Vera Rodrigues
Vera Rodrigues
Investigadora do Centro de Estudos do Ambiente e do Mar (CESAM) e do Departamento de Ambiente e Ordenamento (DAO) da Universidade de Aveiro (UA)

Para a região do norte de Itália, onde existem dados disponíveis de medições em várias estações de monitorização da qualidade do ar, é possível confirmar a redução gradual das concentrações de NO2 segundo uma tendência de redução de 10% por semana ao longo das últimas 4 a 5 semanas.

COVID-19 e a poluição: isolamento social e a qualidade do ar

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O mundo inteiro enfrenta uma crise de saúde pública sem precedentes – a pandemia da COVID-19. Em Portugal, à semelhança de outros países Europeus, o governo foi forçado a implementar medidas drásticas durante a vigência do estado de emergência, com o objetivo de prevenir a doença e conter a proliferação de casos de contágio de COVID-19.

Uma crise desta dimensão tem impactos imediatos e severos na população e na economia do país. Considerando os potenciais impactos nos diferentes setores da economia, nacional, europeia e mundial, a crise do coronavírus está a provocar a redução de múltiplas atividades económicas: vários voos foram cancelados, as escolas foram fechadas, os restaurantes estão encerrados, ou a laborar com limitações. Desta forma, a crise atual do coronavírus está a provocar a redução de atividades económicas, com potenciais impactos no ambiente e no clima. 

Uma das consequências imediatas das medidas de contingência é a redução temporária dos níveis de poluição atmosférica. Imagens de satélite da NASA mostraram reduções significativas das concentrações de dióxido de azoto durante o mês de fevereiro, na província de Wuhan, na China, considerada o epicentro da epidemia. 

O dióxido de azoto

O dióxido de azoto (NO2) é um poluente com propriedades interessantes e que nos permite ter uma interpretação mais clara daquilo que está a acontecer sob o ponto de vista de poluição atmosférica. Tal deve-se ao facto de se tratar de um poluente com um tempo de vida curta, permanecendo na atmosfera por períodos inferiores a um dia antes de ser depositado ou reagir com outros gases na atmosfera.

A maioria das suas fontes de emissão estão à superfície e são, geralmente, resultado da atividade humana, como o tráfego rodoviário, a produção de energia e o aquecimento residencial, e as indústrias. Assim, teoricamente, podemos inferir reduções das concentrações de NO2 como resultado das medidas de contenção da COVID-19, dado que estamos a reduzir drasticamente a atividade humana em setores de emissão como o dos transportes e o industrial.

No entanto, para o atual período de tempo decorrido desde o início desta pandemia, é ainda um desafio interpretar os dados estatisticamente de forma robusta, sendo ainda difícil isolar os efeitos associados às condições meteorológicas e os associados à redução das emissões induzidas pelas medidas implementadas contra a propagação da COVID-19. 

O caso do norte de Itália

Ainda assim, dados recentes do satélite Copernicus Sentinel-5P da Agência Espacial Europeia (ESA) mostram reduções das concentrações de dióxido de azoto em Itália, em particular no Norte de Itália, na região do vale do Po, uma região com elevado número de episódios de poluição atmosférica. Adicionalmente, os dados disponibilizados pelo CAMS – Copernicus Atmosphere Monitoring Service – permitem uma análise mais detalhada às alterações identificadas pelo satélite da ESA.

Para a região do norte de Itália, onde existem dados disponíveis de medições em várias estações de monitorização da qualidade do ar, é possível confirmar a redução gradual das concentrações de NO2 segundo uma tendência de redução de 10% por semana ao longo das últimas 4 a 5 semanas.

Em Milão, a média mensal das concentrações de NO2 registada no mês de janeiro foi de 65 µg.m-3, enquanto que no mês de fevereiro desceu para os 50 µg.m-3, e na primeira metade do mês de março este valor médio é já inferior a 40 µg.m-3 (o valor limite legal imposto pela legislação europeia para a concentração média anual de NO2). A tendência de redução linear da média diária das concentrações de NO2 é na ordem dos 4 µg.m-3 por semana. (fonte aqui).

Concentrações de NO2 no norte de Itália no 31 de janeiro de 2020 (fonte: Copernicus Atmosphere Monitoring Service (CAMS); ECMWF).
Concentrações de NO2 no norte de Itália a 15 de março de 2020 (fonte: Copernicus Atmosphere Monitoring Service (CAMS); ECMWF).

Outras reduções significativas

Os dados recentes da Agência Europeia do Ambiente confirmam reduções significativas nas concentrações de vários poluentes atmosféricos, em particular nas concentrações de NO2, em diversos locais na Europa (estudo teve por base cerca de 3000 estações de monitorização dos diferentes países europeus). Se focarmos a análise na semana de 16 a 22 de março de 2020, e compararmos os resultados com os da mesma semana em 2019, confirmamos claramente a tendência de redução das concentrações.

Nas cidades italianas as concentrações diminuíram 21% em Milão, 47% em Bérgamo e de 26 a 35% em Roma. Em outras cidades europeias que também implementaram medidas de contenção registam-se tendências semelhantes de redução das concentrações de NO2 para a semana de 16 a 22 de março de 2020. Em Barcelona os níveis médios de NO2 diminuíram 40%, enquanto Madrid registou uma redução de 41%. Em Lisboa as concentrações médias de NO2 desceram 51% na semana de 16 a 22 de março deste ano, por comparação com a mesma semana do ano passado. 

Este impacto positivo trará benefícios ao nível da saúde humana, já que os dados da Organização Mundial de Saúde estimam que a poluição atmosférica é responsável por 4.2 milhões de mortes por ano. Apesar das potenciais melhorias na qualidade do ar a curto prazo em algumas áreas, devido à implementação das metidas de contenção associadas à pandemia da COVID-19, os cidadãos com condições de saúde pré-existentes e que já tenham um histórico de exposição à poluição atmosférica de longo prazo são ainda mais vulneráveis durante este período. 

A redução da poluição vai poupar vidas?

A questão que fica por responder é se podemos esperar uma redução no número total de mortes associadas a causas ambientais devido à atual menor exposição a fenómenos de poluição atmosférica durante a pandemia da COVID-19. A resposta é complexa. É difícil e extremamente complexo antecipar alguma consequência das reduções de concentrações de alguns poluentes atmosféricos, dado que a exposição a longo prazo é a determinante para os números em termos de efeitos na saúde. E neste momento, é impossível antecipar a duração efetiva associada às atuais melhorias na qualidade do ar em centros urbanos.  

Nos dias que vivemos, a prioridade maior é a contenção dos impactos da crise atual do coronavírus na saúde pública da população, e a disponibilização dos melhores cuidados de saúde aos cidadãos infetados, assegurar o bem-estar da população e garantir os meios de sobrevivência, em particular aos mais vulneráveis. Cabe a cada um de nós, individualmente, desempenhar o seu papel.  

A redução de emissões desencadeada por uma crise desta dimensão terá provavelmente uma vida curta e terá, sem qualquer margem para dúvidas, um custo extremamente elevado para a sociedade.

A longo prazo é importante retirar desta vivência o maior número possível de aprendizagens para aumentar a capacidade de resiliência da nossa sociedade. O que aprendemos nós com esta crise que poderá ser utilizado para assegurar a boa qualidade do ar que respiramos?

É certo que vivemos uma crise sem precedentes e, por isso, não podemos olhar para a COVID-19 e os seus múltiplos impactos na nossa sociedade como um evento com resultados positivos. Esta paragem temporária da nossa sociedade não é de todo uma solução aceitável para enfrentar os nossos desafios urgentes e sistémicos de sustentabilidade.

No entanto, as concentrações dos poluentes atmosféricos estão a reduzir dramaticamente em tempo recorde. Algures a meio do caminho entre o antes e o durante a pandemia está a solução urgente, e que também esta depende de todos nós e da nossa capacidade para a mudarmos as nossas práticas diárias e comportamentos. 

Este artigo tem a co-autoria de Alexandra Monteiro, investigadora do Departamento de Ambiente e Ordenamento (DAO) da Universidade de Aveiro (UA)

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