Sabine Seymour
Sabine Seymour
Especialista em IoT, Sensors & Data da SingularityU Portugal

Os dados quantitativos longitudinais - biométricos e ambientais – que acompanham a evolução do indivíduo desde tenra idade, são fundamentais para compreendermos o ponto de partida das doenças e o impacto das mudanças ambientais no futuro da saúde.

Dados em saúde: “Digitalizar o corpo” para humanizar a tecnologia

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Sou atleta 24 horas por dia, sete dias por semana. Preciso de sol, oxigénio e exercício e é daí que decorre a minha paixão por desportos ao ar livre como esqui, surf ou golfe. Monitorizo o que como e quanto durmo.

Acredito que o exercício desempenha um papel importante para fortalecer o sistema imunitário e a ciência comprova-o – um estudo da Universidade de Bath confirma que a competência imunológica é aprimorada pelo exercício regular. Também acredito que comida é terapêutica e, por isso, precisamos de evitar alimentos processados, comer produtos orgânicos, preferir a produção local ou usar ferramentas para cultivar pelo menos algumas ervas em casa.

Acredito que com dados podemos perceber melhor o corpo humano. No fundo, sou uma “body sensorist”.

Num contexto como o atual, marcado pela pandemia do novo coronavírus, a análise de dados permite-nos entender o padrão atual da doença e as implicações futuras da epidemia.

Combater a epidemia exige recursos e dados

O momento que vivemos torna claro que o combate a uma pandemia exige a partilha de recursos e dados, através de tecnologias exponenciais com impacto global, e existem já exemplos neste sentido. Por exemplo, o Folding@Home, um projeto de computação que simula a dinâmica das proteínas e o seu processo de desdobramento associado a várias doenças, já se disponibilizou para simular a dinâmica das proteínas presentes no vírus, tirando partido da ciência aberta para encontrar respostas e desenvolver novas terapias.

Os dados quantitativos longitudinais – biométricos e ambientais – que acompanham a evolução do indivíduo desde tenra idade, são fundamentais para compreendermos o ponto de partida das doenças e o impacto das mudanças ambientais no futuro da saúde. Adicionalmente, para serem efetivamente úteis, estes dados precisam de ser uniformemente formatados e disponibilizados a todos os players do setor.

Na última década, algumas gigantes tecnológicas assumiram este papel e equiparam o cidadão comum com dispositivos que permitem agregar dados. Lançado em 2015, o Apple Watch é exemplo disso e permite a qualquer indivíduo monitorizar as informações de sensores que, entre outras funções, medem a pressão arterial ou analisam os padrões do sono.

Além de permitirem a cada indivíduo gerir melhor a sua doença, estes dispositivos permitem também que os médicos acedam de forma imediata às informações. Da mesma forma, existem já aplicações para registar informações ambientais. A próxima etapa passa por democratizar o acesso a estes dispositivos e ferramentas, para que qualquer indivíduo, independente do seu contexto socioeconómico ou da região geográfica em que vive, possa ser um agregador de sensores humanos. As interfaces dos dispositivos, por seu turno, precisam ser simples, transparentes e respeitar a privacidade de cada utilizador.

Dados em saúde são essenciais

É urgente iniciar a recolha de dados, da forma mais transparente possível, num formato legível para todos os especialistas e, simultaneamente, garantindo a privacidade dos dados e as regras éticas vigentes no Regulamento Geral de Proteção de Dados (GDPR).

Além dos dados, precisamos de algoritmos imparciais capazes de os entender e, consequentemente, prevenir ou limitar os surtos de epidemias. Estes algoritmos têm necessariamente que ser inclusivos e contextualizar os dados biométricos e ambientais recolhidos por indivíduos saudáveis.

É urgente criar produtos com valor social, capazes de manter o ambiente limpo e capital humano saudável. É imperativo desenvolver modelos de negócios inovadores em torno dos dados em saúde que respeitem a privacidade, mas que sejam igualmente eficazes na deteção de epidemias ou na criação de tratamentos preventivos e personalizados. É urgente desenvolver esquemas de incentivo para que os cidadãos forneçam dados, que, no fim da linha, salvam vidas.

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