentos que seriam deitados ao lixo.

Em Lisboa, associações como a Refood ou o Movimento Zero Desperdício asseguram diariamente a distribuição condigna de comida que iria acabar no lixo – sobras de restaurantes, por exemplo – junto de famílias carenciadas.

Já no município do Porto, a autarquia distribui, numa rede de restaurantes aderentes, embalagens sustentáveis para que os clientes possam levar para casa as sobras de comida de forma cómoda e segura, o que já resultou numa poupança de 28 toneladas de alimentos entre 2016 e 2020.

A redução do desperdício não se aplica apenas a comida confecionada: em Lisboa têm sido distribuídos, pelos munícipes que o desejem, compostores domésticos, ou seja, recipientes que acumulam resíduos orgânicos (cascas de fruta e legumes e outros restos de comida) e os transformam em fertilizantes naturais que podem ser utilizados para nutrir a terra de hortas, jardins, vasos ou floreiras. Estes compostores estão a desviar da deposição em aterro mais de 1400 toneladas de matéria orgânica por ano, que assim ganham uma nova vida.

Hortas comunitárias e pedagógicas

Em Torres Vedras, a transformação começa com as crianças. O projeto BioCantinas está a mudar as formas de produção, aquisição, confeção e consumo de alimentos na rede escolar pública e privada.

O município de Torres Vedras tem promovido o contacto direto dos alunos com o processo de cultivo de bens hortícolas através da criação de hortas comunitárias e pedagógicas nas escolas e jardins-de-infância, que são mantidas por alunos e professores e envolvem anualmente cerca de mil alunos.

Sublinhando que a alimentação saudável não tem necessariamente de ser comprada, a Gulbenkian dá o exemplo das autarquias de Lisboa e Porto que disponibilizam aos munícipes parques hortícolas distribuídos por várias zonas de ambas as cidades, para que estes possam produzir os seus próprios alimentos “bio”.

No Porto estão destinados a esse efeito 4 hectares de terra, ao passo que em Lisboa existem neste momento 9 hectares divididos em cerca de 800 talhões distribuídos por 20 parques agrícolas.

Economia local

Outra medida relevante que procura contribuir para a economia local e reduzir a pegada ecológica inerente ao transporte e embalagem, foi tomada em Torres Vedras, onde as cantinas escolares recorrem agora a produtores locais para se abastecerem, algo que permite ainda garantir produtos sazonais, orgânicos e saudáveis no prato dos alunos

Neste município, foi ainda criada uma rede de confeção de alimentos para IPSS, que providencia mais de um milhão de refeições por ano assentes em produtos orgânicos, incentivando todo o território a orientar nesse sentido a sua produção.

Maior oferta de produtos de origem biológica

A preocupação em disponibilizar à população uma maior oferta de produtos de origem biológica também se verifica em Lisboa e no Porto, onde têm sido criados mercados e feiras de produtos biológicos de iniciativa pública e privada. “Esta é, aliás, uma das soluções que contribuem para reduzir os custos de saúde associados ao uso de pesticidas que, globalmente, atinge os 550 mil milhões de dólares”, salienta a Gulbenkian.

Uma mudança liderada pelas cidades

A Gulbenkian refere que os esforços feitos nestes municípios (Lisboa, Porto e Torres Vedras) são a resposta aos resultados do estudo de 2019 da Fundação Ellen MacArthur, que revelaram que, globalmente, por cada dólar gasto em alimentação, a sociedade gasta dois dólares em custos com ambiente e saúde, sendo que metade desses custos – 5,7 triliões anuais – são causados pela forma como a comida é produzida, particularmente pela economia linear, que extrai recursos finitos, é poluente (a indústria agroalimentar é responsável por quase 25% das emissões de CO₂) e prejudica os sistemas naturais.
O estudo estimou ainda que, até 2050, 80% de todos os alimentos serão consumidos nas grandes cidades e que é maioritariamente nas cidades que estão a tecnologia e as competências necessárias à inovação, o que torna evidente que a sustentabilidade futura dos sistemas alimentares depende, em larga medida, dos esforços que venham a ser feitos nos grandes aglomerados urbanos. “Esta transição deve ser, por isso, liderada pelas grandes cidades e, até ao final de 2021, Londres, Nova Iorque e São Paulo são as cidades-bandeira da Food Initiative, pela sua dimensão e potencial de impacto nesta grande transformação que vai do campo – ou da horta comunitária – ao garfo”, explica a Gulbenkian.

Deixe um comentário

avatar
  Subscribe  
Notify of