A Volvo Cars tem vindo a passar por uma profunda remodelação, estabelecendo recordes consecutivos de vendas e estabelecendo-se como um player global, colocando-se na vanguarda da eletrificação, das vendas online e das novas soluções de mobilidade.

Em reconhecimento do seu trabalho e liderança e como impulsionador desta transformação, Håkan Samuelsson, Presidente e CEO da Volvo Cars, recebeu este mês o prémio da Autocar Business – o Issigonis Trophy.

Issigonis Trophy

Criado pela Autocar em homenagem ao célebre designer automóvel Sir Alec Issigonis.

Este troféu é apresentado anualmente a uma personagem do mundo automóvel que, na opinião do painel de jurados, tenha causado um impacto significativo no setor nos últimos 12 meses.

Håkan supervisionou a eletrificação de toda a gama, tornando a Volvo Cars o primeiro construtor automóvel tradicional a assumir um compromisso total com a eletrificação, comprometendo-se também a melhorar a pegada de carbono da empresa com o objetivo de se tornar neutra em termos climáticos até 2040.

Sob a liderança de Samuelsson, a Volvo duplicou a sua produção anual de carros para 700.000 unidades, elevou a sua imagem de marca a par com o trio Audi-BMW-Mercedes, restaurou a sua presença anteriormente enfraquecida no mercado dos EUA ao abrir uma fábrica local, fez grandes incursões na China e fixou uma meta ambiciosa em termos ambientais, estimando que a sua gama de modelos inclua 50% de modelos totalmente elétricos até 2025.

Três fatores para o sucesso

“A Volvo Cars estabeleceu o seu caminho para ser líder na eletrificação e na transformação da indústria automóvel, o que dá às pessoas da nossa empresa excelentes oportunidades para reconhecimentos futuros. Este prémio é uma grande motivação para toda a equipa da Volvo Cars” – Håkan Samuelsson – CEO – Volvo Cars

Entrevistado pela publicação britânica Autocar, o CEO do construtor sueco considera que o êxito que tem sido alcançado pela sigla sueca se relaciona com três fatores: “Primeiro, estamos a vender os nossos melhores Volvos de todos os tempos. A nossa qualidade e tecnologia são boas, mas agora temos um ótimo design. Há dez anos, acho que podemos concordar que o estilo da Volvo não estava no seu melhor. Segundo, recuperamos o impulso nos EUA. Há cinco anos, falava-se que deixaríamos os EUA por completo. Os revendedores perguntaram como esperávamos ter um bom desempenho aí se não investíssemos localmente. Isso abriu-me os olhos. Terceiro, a vantagem de pertencer à Geely, que nos dá acesso premium à China. Juntem-se estes três elementos e perceber-se-á o nosso progresso”.

“Se se pretende ser uma ótima empresa, a última coisa que se diz é que se deseja ser grande daqui a 10 anos. Isso não cria energia ou motivação. É o que se faz hoje que conta. Nós concentramo-nos em fazer o que era necessário e estávamos confiantes num bom resultado”.

Uma nova maneira de enfrentar os alemães

Para o patrão da Volvo, a aposta passou por encontrar uma nova maneira de enfrentar os alemães. “Decidimos há muito tempo que tínhamos que ser premium. Mas fizemos muito benchmarking e cópia. A minha primeira pergunta foi: e a segurança? Esse é um valor tradicional da Volvo. As pessoas responderam-me que todos os construtores atualmente têm essa preocupação. Mas os alemães são bem-sucedidos porque têm atributos conhecidos: tecnologia para a Audi, dinâmica de condução para a BMW, qualidade premium e prestígio para a Mercedes-Benz. Nós precisávamos de algo diferente”.

À Autocar, Samuelsson afirma ter decidido que a Volvo tinha que ser “centrada no ser humano”, com segurança e sustentabilidade no centro. “Se se prestasse atenção para a sociedade, percebia-se que o vento estava a soprar nessa direção”, acrescenta.

  • Projeto experimental de carsharing MNa entrevista à Autocar, Samuelsson abordou o tema do carsharing: “Para mim, é preciso voltar ao objetivo de compartilha de carros: se as pessoas nas grandes cidades querem mobilidade pessoal sem o incómodo de possuir um veículo e uma garagem, certamente devemos oferecer isso”. A Volvo já tem um projeto experimental em Estocolmo chamado M.

    “Até agora, os planos concentraram-se demasiado em distâncias curtas”, explica o CEO da Volvo. “Devemos ficar fora do território da Uber e entrar no uso convencional: um automóvel por um dia ou por uma semana. Se permitir que as pessoas deixem o carro em qualquer lugar, elas farão exatamente isso. Os custos da recolha serão enormes. Qualquer solução deve ser lucrativa e fornecer valor ao cliente, não apenas voltada para despejar carros para fora de uma fábrica. Estamos a trabalhar nisso agora – um produto e um procedimento – e, embora não tenhamos certeza de que temos um plano absolutamente claro e lucrativo, estou otimista”.

“Começamos a dedicar-nos a esse enfoque. A segurança das famílias tornou-se importante e uma parte disso foi usada para introduzir um limite de velocidade [todos os novos Volvos agora têm um limite de 180 km/h]. E a sustentabilidade correspondia a isso. Para muitas pessoas, proteger o planeta faz parte da proteção das suas famílias”.

Apesar dos efeitos do coronavírus e da doença COVID-19, Samuelsson está confiante em conseguir manter o ímpeto de crescimento da Volvo: “Se a sustentabilidade continuar a ser importante, devemos ser capazes de continuar a crescer mais ou menos como temos conseguido. A crescer a 10% ao ano, seremos muito maiores em cinco anos. Mas neste objetivo está contido mais do que a mera afirmação de que faremos um milhão de carros em dois ou três anos: precisamos de fazer o que é certo”.

50% dos Volvos PHEV e restante EV puros

Parte da receita da Volvo – assume o nº1 da Volvo – é acelerar a eletrificação para compensar a ainda lenta adoção de BEV, de modo a que, até 2025, 50% dos Volvos sejam PHEV e o restante sejam EV puros.

Questionado sobre o aumento da quota dos EV na gama Volvo será prejudicial para os lucros, Samuelsson rebate a ideia: “O custo de um VE de hoje não será o mesmo amanhã. As baterias cairão de preço e o custo dos carros convencionais aumentará. Como sempre, o lucro é gerado pela forma como atrativos serão os produtos que lançamos e não tenho dúvida de que os nossos automóveis elétricos serão realmente atraentes. Eles terão a questão da sustentabilidade de que falei e depois haverá a experiência de conduzir. É muito difícil encontrar desvantagens nisso”.

Autonomia vai melhorar

“Obviamente, ainda precisamos melhorar a autonomia dos veículos elétricos. Um condutor deve poder conduzir oito horas e parar para recarregar a sua viatura enquanto ‘recarrega’ também o seu corpo. Mas as autonomias dos EV melhorarão rapidamente. Em cinco anos, os especialistas dizem que a autonomia duplicará. Há muito mais cérebros concentrados no desenvolvimento da química das baterias do que nunca”.

Samuelsson vê os PHEV como “uma espécie de tecnologia de transição”, especialmente útil quando a infraestrutura para os automóveis 100% elétricos ainda se desenvolve lentamente. Todavia, à medida que a Volvo se aproxima do seu objetivo de 50%-50% entre EV e PHEV por volta de 2025, Samuelsson acredita que o perigo mais sério poderá estar em não transformar a empresa com a rapidez suficiente. “Precisamos de ir rapidamente”, diz, salientanto ainda que “precisamos trazer os nossos clientes connosco. Os carros podem ser ainda mais Volvo do que são agora”.

Os carros que tem na garagem?

O nº1 da Volvo descreve-se como alguém interessado em automóveis, apesar de estar muito comprometido com a eletrificação para se encaixar na descrição do “petrolhead”.

“Eu não me descreveria como um fanático por carros”, diz Håkan Samuelsson. “Mas sempre me interessei muito por automóveis do ponto de vista de engenharia [o CEO da marca nórdica tem um mestrado em engenharia mecânica] e sempre me fascinou ver como as coisas funcionam”.

“Tenho dois carros muito bons e atualmente estou a construir uma nova garagem para acomodá-los melhor. Um é o Volvo P1800, o Volvo mais elegante já construído. Utilizá-lo-emos para viagens de verão e diversão. O outro é um novo Polestar 1, um carro do qual tenho muito orgulho”.

Samuelsson lembra que o P1800 foi o veículo usado na série de TV dos anos 1960, “The Saint”, por Simon Templar. Do Polestar 1, Samuelsson diz: “Tenho a certeza de que, se Simon Templar ainda estivesse por aí, ele gostaria de ter um”.

Embora concordando que, no mundo em mudança, toda a estrutura de estilo antigo em cima da qual todos os fabricantes estão assentes é um problema, Samuelsson insiste que um problema ainda maior seria tentar criar produtos que tentassem preservar a tecnologia antiga: “Há 30 ou 40 anos havia estaleiros onde no presente desenvolvemos automóveis. É bom para Gotemburgo e para a Suécia que os estaleiros não estejam mais lá. As pessoas que trabalham ali encontraram novas oportunidades. Em casos como este, não acredito que devamos proteger empregos antigos. É melhor ajudar as pessoas a desenvolver novas capacidades”.

Encontrar um futuro para a fábrica de motores da Volvo é um excelente exemplo, acredita Samuelsson. “Poderíamos manter a nossa fábrica como está, mas continuar a emagrecer à medida que a procura diminuir, mas isso não seria muito gratificante para os nossos colaboradores e perderíamos o nosso maior talento. Por isso, talvez seja melhor formar uma nova operação combinada de motores com a Geely, criando motores híbridos realmente fantásticos para todo o grupo. Se se conseguir fazer cedo uma mudança como esta, é possível que a operação se torne interessante para outros fabricantes. Vamos ver…”

Extra-universo automóvel
Extra universo automóvel, Samuelsson diz que não é viciado em trabalho, considerando que “para trabalhar bem, é preciso ser inteligente”. O responsável da Volvo diz admirar particularmente as pessoas que produzem grandes mudanças nos negócios – como o criador do império de móveis da Ikea, que lançou uma ideia totalmente nova sem ajuda e a partir do zero. Agora com 68 anos, Samuelsson tem uma nova tarefa: a pedido do presidente do grupo, Li Shufu, está a começar a promover uma fusão que transformará o diversificado império corporativo de Geely num grupo automóvel mais coeso. “Isso faz com que seja difícil que me vá embora tão cedo. Além disso, tenho muita sorte de ter este trabalho, o mais emocionante que já tive. É uma boa empresa com muitas pessoas boas e enquanto eu me sentir assim – e elas puderem aguentar-me – ficarei um pouco mais”.

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