A associação Zero tem vindo a acompanhar em detalhe a evolução da qualidade do ar nas cidades de Lisboa e Porto, recorrendo às concentrações de dióxido de azoto (NO2) medidas nas estações de monitorização da qualidade do ar geridas pelas Comissões de Coordenação e Desenvolvimento Regional e cujos dados provisórios são disponibilizados pela Agência Portuguesa do Ambiente.

Lisboa: subidas de 86%

Em Lisboa, a primeira fase de desconfinamento começou com concentrações de dióxido de azoto até ligeiramente mais reduzidas que durante os estados de alerta e emergência.

Apesar das condições meteorológicas interferirem sempre na qualidade do ar, “não há dúvidas que a segunda fase de desconfinamento se traduziu num aumento muito significativo”, conclui a associação Zero.

Na Avenida da Liberdade verificou-se um aumento da concentração média entre a 1ª e a 2ª fase de desconfinamento de 86% (de 20 para 38 ug/m3), tendo as outras estações de monitorização em Lisboa registado aumentos entre 6% (Olivais) e 48% (Entrecampos).
O uso do automóvel é a principal causa deste aumento, já que é nas estações de tráfego que se verificam os maiores aumentos. Como indicador, na Avenida da Liberdade estamos a atingir níveis muito próximos com o valor-limite anual de dióxido de azoto (40 ug/m3).

Cidade do Porto: acima do valor-limite

No Porto, a Zero avaliou a única das duas estações de monitorização de qualidade do ar que apenas tem dados disponíveis desde o início de abril – a estação localizada na Praça Francisco Sá Carneiro, próximo de Campanhã. É uma estação de tráfego que reflete a proximidade de semáforo, o que pode interferir nos dados. Neste caso, quer mesmo durante o estado de alerta e emergência, as concentrações foram superiores ao valor-limite anual de dióxido de azoto.

“Talvez pelo ponto de partida já ser muito elevado, as concentrações registaram apenas uma aumento da ordem dos 13% entre a 1ª e a 2ª fase de confinamento, mas estão já muito acima quando comparando com o valor-limite anual do poluente (quase 40% acima)”, afirma a Zero.

Não podemos pôr a saúde em causa com a retoma da atividade económica, lembram os ecologistas.

“Sendo desejável a retoma do funcionamento da cidade de Lisboa, a Zero apela para a capacidade de implementarmos desde já, de forma justa e progressiva, um conjunto de medidas que consigam desde já garantir o cumprimento da legislação e melhorem a qualidade de vida numa das áreas mais nobres da cidade”, defende Carla Graça, vice-presidente da Zero.

“A nova Zona de Emissões Reduzidas prevista pela Câmara Municipal de Lisboa é um elemento essencial num futuro próximo e logo que possível, a par de outras medidas que permitam assegurar uma boa qualidade do ar”, sublinham os ambientalistas.

No Porto “é necessário resolver também estruturalmente os problemas de monitorização e qualidade do ar existentes. Estando agora mais conscientes da necessidade de salvaguardarmos a saúde pública, será uma enorme desilusão e uma mostra de incapacidade de gestão dos municípios e do governo se não o conseguirmos fazer”, diz Carla Graça.

Porquê o dióxido de azoto?

O dióxido de azoto é um indicador da poluição associada à atividade humana e tem sido usado por diversas entidades e universidades à escala mundial para avaliar o impacte da quebra da atividade económica e da mobilidade na qualidade do ar associadas às medidas restritivas impostas pelo controlo da pandemia de COVID-19.

Qual a principal fonte de NO2?

Nas cidades, o dióxido de azoto medido é principalmente consequência direta dos processos de combustão que têm lugar nos veículos, com maior responsabilidade dos que utilizam o gasóleo como combustível que apresentam maiores emissões comparativamente com os veículos a gasolina.

Quais os perigos para a saúde?

O dióxido de azoto em concentrações elevadas causa efeitos que vão desde a irritação dos olhos e garganta, até à afetação das vias respiratórias, provocando diminuição da capacidade respiratória, dores no peito, edema pulmonar e danos no sistema nervoso central e nos tecidos. Os grupos mais sensíveis como as crianças, os asmáticos e os indivíduos com bronquites crónicas são os mais atingidos. Este poluente pode ainda aumentar a reatividade a alergénios de origem natural.

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