O trabalho de investigadores da Universidade de Aveiro (UA) está a contribuir para sustentar a relevância das pradarias marinhas e dos sapais para o sequestro de carbono, ajudando Portugal a chegar à “neutralidade carbónica” em 2050, tal como o país se comprometeu internacionalmente.

A petição promovida pela associação Ocean Alive procura apoios para uma recomendação ao governo.

Para aceder à página onde pode assinar, clique aqui.

 

A recomendação pretende a inclusão destes habitats no Roteiro para a Neutralidade Carbónica 2050 (RNC2050) e fundamenta-se em alguns estudos a nível nacional, onde se incluem os trabalhos assinados por investigadores do Centro de Estudos do Ambiente e do Mar (CESAM), laboratório associado, e do Departamento de Biologia (DBio) da UA.

A recomendação será apresentada ao Ministro do Mar e ao Ministro do Ambiente e das Alterações Climáticas.

A recolha de assinaturas diz respeito a uma Recomendação, uma iniciativa da Ocean Alive para que as pradarias marinhas e os sapais integrem o Roteiro para a Neutralidade Carbónica 2050 (RNC2050).

A “neutralidade carbónica” é um objetivo e um compromisso que Portugal assumiu internacionalmente de redução das emissões de gases com efeito de estufa (GEE), de modo a que o balanço entre as emissões e a remoção da atmosfera seja nulo em 2050.

Os sapais e as pradarias marinhas constituem dois tipos de zonas húmidas costeiras e são habitats contíguos, sendo que as pradarias marinhas estão localizadas a uma cota inferior.

“As pradarias marinhas são colonizadas por ervas marinhas (plantas aquáticas), constituintes do “moliço”, e incluem espécies como Zostera noltei e Zostera marina, podendo ser subtidais (estando permanentemente submersas) ou intertidais (estando temporariamente submersas ou emersas, o que depende do ciclo de maré)”, destaca Ana Sousa, investigadora do CESAM e do Departamento de Biologia da UA.

De acordo com a investigadora, “os sapais são habitats intertidais, estando sujeitos a períodos de emersão e submersão em função do ciclo de maré, e cujas plantas toleram salinidades elevadas (designadas halófitas), contendo espécies como o junco-das-esteiras (Juncus maritimus), a gramata branca (Halimione portulacoides) e a morraça (Spartina maritima)”.

O exemplo da Ria de Aveiro

A Ria de Aveiro é um bom exemplo de existência deste tipo de ecossistema. Aqui, a extensa área de sapais e de pradarias marinhas nesta lagoa costeira que integra a Rede Natura 2000, faz com que a Ria tenha um papel “extremamente importante”, explica a investigadora Ana Sousa, que tem desenvolvido, em colaboração com outros investigadores, vários estudos sobre este tema.

Alguns dados científicos referidos pela investigadora comprovam esta afirmação.

De acordo com o trabalho “’Blue Carbon’ and Nutrient Stocks of Salt Marshes at a Temperate Coastal Lagoon (Ria de Aveiro, Portugal)”, publicado na revista “Scientific Reports” em 2017, e da autoria de uma equipa de investigadores da UA, o “stock” de carbono azul estimado para os sapais da Ria de Aveiro é de cerca de 252 000 Mg C, considerando uma profundidade de 25 cm de sedimento.

O carbono azul é o carbono orgânico que é capturado e armazenado pelos oceanos e ecossistemas costeiros, particularmente os ecossistemas costeiros com vegetação, ou seja, pradarias marinhas, sapais e mangais, refere a investigadora.

Estima-se que, em Portugal, existam 14.000 ha de pradarias marinhas e de sapal, que contêm cerca de 3,5 milhões de toneladas de equivalentes de CO2 no primeiro metro de sedimento e que sequestram cerca de 17.000 toneladas de CO2 por ano

“No caso das pradarias marinhas, de acordo com o mais recente mapeamento realizado, estas ocupam cerca de 230 ha na Ria de Aveiro e o sequestro de carbono pode atingir 450 Mg de carbono se considerarmos a camada superficial de sedimento (10 cm). Este valor aumentará ainda se considerarmos maiores profundidades”, sublinha Ana Sousa.

Estes dados resultam de um trabalho publicado em 2019 na revista Scientific Reports (“Blue Carbon stock in Zostera noltei meadows at Ria de Aveiro coastal lagoon (Portugal) over a decade” da autoria dos investigadores Ana Sousa, José Silva, Ana Azevedo e Ana Lillebø.

“No entanto, há ainda várias questões que necessitam de ser aprofundadas no que diz respeito ao papel das pradarias marinhas e sapais da Ria de Aveiro no sequestro de carbono azul, pelo que continuamos a desenvolver projetos neste âmbito, sendo disso exemplo o projeto C-GRASS (financiado pelo CNRS/OHMI)”, acrescenta Ana Sousa.

Reconhecimento das pradarias marinhas e sapais

“Embora a distribuição global (área) de pradarias marinhas e sapais seja mais reduzida que a das florestas terrestres (que já integram o RNC2050), a sua capacidade de sequestro de carbono é superior, o que confere uma vantagem a estes habitats”, explica Ana Sousa. Além disso, “caso não sejam destruídos, os sapais e as pradarias marinhas têm a capacidade de sequestrar e armazenar o carbono azul no sedimento durante mais tempo, séculos a milhares de anos, quando comparados com as florestas terrestres”, descreve a cientista.

Assim, dada a importância destes habitats no sequestro de carbono azul, entre outros serviços prestados, e consequentemente a sua relevância no combate às alterações climáticas, é extremamente relevante a proteção e recuperação destes habitats que complementam o papel das florestas enquanto sumidouros de carbono, considera Ana Sousa.

Em particular no caso das pradarias marinhas da Ria de Aveiro, está em curso o Projeto BioPradaria, financiado pelo MAR2020), que visa implementar medidas de recuperação e promover a conservação destes habitats e biodiversidade associada.

A Recomendação será entregue pela Ocean Alive num futuro próximo, aos Ministros do Mar e do Ambiente e Ação Climática.

Se aceite a recomendação, a “inclusão das pradarias marinhas e sapais no RNC2050 seria um contributo extremamente relevante”, sublinha a investigadora do CESAM e DBio, para o “cumprimento destes objetivos (complementando o papel das florestas terrestres), também alinhados com o Acordo de Paris, em que Portugal se comprometeu a fazer esforços para limitar o aumento da temperatura média global do planeta a 1.5ºC, contribuindo assim para a mitigação das alterações climáticas”.

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