André Duarte
André Duarte
Future Mobility Engineer, na Ubiwhere

A plataforma tecnológica que suporte este futuro será uma peça fulcral de interoperabilidade e tradução de todo o ecossistema de mobilidade, sendo a principal responsável pela definição de um roadmap bem definido para nos aproximar do sonho do MaaS.

Mobility as a Service (MaaS): o futuro das cidades inteligentes

0
388

A Mobilidade Como um Serviço (Mobility as a Service – MaaS, em inglês) surge na vida das pessoas, municípios e regiões como uma forma de interligar e interconectar toda a oferta de mobilidade existente, numa plataforma orientada à operação de uma solução que parece simples, mas que é operacionalmente complexa.

O propósito real de um sistema MaaS é criar um ecossistema vivo de ofertas de transportes, que passam a ser fornecidas como um serviço integrado que move pessoas e bens do ponto A para o ponto B, em qualquer altura do dia. Hoje, um cidadão ou empresa que queira cumprir este objetivo, recorre a um conjunto de produtos e serviços, construídos de forma independente. Como tal, o cidadão despende mais tempo e dinheiro à procura da melhor solução, pela falta de um único serviço central e interoperável.

Importância fulcral para os municípios

Do ponto de vista dos municípios e das regiões, os sistemas MaaS revestem-se de grande importância enquanto solução para um conjunto de desafios colocados no domínio da Mobilidade urbana e regional. Desde logo, os sistemas MaaS promovem a organização e a otimização dos serviços de transporte, levando a uma gestão funcional e orçamental mais eficiente.

O próprio serviço prestado ao cidadão (sob o chapéu de “utilizador”, mas também de “eleitor”) torna-se mais responsivo e eficaz, contribuindo também para uma diminuição do trânsito, para uma melhoria na qualidade de vida e para uma suavização do impacto ambiental da Mobilidade urbana e regional. Além disso, os sistemas MaaS revelam o mérito natural de conseguir conjugar as operações de fornecedores de serviços de transporte de natureza pública e privada, fator crítico de sucesso para uma trajetória evolutiva da Mobilidade.

Os sistemas MaaS propõem-se a remover a complexidade dos vários passos desta operação: calcular a rota ótima, determinar trocas de transporte, realizar pagamentos a diferentes fornecedores, perceber qual a alternativa mais económica, optar entre o automóvel e os transportes públicos ou uma combinação de ambos, decidir como é que o cidadão vai buscar os filhos à escola no final do dia, identificar a melhor forma para escapar ao trânsito, entre outros momentos de ansiedade.

Quando o utilizador se quer deslocar do ponto A para o ponto B, pretende tirar partido da melhor solução para o seu caso em específico. Num futuro MaaS, pode usar-se qualquer um dos meios de transporte que estão disponíveis nas cidades, pagando à medida da sua utilização.

Passe universal pode ser solução

Uma solução pode ser um passe de transportes que dá acesso aos cidadãos, não só a toda a rede de transportes públicos, mas também a micromobilidade (bicicletas partilhadas, trotinetes, etc.), aluguer de veículos (automóveis, motoretas, etc.), transporte e logística on-demand (TVDE, com o Uber) num único ponto de acesso. Pode imaginar-se também que, nesse futuro não tão distante, os veículos vão estar, desde a sua criação, orientados para a partilha, automatização e autocondução. Este é um futuro em que os vários produtos são integrados num único serviço, à nossa disposição e à distância de uma app.

Como tal, se um cidadão quiser ir comprar bens de grande dimensão, necessita de veículos próprios, podendo assim aceder ao serviço de MaaS para procurar alternativas que sejam viáveis e que garantam o seu transporte e dos seus bens, removendo as dificuldades inerentes à procura e obtenção destes serviços.

Serviços de transporte multimodal

Num sistema de MaaS, obter serviços de transporte multimodal para diferentes propósitos, transforma-se num processo bastante simples e recorrente, que se subdivide em passos bastante bem definidos:

1. O cidadão acede à aplicação de MaaS no seu smartphone; 

2. Carrega os seus créditos MaaS, referentes à subscrição única dos vários serviços de mobilidade existentes; 

3. Escolhe o meio de transporte mais adequado para chegar ao seu destino; 

4. Verifica o valor correspondente deduzido pela aplicação; 

5. Inicia a sua viagem.

Isto é o sonho de um sistema de MaaS integrado, um sonho que parece tão simples, mas que ignora muitas necessidades “escondidas” de uma estratégia multipasso. Esta começa com o aparecimento de plataformas tecnológicas que respondam à necessidade de juntar, agregar, simplificar, centralizar e organizar os diferentes players, modos de transporte, modos de pagamento, modelos de governação e operação, incentivos à operação integrada dos vários stakeholders na cadeia de valor, entre outros. Ou seja, no grande sonho do MaaS reside também o seu maior desafio.

Este desafio não é mais que o acumular de vários anos de aplicações e operações verticalizadas e direcionadas ao domínio, que têm como intuito principal resolver uma porção do problema do transporte para um determinado segmento populacional.

Estas aplicações, públicas e privadas, foram pensadas num momento distinto e com necessidades, possibilidades tecnológicas e económicas completamente diferentes das discutidas hoje.

Dispensar o veículo particular é possível

Com uma oferta MaaS, pretende-se usar o conhecimento adquirido até hoje e integrá-lo numa nova alternativa de mobilidade que aglomera as possibilidades dos vários meios disponíveis. Dessem modo coloca o cidadão comum numa situação em que à pergunta “É mesmo necessário comprar o meu próprio veículo?”, o “Não” se torna uma resposta válida.

Isto é, o problema do MaaS não são as aplicações verticais (domain-driven) que já existem nas cidades ou os domínios que faltam digitalizar à cidade para poder ter mobilidade interconectada. O problema está na definição desses pontos de integração, na reconciliação dos vários players do ecossistema de mobilidade e na definição de um modelo tecnológico e de negócio que lhes permita fazer parte de uma iniciativa maior de mobilidade, orientada ao cidadão, em que todos ficam a ganhar.

A plataforma tecnológica que suporte este futuro será uma peça fulcral de interoperabilidade e tradução de todo o ecossistema de mobilidade, sendo a principal responsável pela definição de um roadmap bem definido para nos aproximar do sonho do MaaS.

Gestão pública, privada ou mista?

Para além de todas estas questões, o ecossistema debate-se ainda com outra questão: quem deve gerir a plataforma de MaaS – um operador privado, a cidade, ou um novo operador misto?

A tecnologia e o conceito de MaaS apresentam vantagens preponderantes na definição de uma estratégia a vários anos para a aglomeração de diferentes vertentes de mobilidade numa única plataforma central que servirá para nos aproximar do grande sonho. Mas, que requer que sejam desenvolvidos novos modelos operacionais preparados para receber uma plataforma destas e tirar total partido dela.

Ao longo dos últimos anos, tenho vindo a acompanhar muito o ecossistema e compreendido que a mentalidade está a mudar.

Deixamos de ter as aplicações verticais comuns e passamos a ter uma única solução, que facilita a escolha dos cidadãos, tornando as cidades mais felizes e inteligentes.

É exatamente isso que temos feito na Ubiwhere, com a construção de um catálogo de mobilidade que define uma estratégia a longo prazo para resolver os problemas do MaaS e aproximar as cidades, municípios, regiões, operadores e cidadãos, para que estes consigam ir de A a B, sem se preocuparem como ou a quem têm de pagar.

Deixe um comentário

avatar
  Subscribe  
Notify of