Pesquisas recentes descobriram a presença de plástico numa espécie nova de anfípodes do fundo do mar, que foi descoberta num dos lugares mais profundos do planeta.

O anfípode – conhecido no discurso informal como “tremonha” – foi descoberto por investigadores da Universidade de Newcastle, a 6900 metros de profundidade na Fossa das Marianas, no Oceano Pacífico, entre o Japão e as Filipinas.

Os investigadores nomearam oficialmente a espécie: “Eurythenes plasticus”, numa alusão ao plástico que ingeriu.

No corpo desta espécie encontraram PoliEtileno Tereftalato (PET), uma substância encontrada numa grande variedade de itens domésticos de uso comum, como garrafas de água mas também roupas de ginástica.

A pesquisa foi apoiada pela organização não governamental World Wide Fund for Nature, publicada hoje na revista científica Zootaxa e dada a conhecer pela ANP – Associação Natureza Portugal.

Heike Vesper, diretor do Programa Marinho da WWF Alemanha, afirma que “a espécie recém-descoberta ‘Eurythenes plasticus’ mostra-nos o quão abrangentes são as consequências da nossa utilização excessiva e fraca gestão de resíduos plásticos. Existem espécies que vivem nos lugares mais profundos e remotos da Terra que já ingeriram plástico antes mesmo de serem conhecidas pela humanidade. Os plásticos estão no ar que respiramos, na água que bebemos e agora também nos animais que vivem longe da civilização humana”.

Alan Jamieson, chefe da missão de pesquisa da Universidade de Newcastle, explica o motivo do batismo da espécie: “Decidimos o nome ‘Eurythenes plasticus’, pois queríamos destacar o facto de que precisamos tomar medidas imediatas para impedir o dilúvio de resíduos plásticos nos nossos oceanos”.

“Antes dos nossos resíduos plásticos chegarem aos corpos de animais marinhos, eles fazem uma longa viagem, que normalmente começa em países industrializados como o nosso. A produção é altíssima, mas de acordo com estimativas globais, a percentagem de itens reciclados no período de 1950-2015, foi apenas de 9%, sendo que 12% foi incinerado. Os restantes 80% ficaram acumulados em aterros e perdidos no meio ambiente. As exportações de resíduos plásticos frequentemente acabam no sudeste asiático, onde a gestão de resíduos é insuficiente ou inexistente. Como a maior parte do lixo plástico não pode ser reciclado, acaba por ser queimado ou despejado em aterros. A partir daí, chega aos rios e, finalmente, ao oceano. Uma vez na água, a poluição por plástico decompõe-se em microplásticos e nanoplásticos, espalhando-se pelo oceano, onde é ingerido por animais marinhos como o E. Plasticus” , explica a ANP – Associação Natureza Portugal.

Plásticos em diferentes espécies

Em Portugal, a maior parte do lixo marinho encontrado nas praias é plástico descartável. O relatório da ANP|WWF “X-Ray da Poluição por Plástico – Repensar o Plástico em Portugal” refere vários registos da ingestão de plásticos por algumas espécies aquáticas: um estudo no sul de Portugal observou plásticos nos tratos gastrointestinais de 22,5% das 160 aves marinhas analisadas; outro estudo ao longo da costa portuguesa identificou plásticos em 12,9% das 288 aves analisadas.

A cada minuto de cada dia, pelo menos um camião de lixo plástico entra nos nossos oceanos. Para travar esta fuga, a WWF lançou uma petição mundial, que foi assinada por mais de 1,6 milhões de pessoas em todo o mundo. Em www.stopplasticpollution.eu, os apoiantes podem pedir aos seus governos que se comprometam a trabalhar em prol de um tratado internacional juridicamente vinculativo.

Para acabar com a poluição por plásticos em todo o mundo, a WWF tem pedido aos líderes globais uma solução global, tendo lançado, em 2019, uma campanha internacional pedindo um acordo global juridicamente vinculativo para reduzir o desperdício de plástico, melhorar a gestão de resíduos e travar a fuga de plásticos para os oceanos.

O papel do governo português

“Nem todos os espécimes da nova espécie E. plasticus contêm plásticos. Portanto, ainda há esperança de que muitos mais espécimes de E. plasticus sejam isentos de plástico e que o seu nome sirva apenas de lembrança da extensão da poluição marinha por plásticos no mundo. Para ajudar a proteger os animais marinhos (incluindo aqueles que integram a nossa alimentação), os seus habitats naturais e consequentemente a nossa saúde, é essencial que o nosso Ministro do Ambiente e Ação Climática, João Pedro Matos Fernandes, trabalhe em direção a um tratado internacional juridicamente vinculativo para acabar com a poluição por plásticos marinhos”, reforçou Catarina Grilo, diretora de conservação e políticas da ANP|WWF.

 

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