Condições laborais na indústria da moda são muito preocupantes

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Uma das formas que os empresários encontraram para fazer render os seus investimentos na indústria da moda consiste em desenvolverem os seus negócios nos países onde não estão estabelecidos quaisquer ou quase nenhuns direitos dos trabalhadores. Desta forma conseguem encontrar mão-de-obra mais barata nos chamados países em desenvolvimento.

Obviamente que o patronato faz questão de frisar apenas o “lado positivo” desta situação usando argumentos como “para estes trabalhadores isto é melhor que nada” e “pelo menos estamos a dar-lhe um emprego”. 

Na verdade, o que estes empresários fazem é aproveitarem-se da miséria em que vivem estes povos e explorarem pessoas que não têm outra opção a não ser trabalhar em troca de salários miseráveis e submeterem-se a condições de trabalho desumanas. 

Pegando num exemplo concreto podemos referir que as condições de trabalho associadas à indústria têxtil na Ásia foram comparadas a escravatura pelo Parlamento Europeu. 

Para que fique com uma noção mais precisa do que realmente está aqui em causa, vamos analisar alguns problemas das condições laborais na indústria da moda nos países subdesenvolvidos.

Salários irrisórios

Quando são acusadas de pagarem pouco às pessoas que fabricam as suas peças, algumas marcas de roupa defendem-se alegando que os seus empregados recebem “pelo menos o salário mínimo”. Desta forma podemos colocar “em cima da mesa” a hipótese de continuarem a existir empresas que nem o salário estabelecido por lei pagam.

Além disso, na maioria dos países onde se produzem peças têxteis, o salário mínimo corresponde a um valor que pode variar entre 1/5 e metade daquilo que é considerável “um salário digno”. Ou seja, aquilo que os empregados destas marcas recebem pelo seu trabalho não chega nem para satisfazer as necessidades básicas de comida, habitação, higiene e educação de uma família composta por cinco pessoas.

Muitas horas de trabalho 

Ao contrário da realidade a que estamos habituados, quem trabalha na produção de roupa “tem horários” que podem corresponder a 14 ou 16 horas de trabalho diárias, sete dias por semana.

Há também que referir que, nas alturas de maior procura, estas pessoas são obrigadas a entrar ao serviço às duas ou três da manhã porque só assim conseguem produzir o necessário para a marca cumprir com os prazos de entrega das suas encomendas.

Recusarem fazer horas extras não é uma opção uma vez que o seu “salário base” é muito baixo e por isso têm que trabalhar o mais possível para poderem pagar as contas ao final do mês. No entanto, há casos em que estas horas de trabalho a mais não são sequer remuneradas. 

Os empregados são obrigados a submeter-se a estas condições de trabalho uma vez que, no caso de se recusarem a estes “horários”, arriscam-se a serem despedidas.

(In)segurança no trabalho

Quando vamos comprar as nossas roupas não nos passa pela cabeça que quem as produz trabalha em edifícios de péssimas condições: sem ventilação, onde têm que respirar substâncias tóxicas e inalar o pó das fibras.

Em 2013 morreram 1134 profissionais da indústria da moda por causa do derrocamento de um prédio de oito andares que albergava várias fábricas e um centro comercial em Dhaka, Bangladesh. Um episódio que veio frisar mais uma vez a falta de segurança no trabalho vivida nos países em desenvolvimento.

Os trabalhadores são também submetidos a agressões verbais e até mesmo físicas. Por exemplo, quando não conseguem cumprir com as metas inalcançáveis que lhe são exigidas, os empregados são insultados, impedidos de descansar e é-lhes barrado o acesso a água potável.

Exploração infantil

A produção de roupa é uma área do mercado que se desenvolve facilmente com mão de obra pouco qualificada, por essa razão são muitos os casos de exploração infantil associados à indústria da moda.

Só na India, são cerca de 250 mil as meninas sujeitas ao sistema “Sumangali”. Estas milhares de crianças pertencem a famílias com poucas posses e, no âmbito deste esquema, são obrigadas a empregarem-se durante três ou cinco anos nas fábricas têxteis. 

O mais inquietante é que estas pessoas passam a sua infância a trabalhar, sujeitas a exploração e a condições de trabalho desumanas, para receber em troca um miserável salário. 

Estima-se que no mundo inteiro sejam cerca de 168 milhões as crianças forçadas a trabalhar. Estamos a falar, mais uma vez, de escravatura. 

Trabalhos forçados

Um dos piores exemplos de trabalho forçado que podemos destacar teve lugar Uzbequistão, um dos maiores exploradores de algodão de todo o mundo. 

Todos os anos, durante o Outono, um milhão de pessoas são obrigadas pelo governo a abandonarem os seus empregos para irem trabalhar para os campos de algodão. Até as próprias crianças chegam a ser retiradas da escola para ajudarem na colheita desta matéria prima.

Acesso a sindicatos

Conscientes de que não são minimamente aceitáveis as condições de trabalho que oferecem, os patrões “protegem-se” impedindo os trabalhadores das suas fábricas de se sindicalizarem e consequente de defenderem os seus direitos. 

Em alguns dos países onde se desempenham este tipo de atividades, o próprio governo aplica políticas e regulamentos que vêm restringir a criação dos sindicatos. É o caso do Bangladesh onde apenas 10% dos seus 4500 trabalhadores do setor têxtil são sindicalizados. 

O facto de os trabalhadores sindicalizados serem ameaçados, agredidos fisicamente e até mesmo despedidos com impunidade são fatores que desincentivam a proliferação de sindicatos.  

Ainda sobre este problema, o porta voz do observatório de Direitos Humanos recorda o desastre da Rana Plaza defendendo que “se os trabalhadores tivessem tido mais voz, eles podiam não ter acatado a ordem dos seus chefes de continuarem a trabalhar naquele prédio depois da cúpula do mesmo ter rachado”.

Foto de Lauren Fleischmann

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