Francisco Mota
Francisco Mota
Jornalista e jurado do prémio Car Of The Year (COTY)

A visita de Elon Musk à Alemanha tinha como principal objetivo visitar o local de construção da sua nova fábrica, perto de Berlim. Mas a reunião com o líder do Grupo VW não pode ter deixado de abordar o futuro da Tesla na Europa. Um futuro que vai passar pelo lançamento de um rival direto do VW ID.3.

Novo Tesla pode ser feito com base no VW ID.3

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Elon Musk visitou a VW na Alemanha, teve uma reunião com Herbert Diess, o líder do Grupo e deu uma voltinha no ID.3. Diess disse que não fecharam nenhum acordo, mas basta somar “dois mais dois” para ver que a Tesla está interessada no VW ID.3.

Não há almoços grátis, assim como não há reuniões sem objetivos, pelo menos quando se junta Elon Musk e Herbert Diess, os líderes da Tesla e do Grupo VW. Do encontro resultou um vídeo de Musk a experimentar o VW ID.3 e Diess apressadamente a dizer que nenhum negócio tinha sido assinado entre as duas empresas.

Mas podemos estar perante um caso de casamento feito no céu. Podemos estar a meses, semanas ou dias de ser anunciado um acordo entre os dois mais proeminentes fabricantes de automóveis elétricos da atualidade.

Foi por isso que decidi meter mãos à obra e deixar correr a especulação, para um dia poder dizer: “eu não… Diess?”

Primeiro os factos

Desde a apresentação da plataforma MEB que o Grupo VW disse estar interessado em abrir a tecnologia a outros fabricantes que a quisessem utilizar. Pode parecer estranho que um fabricante de automóveis abra mão do resultado de anos de investimento e desenvolvimento.

A verdade, que todos sabem e poucos dizem, é que nenhum construtor de automóveis ganha dinheiro a fazer carros elétricos, nem a Tesla, nem a VW. Pelo menos por agora. Fazem-nos porque são obrigados a cumprir metas de emissões, para não pagar as respetivas multas, que ficariam mais caras.

Para a VW, encontrar com quem partilhar a plataforma MEB seria uma boa maneira de amortizar os custos que já teve e os que vai ter. E a Ford mordeu o isco, assinando um acordo para fazer exatamente isso: um Ford elétrico com base na plataforma MEB.

Mas quantos mais construtores se associarem ao projeto, melhor para todos. E melhor para o grupo VW.

O que ganha a Tesla?

Pelo seu lado, a Tesla desde o início que dá o exemplo da indústria informática como o paradigma da partilha de componentes, que poderia ser aplicado aos automóveis, sobretudo aos elétricos. Negócios nesse sentido têm sido ventilados, mas nada se concretizou.

Outro facto é que a Tesla quer mesmo aumentar a sua dimensão. Uma coisa é estar bem cotada na bolsa, outra coisa é ser um parceiro de peso na indústria. E isso só se consegue com maior volume de produção.

Mas para ter maior volume, precisa de começar a fabricar modelos mais baratos que o Model 3. E a marca até já deixou saber que é precisamente isso que quer fazer: produzir um familiar compacto, um cinco portas do segmento “C”, ou seja, um carro do segmento do Golf, só que elétrico, como é óbvio.

Musk visita Diess

A visita de Elon Musk à Alemanha tinha como principal objetivo visitar o local de construção da sua nova fábrica, perto de Berlim. E também falar com os sindicatos, que no mundo laboral alemão têm imensa força.

Musk está a preparar tudo ao detalhe para o “assalto” à Europa, uma espécie de dia “D” ao contrário, brincando um pouco com a história.

Neste contexto, a reunião com o líder do Grupo VW não pode ter deixado de abordar o futuro da Tesla na Europa. Um futuro que vai passar pelo lançamento de um rival direto do VW ID.3.

Musk gostou do ID.3 e até disse que “para um carro elétrico, que não é desportivo, não está nada mal…” Mais aspas, menos aspas.

MEB boa para os dois

Partilhar a plataforma MEB seria “ouro sobre azul” para ambas as partes. Para a VW, porque encontrava mais um parceiro com quem dividir o fardo da eletrificação à força. Amortizava custos e ficava melhor preparada para os próximos investimentos.

Do lado da Tesla, seria uma forma de acelerar o lançamento do seu familiar compacto, ganhando facilmente dois a três anos no processo e poupando muito dinheiro.

Para ambas as marcas – dependendo do tamanho dos egos dos engenheiros americanos e alemães – poderia ser também uma maneira de partilhar conhecimento, sobretudo ao nível das baterias.

Este é o ponto mais sensível da produção de carros elétricos devido à dependência de todas as marcas ocidentais dos produtores chineses.

Conclusão

Voltando ao início, à data em que escrevo estas linhas, 25 de Setembro de 2020, tudo isto não passam de especulações, ainda que com elevado grau de probabilidade de o deixar de ser. Veremos se, e quando, isso acontece.

Crónica originalmente publicada no blogue Targa 67

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