O governo colocou em consulta pública a “Estratégia Nacional para o Hidrogénio” (EN-H2).

O objetivo principal desta EN-H2 é “promover a introdução gradual do hidrogénio enquanto pilar sustentável e integrado numa estratégia mais abrangente de transição para uma economia descarbonizada”.

A Estratégia Nacional para o Hidrogénio” (EN-H2) pode ser consultada aqui. Contribuições até ao dia 6 de julho.

Para tal, será “necessário adotar e pôr em prática um conjunto de medidas de ação no curto e médio prazo, criando as base para a introdução deste vetor no sistema energético nacional de forma integrada, sustentável e otimizada”, refere o esboço do documento disponível para comentários e contribuições.

“O desenvolvimento de um verdadeiro mercado de hidrogénio em Portugal, implica criar as bases para estimular a procura, e não simplesmente aguardar que esta ocorra. Implica também, promover investimentos e estimular a investigação e o desenvolvimento para reduzir os custos de produção e potenciar o surgimento de novas indústrias e serviços que conduzam a economias de escala. E importa, sobretudo, olhar para a economia do hidrogénio de forma integrada, valorizando, em simultâneo, a produção e o consumo”, desafia o draft do governo.

Bases para a criação de uma economia de hidrogénio em Portugal

No caso dos transportes, um dos setores com maior importância em termos das emissões nacionais de GEE (Gases de Efeito de Estufa), terá de haver uma redução muito significativa das emissões entre 2020 e 2030.

Para promover a descarbonização deste setor e cumprir com a trajetória de diminuição de emissões, os combustíveis fósseis serão inevitável e progressivamente substituídos por eletricidade, biocombustíveis avançados e hidrogénio.

Hidrogénio nos transportes

A proposta de estratégia nacional para o hidrogénio indica que, no horizonte 2030, o contributo deste tipo de combustível para a descarbonização do setor dos transportes será mais significativo ao nível do transporte pesado de passageiros (pela introdução de autocarros a hidrogénio), no transporte de mercadorias (incluindo o transporte logístico urbano) e na ferrovia onde se assume que existe um potencial para o reforço e expansão da oferta em troços onde seria necessário um investimento na eletrificação de linhas, nomeadamente troços atualmente desativados.

Também ao nível do transporte marítimo, em particular no transporte doméstico de passageiros e mercadorias, a EN-H2 declara existir potencial para o hidrogénio surgir como opção para a descarbonização.

A estratégia assume que Portugal pode ter condições para ser uma referência na produção, consumo e exportação de hidrogénio verde.

No caso dos veículos ligeiros, com destaque para táxis, frotas de empresas e mobilidade partilhada, é expectável que o hidrogénio possa começar a ser uma opção por volta de 2030, à medida que a tecnologia se torna mais custo-eficaz face à opção elétrica a bateria, e surjam no mercado mais opções, complementada por uma rede de estações de abastecimento, afirma esta versão preliminar da estratégia.

Extra transportes, o hidrogénio é visto como podendo, igualmente, ser um meio para se atingir a “descarbonização da indústria”: “O hidrogénio tem o potencial para ser usado como combustível, substituindo os combustíveis fósseis na produção de eletricidade ou calor, ou como enquanto matéria-prima”, diz o documento.

Descarbonização das cidades

Associada à descarbonização dos transportes e da mobilidade, surge a descarbonização das cidades. “Atualmente o gás natural tem um peso significativo no consumo de energia no setor doméstico e dos serviços, podendo gradualmente ser substituído por gases renováveis, em particular o hidrogénio, em complemento à eletricidade. O desafio passa por transformar as nossas cidades em 100% renováveis do ponto de vista energético, contribuindo para a sua descarbonização”, declara este texto introdutório.

Indústria mais limpa

“Algumas das indústrias que mais podem tirar partido do hidrogénio enquanto opção para descarbonizar são a indústria do cimento, a refinação, química, metalúrgica, extrativa, cimento, vidro e cerâmica uma vez que são setores com elevados consumos de energia, em particular gás natural, que utilizam altas temperaturas nos seus processos, nos quais não é exequível o recurso à eletrificação”, declara a EN-H2.

A estratégia considera que o hidrogénio irá desempenhar um papel em todos os subsetores – eletricidade, transportes e aquecimento e arrefecimento – contribuindo no seu conjunto para alcançar a meta global de renováveis de um modo mais eficiente, complementando a eletrificação, que se mantém como prioridade.

Subsetores da eletricidade e aquecimento

“No caso do subsetor da eletricidade, o hidrogénio desempenhará um importante papel enquanto solução de armazenamento, em particular no armazenamento de longa duração, permitindo níveis mais elevados de incorporação de renováveis”, aportando “um valor mais elevado à eletricidade de origem renovável, e permitirá descarbonizar centrais termoelétricas a gás natural, essenciais à manutenção da segurança do abastecimento”.

No subsetor do aquecimento e arrefecimento, “o hidrogénio também será uma alternativa viável para a substituição dos combustíveis fósseis para o que muito contribuirá a regulamentação sobre gases renováveis e a sua injeção nas redes de transporte e distribuição de gás natural”, afirma a EN-H2.

Oportunidades para a descarbonização da economia por via do hidrogénio

Uso de águas residuais tratadas

“Uma importante componente da produção do hidrogénio é a água. Neste contexto, dado que nos recursos hídricos a prioridade passa por garantir o uso racional e a satisfação das necessidades de todos os consumidores, surge uma clara oportunidade para maximizar o uso de águas residuais tratadas”, admite o documento.

Considerando que apenas 1,2% da água residual tratada é reutilizada, a EN-H2 deixa claro que há “abundantes recursos que importa aproveitar e valorizar. As águas residuais provenientes de ETARs com tratamento terciário (isto é, remoção de nutrientes) podem
ser utilizadas para eletrólise, devendo passar por etapas adicionais de tratamento, o que aliás já acontece numa parte significativa das águas residuais domésticas tratadas em ETAR”.

A produção local de hidrogénio, junto dos locais de recolha e tratamento de águas residuais – domésticas e industriais –, em particular das ETARs, para além de representar uma nova oportunidade de investimento para este setor, “constitui uma oportunidade para dar valor
económico a um recurso que é quase na sua totalidade desaproveitado. Este valor económico poderá ser transferido para os consumidores de água, traduzindo-se numa potencial redução da fatura paga pelos consumidores”, avança esta abordagem.

Aproveitar infraestrutura de gás

Num cenário em que se irá promover a produção e a integração de hidrogénio, a EN-H2 informa que será imposto um calendário para a descarbonização gradual das centrais termoelétricas a gás natural por via da incorporação de percentagens crescentes de hidrogénio, conduzindo no longo prazo à sua total descarbonização.

“Atualmente já é possível, sem investimento adicionais substanciais, a utilização de uma mistura de até 5% de hidrogénio no gás natural nas turbinas das centrais termoelétricas” explica o documento.

“Do ponto de vista teórico, podemos assumir que até uma percentagem de cerca de 22% de incorporação de hidrogénio no gás natural não se verificam alterações ao poder calorífico do gás que circula na rede. No entanto, devem ser efetuadas as devidas análises e avaliações técnicas para aferir qual a percentagem de hidrogénio que pode desde já ser
considerada como admissível sem que resulte num impacto direto nos consumidores”, refere a estratégia.

E num cenário em que se irá promover a produção e o consumo crescente de hidrogénio, contribuindo para a descarbonização do setor do gás natural, “surge uma oportunidade para viabilizar as atuais infraestruturas de gás natural e para a manutenção de capacidade a gás no sistema electroprodutor”, é indicado.

“As recentes infraestruturas de gás podem ser facilmente adaptadas para distribuírem hidrogénio”, admite o documento.

“Relativamente às redes de distribuição de gás natural, o cenário é ainda mais otimista quando comparado com a rede de transporte, uma vez que estas redes são mais modernas e, por isso, na sua maioria construídas com materiais mais adequados para a introdução do hidrogénio, como é caso do polietileno, que, com as necessárias adaptações, possibilita a injeção de hidrogénio até 100%. Tem igualmente a vantagem de ser uma rede bastante
capilar e extensa, que possibilita a distribuição de energia a vários tipos de consumidores – industriais, domésticos – e em várias zonas do país, reduzindo a necessidade de construção de novas infraestruturas elétricas para suprir futuras necessidades de consumo de energia”, acrescenta.

  • Produção de hidrogénio
    A produção de hidrogénio, na parte que exceda as metas de consumo interno, “constitui uma oportunidade para Portugal continuar a crescer de forma gradual e tornar-se crescentemente num país exportador de energias renováveis, tirando partido da sua competitividade e grande potencial neste setor para inverter o seu papel “tradicional de importador líquido de energia”, é referido.
    “O potencial de Portugal na produção de hidrogénio verde a preços competitivos, aliado às necessidades de elevados volumes de importação do norte da Europa, pode constituir a base para um reforço do mercado interno europeu de energia, com Portugal a assumir-se como produtor europeu de referência e com elevado potencial exportador de hidrogénio verde para os principais centros de consumo”, defende o documento.
  • Esquema genérico da cadeia de valor do hidrogénio, da produção ao uso final:

Papel importante na descarbonização

“Neste contexto, o hidrogénio terá um importante papel a desempenhar na descarbonização da economia nacional, em particular nos setores que atualmente dispõem de poucas opções tecnológicas alternativas e onde a eletrificação no curto-médio prazo poderá traduzir-se em custos significativos, contribuindo para a concretização das metas em matéria de energia e clima rumo à neutralidade carbónica”, lê-se no documento.

Portugal “poderá assim apostar em soluções de escala variável, com diferentes tecnologias e com grande dispersão territorial que criam valor, garantem flexibilidade ao sistema energético e descarbonizam os consumos de energia”, sublinha.

Sete áreas identificadas

A estratégia aborda políticas em torno de sete áreas, correspondentes às diferentes fases da cadeia de valor do cluster do hidrogénio que foram identificadas.

Produção de hidrogénio;

Armazenamento, transporte e distribuição;

Descarbonização dos transportes;

Descarbonização da indústria;

Descarbonização da produção de eletricidade e calor;

Combustíveis sintéticos e outros usos;

Ações transversais

Em cada uma destas áreas, há já medidas de ação propostas, as quais – esclarece o documento – consistem num “primeiro exercício de definição de metas de incorporação de hidrogénio nos vários setores”, o qual “resulta do conhecimento disponível à data, com base em estudos e relatórios, carecendo de uma discussão mais profunda e
técnica com os principais interessados dos vários setores”.

Em complemento à fixação de metas de incorporação de hidrogénio, “é importante traçar um conjunto de objetivos que revelem a ambição desta estratégia e que assegurem que essas metas são cumpridas”, diz esta abordagem que avança com uma prévia proposta de metas de incorporação de hidrogénio em volume nos vários setores, “como ponto de partida para uma discussão conjunta”:

Os contributos que resultarem da consulta pública serão posteriormente avaliados e vertidos na Estratégia definitiva, incluindo um resumo dos principais contributos.

Segundo este documento, o hidrogénio em Portugal poderá representar em 2030, através de um investimento de 7000 milhões de euros, 5% no consumo final de energia, 5% no consumo final no transporte rodoviário, 5% no consumo do setor da indústria e uma redução de 300 a 600 milhões de euros nas importações de gás natural.

O hidrogénio enquanto vetor fundamental para a descarbonização da economia nacional rumo à neutralidade carbónica.

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