Rui Lima
Rui Lima
Diretor pedagógico do Colégio Monte Flor e professor do 1º ciclo considerado pela Microsoft, em 2014, como um dos 18 professores mais inovadores do mundo. Autor do Livro “A Escola que Temos e a Escola que Queremos”.

"A professora até tem o bom senso de fazer uma atividade curta, de cerca de 5-10 minutos, mas os miúdos ligam o micro, desligam a chamada sem querer, quando ela pede alguma interação começam todos aos gritos e a falar ao mesmo tempo. Andam pela casa a mostrar tudo, até a mãe a tomar banho no chuveiro."

Tele-Pais Anónimos, as outras vítimas da pandemia

0
3751

Terapeuta: Boa noite a todos! 

Todos: Boa noite!

Terapeuta: Hoje temos connosco um novo participante nestes nossos encontros por videoconferência e antes de desligarem o microfone do vosso computador, gostaria que déssemos as boas vindas a mais um Tele-Pai deste grupo, o PaiProf2020!

Todos: Boa noite PaiProf2020!

PaiProf2020: Boa noite!

Terapeuta: O PaiProf2020 acedeu a esta reunião online dos Tele-Pais Anónimos a Distância porque precisa de ajuda, pois estas últimas duas semanas não têm sido fáceis. PaiProf2020, quer partilhar connosco o seu estado de espírito?

(Silêncio…seguido de alguns ruídos indistintos)

Terapeuta: PaiProf2020, não sei se me está a ouvir bem…o sinal de Internet não tem estado muito forte e como não está a usar a câmara, não tenho a certeza de que esteja aí…

PaiProf2020: Sim estou a ouvi-la bem! É que a câmara do meu portátil não está a funcionar. Deve ter sido um dos miúdos que me desconfigurou isto durante a aula de Geografia. Hoje tive de lhe emprestar o meu computador porque a minha mulher tinha uma reunião à hora da aula do meu mais velho e como só temos dois computadores e um tablet em casa, mas o tablet não funciona muito bem para estas coisas, o rapaz teve de usar o meu…(pausa…suspiro…pausa mais longa) Mas enfim…aproveitei para fazer um trabalho de Expressão Plástica com o mais novo! Era preciso fazer uns binóculos com uns rolos de cartão do papel higiénico. Vá lá que isso por aqui não falta que nos abastecemos bem… (suspiro longo) isto não está fácil! Não está não…

Terapeuta: Desabafe…à vontade…é para isso que estamos aqui…como professor, é normal ter muitas preocupações para nos contar…

PaiProf2020: Bem…na realidade, eu aderi a este grupo, não tanto para falar como professor, mas mais para desabafar como pai. É verdade que acordo às 8.00h e entre as 9 da manhã e as 9 da noite, quase todo o tempo é dedicado aos meus alunos. Eu até já utilizava bastante a tecnologia, mas agora há videoconferências, há apoio pedagógico personalizado aos que sentem dificuldades com conteúdos, há apoio técnico aos que não conseguem usar alguma ferramenta ou quando o computador está a dar problemas, há as correções das tarefas que fazem online, a visualização dos trabalhos que os alunos colocam na plataforma da Escola, há emails a cair constantemente aos quais tenho de responder e há a preparação das aulas do dia seguinte, com pesquisas diárias por novos conteúdos e ferramentas online para se aprender…os alunos e eu também. Mas isso, isso já era o meu dia-a-dia…nada mudou! O que me fez aderir a este grupo são as minhas obrigações de pai…(silêncio…ouve-se um choro contido)

Terapeuta: Desabafe PaiProf2020…pode falar à vontade…temos neste grupo já um número considerável de pessoas que percebem o que está a sentir! Fale connosco…

PaiProf2020: (Ouve-se um suave fungar de nariz e um curto pigarrear) Estava eu a dizer que acordamos todos às 8 horas da manhã. Tomamos o pequeno-almoço em família, como num dia normal e durante a refeição começamos logo a ler os emails das Escolas dos nossos dois filhos, com as tarefas que eles têm para fazer. O mais novo, que está no 1º ano ainda não percebeu muito bem onde está metido! Nem ele, nem os colegas! As videochamadas com a professora são uma absoluta loucura, com ele a precisar de ter o pai ou a mãe ao lado durante o tempo que a aula dura. A professora até tem o bom senso de fazer uma atividade curta, de cerca de 5-10 minutos, mas os miúdos ligam o micro, desligam a chamada sem querer, quando ela pede alguma interação começam todos aos gritos e a falar ao mesmo tempo. Andam pela casa a mostrar tudo, até a mãe a tomar banho no chuveiro. Ou seja, eu, que também estou em TeleTrabalho com os meus alunos, tenho de estar ali ao lado dele, enquanto a mãe que supostamente deveria estar em reuniões de trabalho durante grande parte do dia, divide-se entre andar em cima do mais velho, de 11 anos, que apesar de mais autónomo, tem de ter alguém a responsabilizá-lo, entre as suas obrigações profissionais  e a tentar evitar que o mais novo esteja sempre a entrar no quarto do mais velho, durante as 4 ou 5 videochamadas de quase uma hora com os professores das várias disciplinas. O rapaz já me disse que só ouve os primeiros 5 minutos…depois a cabeça desliga. Diz que nas aulas, mesmo sendo difícil estar a ouvir os professores, ainda consegue tomar alguma atenção. Dispara… “No início tinha graça…agora é só aborrecido”. Entre a uma e as duas, preparamos um almoço rápido e enquanto comemos somos bombardeados com mensagens de colegas a pedir ajuda ou a relembrar algo que é preciso fazer e conversas de WhatsApp de pais de colegas dos nossos filhos que como eu, estão capazes de amarrar os filhos à cadeira, de preferência em frente ao computador, para ouvirem os professores e as suas “palestras” à distância.

Depois de almoçar, eu faço as tarefas com o mais novo. Trabalhos no manual, testes online, vídeos e jogos em várias plataformas (eu já me perdi com tanta plataforma), trabalhos de expressão plástica e até exercícios de ginástica que o professor partilha connosco. E ali estou eu ao seu lado…(com o tom de voz a subir consideravelmente)…que o miúdo não sabe ler! O miúdo não sabe usar o computador! O miúdo não é capaz de fazer nada sozinho! (já fora de si) E eu, que à tarde me disponibilizo para ajudar os alunos que estão com dificuldades, em grupos mais pequenos, em sessões de 10/15 minutos em que podemos falar, partilhar, interagir um pouco mais, ali tenho de estar com o mais novo. Ou isso, ou ele vai invadir o quarto do mais velho, entretanto, com mais 3 ou 4 videochamadas. (desesperado) Eu não aguento isto! Eu tenho a minha profissão, eu sou pai, mas ser as duas coisas ao mesmo tempo, está a dar comigo em louco. À noite, o jantar é à pressa, que depois dos miúdos na cama é quando eu e a minha mulher conseguimos adiantar algum trabalho que ficou pendente ao longo do dia!

Não estamos a aguentar…não estamos…não há família, há quatro escravos do trabalho nesta casa! 

Terapeuta: Obrigado pela partilha! Foi um depoimento sentido. Falaremos mais adiante! Agora gostaria de ouvir a Lia1978 que também tem uma experiência interessante para nos contar.

Lia1978: Boa noite… eu sou mãe de 3 crianças em idade escolar, divorciada e também estou em teletrabalho… (silêncio…pausa…choro compulsivo)…

O texto acima, apesar de se tratar apenas de ficção saída da mente do autor, inspira-se nos milhares de casos reais que vão acontecendo um pouco por todos os lares do nosso país.

Deixe um comentário

avatar
  Subscribe  
Notify of