A Nissan anunciou um profundo plano de reestruturação financeiro e de produto até 2023 (“Nissan Next”), com o intuito de recolocar o fabricante na rota do crescimento sustentável.

Isto depois do fabricante ter assinalado no ano fiscal de 2019 o pior resultado das últimas duas décadas, num prejuízo de mais de 5,6 mil milhões de euros.

A estratégia foi dada a conhecer esta quinta-feira, 28 de maio, numa conferência de imprensa de cerca de hora e meia de duração, conduzida, a partir do Japão, por Makoto Uchida, CEO da Nissan Motor, e que foi acompanhada em direto pelo Watts On.

Fugiu à questão…

Apesar desta postura de humildade, Makoto Uchida acabaria por fugir a uma questão mais delicada que lhe foi colocada remotamente por um jornalista japonês que pretendia saber mais em detalhe que tipo de argumentação teve lugar no seio da administração do fabricante, que justifica os atrasos no lançamento de novos modelos no mercado japonês.

Numa atitude tipicamente japonesa de admitir o erro próprio e garantir uma evolução (a chamada “Hansei” ou “auto-reflexão” na cultura nipónica), Makoto Uchida assumiu os erros de estratégia tomados no passado e que, para os clientes, acabou por se traduzir numa gama que foi envelhecendo, especialmente face à forte concorrência.

O plano de médio prazo da Nissan passa por refundar a marca, centrando-a nas valências que os seus responsáveis entendem que terão de ser mais fortes: eletrificação, SUV e conectividade.

Menos modelos disponíveis

Em termos de portefólio, o fabricante passará a ter por volta do ano fiscal de 2023 um total de 55 modelos, quando atualmente essa cifra é de 69, menos 20%.

A Nissan quer, igualmente, tornar mais dinâmico o ritmo de lançamentos de novos modelos, com o ciclo de vida média de cada um dos seus produtos a ser inferior a quatro anos.

Para os próximos 18 meses, a marca aponta a introdução de 12 novos modelos.

Conferência de imprensa em direto, por streaming, do Japão, na qual a Nissan anunciou um plano de quatro anos para alcançar um crescimento sustentável, a estabilidade financeira e a rentabilidade, até ao final do ano fiscal de 2023.

E os elétricos?

Até 2023, os consumidores a nível global podem esperar a chegada ao mercado de 8 novos Nissan elétricos. Serão modelos novos que se irão acrescentar aos existentes EV da marca (Leaf e e-NV200).

Alguns desses EV serão exclusivamente para a China, caso do Sylphy EV, Venucia e30 e Venucia D60EV. Para o Japão será feito um “key-car” elétrico, ao passo que o Ariya (um SUV já visto como concept) será um elétrico para todos os mercados, incluindo o europeu.

Concept Ariya da Nissan

Os EUA terão um novo SUV EV, ao passo que para a Europa será produzido um PHEV. Não há, por enquanto mais dados sobre esse plug-in híbrido. Certo é que consta da planificação europeia da Nissan para os próximos quatro anos.

“O nosso plano de transformação visa garantir um crescimento estável em vez de uma expansão excessiva de vendas. Agora vamos concentrar-nos nas nossas principais competências e melhorar a qualidade do nosso negócio, mantendo uma disciplina financeira e foco na receita líquida por unidade para atingir a rentabilidade. Isto coincide com a restauração de uma cultura definida por ‘Nissan-ness’ para iniciar uma nova era” – Makoto Uchida, CEO da Nissan

Paralelamente, a intenção da marca é expandir a sua tecnologia e-Power (em que há a junção de um motor elétrico e um motor a gasolina) aos segmentos B e C.

A médio médio prazo, o fabricante visa alcançar uma quota de eletrificação de 60% no Japão, de 23% na China e de 50% na Europa.

Aliança Renault-Nissan-Mitsubishi

Esta orientação até 2023 vai ao encontro do plano traçado pela Aliança Renault-Nissan-Mitsubishi, conhecida também esta semana.

Nessa medida, o portefólio de produtos de cada empresa é adaptado em termos de Aliança Renault-Nissan-Mitsubishi de modo a assentar no seguinte:

A renovação do SUV do segmento C, após 2025, vai ser conduzida pela Nissan, enquanto a futura remodelação do SUV do segmento B, na Europa, ficará a cargo da Renault.
► Na América Latina, os produtos baseados nas plataformas B vão ser racionalizados, evoluindo de quatro variantes para apenas uma para os produtos da Renault e da Nissan. Esta plataforma será produzida nas duas fábricas e cada uma produzirá para a Renault e para a Nissan.
► No Sudoeste Asiático e no Japão, os membros da Aliança vão explorar todas as oportunidades dentro do mesmo esquema, como a colaboração já existente entre a Nissan e Mitsubishi para os “kei-car”.

Ainda em termos de Aliança, a Nissan será o líder nas “regiões referência” da China, América do Norte e Japão; a Renault será a marca de referência na Europa, América do Sul e Norte de África; e a Mitsubishi Motors será o emblema nº1 dentro da Aliança para o Sudoeste Asiático (ASEAN) e Oceânia.

Apesar da marca não sair da Europa, serão, todavia, outros os mercados que a Nissan elege como prioritários na sua estratégia: Japão, China e EUA, latitudes em que a empresa possui mais forte presença.

A nível mundial, serão quatro os segmentos em que a Nissan se focará: segmento C; segmento D; veículos elétricos; e veículos desportivos.

No Velho Continente, para onde a marca diz pretender ter um crescimento sustentável em vez de apostar no critério do número de unidades vendidas, a Nissan irá passar a ser uma insígnia com um forte cunho em termos de eletrificação e uma marca de SUV e crossovers (onde tem o Qashqai e o X-Trail).

Outra vertente em que a Nissan tenciona passar a ser forte é na conectividade das suas viaturas e da condução autónoma, com o sistema ProPilot e suas próximas gerações.

O que nestes dois campos a Aliança vir a introduzir, será lançado em primeiro lugar nos modelos Nissan, os quais terão um forte aumento da conectividade, de 75% para 90%, nos próximos anos.

O “core business” da Nissan estará na eletrificação e na conectividade.

Encerramento de fábricas

O plano não será, contudo, feito sem “ferimentos, nem sangue”, já que o construtor anuncia uma redução de 20% no número de viaturas fabricadas nos próximos cinco anos, de 7,2 milhões de exemplares em 2019 para 6 milhões de unidades em 2023. A previsão é que o número de veículos “Made by Nissan”, em situações normais, passe para 5,4 milhões/ano.

O intuito é realocar recursos para que a marca tenha produtos mais globais, ainda que sem descurar alguns mercados particulares, os quais, dada a sua relevância e dimensão, caso da China, receberão veículos mais específicos e mais à medida do consumidor local.

Para tal, o construtor sai do mercado da Coreia do Sul, encerra a Datsun na Rússia e fecha as fábricas que tem na Indonésia (Tailândia passará a ser a base de produção da região ASEAN) e em Barcelona, onde é montado o furgão elétrico e-NV200.

A marca tem uma explicação para o fecho das fábricas: o construtor tem como meta atingir uma taxa de utilização das suas linhas de produção acima dos 80%, para tornar as operações mais rentáveis.

a marca terá menos modelos, o que implica cortar a produção e fechar fábricas.

O encerramento da fábrica de Barcelona atinge diretamente 3.000 trabalhadores e, segundo os sindicador, poderá afetar cerca de 13.000 outros postos de trabalho indiretos, o que totalizará mais de 20 mil pessoas. As contas são dos sindicatos espanhóis.

Em maio de 2012, a Nissan anunciava a produção do furgão elétrico e-NV200 na sua fábrica de Barcelona. Oito anos depois, anuncia o encerramento da fábrica da Catalunha.

O fecho da fábrica em Barcelona pode, todavia, ter implicações mais sérias, já que “significa abandonar a União Europeia, com o consequente custo de reputação num mercado de mais de 500 milhões de pessoas”, salientou em comunicado o Ministério da Indústria de Espanha. Isto porque Sunderland, outra fábrica Nissan, fica no Reino Unido, o qual está fora da UE desde 31 de janeiro de 2020.

A poupança conseguida será direcionada para investir no que passa a ser tido como central do negócio (e investir com mais controle).

Makoto Uchida não adiantou uma data para o fecho da unidade fabril na Zona Franca de Barcelona, explicando que será um assunto que ainda será alvo de conversações com o governo espanhol e os sindicatos.

Nada foi, igualmente, dito na conferência de imprensa sobre para onde será deslocalizada a produção do e-NV200. Uma das hipóteses que admitimos é a sua passagem para Sunderland, Inglaterra, que se manterá ativa.

Todavia, neste momento, ainda não dados sobre esse hipotético cenário, com o plano detalhado para a Europa a ser anunciado mais tarde.

O e-NV200 começou a ser feito na Catalunha em maio de 2014, representando um investimento de 100 milhões de euros na fábrica da Nissan. Barcelona é a única unidade fabril da Nissan a produzir a e-NV200, de onde é exportada para todos os mercados mundiais. Onde irá ser montada agora, é a dúvida?

Com a redução da capacidade de produção de 20%, o emagrecimento da gama de produto em 20% e a diminuição dos custos gerais e administrativos de 15%, o construtor estima vir a cortar os seus custos na ordem dos 250 mil milhões de euros, face ao ano fiscal de 2018.

Este plano estratégico visa colocar a Nissan com 5% de lucro operacional e 6% de participação de mercado global até 2023.

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