O recente surto de COVID-19 trouxe para a ribalta as doenças zoonóticas – transmitidas de animais para seres humanos – e os mercados de vida selvagem.

Tal como a COVID-19, algumas das maiores epidemias recentes, incluindo SARS, MERS e Ébola, também tiveram origem num vírus que passou de animais para pessoas.

Com muitas perguntas ainda por responder sobre as origens exatas do COVID-19, a Organização Mundial de Saúde confirmou já que é uma doença zoonótica, o que significa que passou da vida selvagem para o ser humano, tendo o governo chinês anunciado uma proibição abrangente do consumo de animais selvagens a 24 de fevereiro.

A WWF (World Wide Fund for Nature) cita agora um estudo da GlobeScan que aponta para um estudo realizado em março a 5.000 pessoas de Hong Kong, Japão, Mianmar, Tailândia e Vietname, segundo o qual 93% dos entrevistados apoiam ações dos seus governos para eliminar mercados ilegais e não regulados.

À luz destes resultados, Catarina Grilo, diretora de conservação e políticas da ANP|WWF (Associação Natureza Portugal | WWF), reforça que “os mercados ilegais de vida selvagem são simultaneamente uma preocupação para a saúde humana e para a saúde do nosso planeta. Para a saúde do planeta, porque promovem a captura de animais selvagens e as suas populações na natureza ficam seriamente ameaçadas pela diminuição do número de animais. Para a saúde humana porque os mercados ilegais de vida selvagem são uma fonte de doenças para as pessoas, doenças essas para as quais não temos imunidade suficiente nem capacidade para combater eficazmente, traduzindo-se em sérias consequências para a vida de tantas pessoas”.

Ângela Morgado, diretora executiva da ANP|WWF, afirmou “que é profundamente triste a perda de vidas humanas e este é o momento de apoiarmos todos os que estão doentes ou a ser afetados pela doença”. Olhando para o futuro, relembra que “a China tomou já grandes medidas proibindo a caça, o comércio, o transporte e a alimentação de animais selvagens e o Vietname está a trabalhar em diretrizes semelhantes. Todos os países do mundo deverão juntar-se às vozes destas populações que estão a pedir aos governos asiáticos para encerrar mercados ilegais ou não regulados de animais selvagens de uma vez por todas para salvar vidas e ajudar a evitar a repetição da perturbação social e económica que enfrentamos hoje em todo o mundo”.

No referido estudo, 9% dos entrevistados pela GlobeScan afirmaram que os próprios ou alguém que conhecem compraram animais selvagens nos últimos 12 meses num mercado, mas 84% “não é provável” ou “é muito improvável” que compre produtos de animais selvagens no futuro.

“É hora de perceber a ligação entre o comércio de animais selvagens, a degradação ambiental e riscos para a saúde humana. Agir agora é crucial para a nossa sobrevivência”, afirmaMarco Lambertini, diretor da WWF Internacional.

Comércio de animais selvagens

O comércio insustentável de animais selvagens é a segunda maior ameaça direta à biodiversidade em todo o mundo, depois da destruição de habitats. As populações de espécies de vertebrados na Terra caíram em média 60% desde 1970, e um relatório de 2019 da Plataforma Intergovernamental de Ciência e Políticas sobre Biodiversidade e Serviços de Ecossistemas (IPBES) concluiu que atualmente, em média, 25% das espécies globais estão ameaçadas de extinção.

Ligação confirmada

Proximidade perigosa
Os ambientalistas referem que as atividades humanas alteraram significativamente três quartos da terra e dois terços do oceano, mudando o planeta a ponto de determinar o nascimento de uma nova era: o “Antropoceno”. Mudanças no uso da terra que tornam mais próximas a vida selvagem, o gado e os seres humanos facilitam a propagação de doenças, incluindo novas estirpes de bactérias e vírus. Paralelamente, o comércio ilegal e descontrolado de animais selvagens vivos cria oportunidades perigosas de contato entre os seres humanos e as doenças que estes possam ter. Não é por acaso que muitos surtos recentes tiveram origem em mercados que vendem uma mistura de mamíferos domésticos e selvagens, aves e répteis, criando as condições para o desenvolvimento de novas e antigas zoonoses: doenças infeciosas que podem ser transmitidas de animais para seres humanos.

No relatório “The Loss of Nature and the Rise of Pandemics – Protecting Human and Planetary Health”, publicado pela WWF Itália em março, são evidenciados os vínculos entre os impactos da humanidade nos ecossistemas e na biodiversidade e a disseminação de certas doenças. O relatório assinala ainda que a saúde humana e planetária está intimamente ligada. “A crise de hoje cria a necessidade urgente para uma reflexão aprofundada sobre a relação entre seres humanos e a natureza, os riscos associados ao desenvolvimento económico e como podemos proteger-nos melhor no futuro”, frisa a WWF.

Para os ecologistas, a situação atual destaca a necessidade de ações urgentes para reequilibrar o nosso relacionamento com a natureza, por forma a reduzir o potencial de doenças futuras.

“A perda e degradação de habitats, o comércio ilegal de animais selvagens, as emissões de gases com efeito de estufa, desenvolvimento de infraestruturas e consumo insustentável ameaçam os ecossistemas e a vida selvagem e, portanto, a saúde e o bem-estar das pessoas. É necessária uma ação urgente para proteger a natureza, em benefício das pessoas e do planeta”, alertam os ambientalistas.

“O ano 2020 representa uma oportunidade importante para reequilibrar o nosso relacionamento com a natureza. Os líderes mundiais irão tomar decisões críticas sobre a natureza, o clima e o desenvolvimento sustentável, e temos a oportunidade de garantir um novo acordo para a natureza e as pessoas que proteja as pessoas e o planeta”, afirma Ângela Morgado.

Fonte: WWF

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