Cientistas do Centro de Desenvolvimento de Materiais Funcionais (CDMF) desenvolveram um biofilme que, garantem, consegue prolongar a validade de diversos alimentos. Um produto feito à base de quitosana e polímero natural extraído da carapaça de crustáceos como camarão, lagosta e caranguejo.

“Munido de propriedades antifúngicas e bacterianas, o biofilme veda microfissuras e poros nas superfícies dos ovos, aumentando a sua resistência.”. Explicaram os profissionais, destacando a ideia de que, recorrendo a este material, “consegue-se prolongar o prazo de validade dos produtos”. Os cientistas chegam mesmo a especificar que, graças ao biofilme, o prazo de validade dos alimentos pode ser estendido por mais 20 ou 30 dias. Dependendo das condições em que os mesmos são armazenados, alertam.

A pesquisa é da autoria do CDMF, apoiado pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). Instituições que já apresentaram a patente do biofilme perante o Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI). A coordenação deste projeto é também da responsabilidade de alguns cientistas da Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD).

Todo o processo até chegarem a este resultado

Como é que estes cientistas chegaram ao biofilme? Através da junção de quitosana e sais de quaternários de amônia. Recorreram mesmo a todas as gerações de sais de quaternários de amônia disponíveis no mercado. Falando de uma perspetiva mais técnica, “a utilização de quitosana numa quantidade especifica resultou em misturas poliméricas”. Nestas, “os sais de quaternários de amônia ficam homogeneamente dispersos ou contidos na estrutura do material”. De referir que a utilização destes compostos é comum na indústria de alimentos, nomeadamente como desinfetantes.

O produto que resulta desta combinação polimérica pode ser usado em: solução, emulsão, gel e dispersão. Mas também “contidas em outras matrizes e suportes naturais ou sintéticos”, referiu Luiz Fernando Gorup, professor visitante da UFGD e coordenador do projeto. Por exemplo, no caso dos ovos, o produto em estado líquido pode ser pulverizado nos aviários, diretamente sobre as cascas. Ou então, pode ser aplicado durante o banho de desinfeção dos ovos, na etapa de higienização. A água seca rapidamente e o biofilme recupera o seu estado original, o polímero. Durante o processo, o biofilme volta também a integrar cadeias de sais de quaternários de amônia que se encontram entrelaçados na sua estrutura.

Ovos protegidos desde a produção à comercialização.

Descrito como “semelhante a um verniz flexível”, o produto dá origem a um biofilme. Esse biofilme torna menos provável a colonização de fungos e bactérias na superfície da casca de ovo. Além disso, impede que os microrganismos penetrem através de microfissuras ou poros. Mais importante ainda: ao revestir os alimentos, o biofilme previne a perda de humidade.

“Os ovos recobertos com o material também perdem menos 40% de massa do que os que não têm esta proteção extra”, explicou Luiz Fernando Gorup em declarações à Agência FAPESP. Desta forma, é correto afirmar que, com a aplicação do biofilme, garante-se que os ovos estão protegidos desde a sua produção à sua comercialização.

Fonte: Ecycle

Planos de comercialização estão a ser estudados

A empresa pretende vir a comercializar este seu novo produto, mas antes tem de acertar alguns detalhes. “Queremos desenvolver, junto dos produtores, uma solução que vá para o mercado já na concentração ideal e pronto para uma aplicação por meio de um processo simples”, refere Gorup. Até porque “temos que ter cuidado para não afetar financeiramente a cadeia de produção de ovos, uma vez que são produtos muito baratos”, acrescenta.

O plano é que este novo material seja aplicado em aviários por via da pulverização. “Os ovos devem ser pulverizados com recurso a um borrifador comum antes de serem empacotados”, alertam os responsáveis pelo projeto. Ou então, durante os banhos de higienização, que antecedem a etapa de polimento dos ovos e respetiva seleção por tamanho.

É ainda oportuno comparar este novo composto com outras soluções semelhantes já existentes no mercado. Até porque as vantagens são assinaláveis.  Por exemplo, as soluções à base de quaternários de amônia, empregues atualmente na desinfeção de ovos, não são 100% confiáveis. Nomeadamente contra as salmonelas e outros organismos perigosos. Porquê? Porque, depois de secarem, os sais de quarternários de amônia presentes nessas soluções soltam-se facilmente da casca do ovo. No caso do biofilme que hoje lhe estamos a apresentar, garantem os cientistas responsáveis, “não há esse risco”. Isto porque “as partículas do composto estão homogeneamente dispersas na superfície da casca do alimento”, explicam.

Misturas poliméricas para frutas e leguminosas

Para além deste produto que se crê especialmente eficaz nos ovos, os cientistas estão a desenvolver outras misturas poliméricas. Com novos compostos bioativos, estas misturas servirão sobretudo para cobrir frutas e leguminosas. O objetivo, garantem, é conseguirem embalagens “inteligentes” para um conjunto mais alargado de alimentos.

Em comparação com polímeros naturais como a quitosana, quitina, alginatos e pectinas, quais são as vantagens que estes novos compostos oferecem? Menos impacto ambiental, maior segurança no seu consumo, assim como uma melhor relação entre o preço e os benefícios.

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