A população está cada vez mais preocupada com a frágil situação em que se encontra o planeta. Influenciadas pelo “despertar” dos seus consumidores, algumas indústrias já se comprometeram a tomar medidas no sentido de reduzir a sua pegada ecológica. Ainda assim, continuam a existir atividades que, também pelo facto de se realizarem maioritariamente nos países em desenvolvimento, comprometem seriamente o futuro desta “nossa casa”.

Na luta pelo título de “maior perigo para o planeta”, só a exploração de petróleo é mais ameaçadora do que a indústria da moda. Podemos até nem ter consciência disso enquanto consumidores, mas as peças de roupa que vestimos têm associado ao seu processo de produção graves consequências para a preservação do planeta e, claro está, para a saúde da população. Obviamente que, quanto maior o consumo deste tipo de produtos, mais intensas vão ser as consequências. 

Com o objetivo primordial de alertar os nossos leitores para esta problemática optámos por evidenciar e explicar cada um dos impactos ambientais dos processos de produção levados a cabo pela indústria da moda. A nossa galeria de imagens oferece um resumo da situação.

Resíduos tóxicos lançados para rios

Focando-nos na contaminação da água podemos referir que, na maioria dos países que se dedicam a esta atividade, as fábricas de têxteis despejam águas residuais diretamente no rio sem que estas sejam previamente tratadas. 

Chumbo, arsénio e mercúrio são algumas das substâncias tóxicas que compõem as referidas águas residuais. Ou seja, é colocado em causa o bom funcionamento dos ecossistemas aquáticos e a própria saúde das muitas pessoas que vivem nas margens destes rios também fica sob ameaça.

Uma das matérias utilizadas no fabrico da nossa roupa é o algodão. Durante a produção desta fibra são usados fertilizantes que poluem as águas de escoamento e de evaporação. A contaminação que resulta das atividades da indústria da moda estende-se dos rios aos mares, acabando por afetar significativamente todo o planeta. Cabe-nos a nós consumidores adotar atitudes que venham contrariar este cenário preocupante. Para isso é crucial que seja dada preferência a fibras orgânicas e naturais, cuja produção não implique o uso de substâncias químicas. Podemos também ter o cuidado de comprar apenas a roupa que tem origem em países cuja indústria da moda é orientada por regulamentos ambientais, de entre os quais: Canadá, União Europeia e Estados Unidos da América.

Consumo excessivo de água

“Por cada tonelada de tecido tingido gasta-se uma média de 200 toneladas de água”, garante a publicação online Sustain Your Style evidenciando que, por detrás das peças que temos a cobrir o nosso corpo, está um excessivo consumo de água.

É igualmente preocupante que para se produzir um único quilo de algodão se gastem aproximadamente 20 mil litros de água. Até que ponto é que, numa altura em que tanto se fala em seca, faz sentido continuar a sob explorar-se desta forma este precioso recurso? 

Para ter uma pequena ideia, a produção de algodão já teve como dramática consequência ecológica a desertificação do Mar Aral. Stephen Leahy vai mais longe e, em declarações ao The Guardian defende que “85% das necessidades relacionadas à água de toda a população da Índia seriam cobertas com a água que o país usa para a produção de algodão”, sendo que “100 milhões de pessoas na Índia não têm acesso a água potável”, esclarece.

Uma forma de “enfraquecer” esta tendência é eleger fibras cuja produção não exija muita água, como linho e as fibras recicladas.

Microfibras na nossa cadeia alimentar

Fique a saber que sempre que lava a sua camisola feita de fibras sintéticas, como o poliéster e o nylon, livra-se não só da sujidade da mesma, mas também de aproximadamente 700 mil microfibras que seguem o seu caminho até aos oceanos.

Os cientistas já comprovaram que, ao serem “descartadas” para o oceano, as microfibras sintéticas acabam por ser ingeridas pelos diversos peixes que nele habitam e que nos servem muitas vezes de alimento nas nossas refeições. Ou seja, as microfibras passam das nossas roupas para o nosso prato e estômago sem estarmos conscientes disso.

Acreditamos que tenha fico assustando, por isso damos-lhe algumas dicas para que com o tempo não haja oportunidade para as microfibras sintéticas integrarem a sua cadeia alimentar. É muito simples: evite tanto quanto possível lavar a roupa, quando o tiver que fazer escolha sempre temperaturas baixas e opte por fibras naturais ou, na pior das hipóteses, fibras semissintéticas. 

O destino final das nossas roupas

Se as roupas deixam de estar em condições para serem usadas é normal que nos desfaçamos delas, mas qual será o destino final destes “farrapos”? Segundo dados avançados no site Sustain Your Style, “uma família na Europa desfaz-se de uma média de 30 kg de roupas por ano”, sendo que “apenas 15% são reciclados ou doados, o restante vai diretamente para o aterro ou é incinerado”.

É preciso ter consciência de que a maioria das roupas que encontramos nas lojas atualmente são feitas de poliéster, uma fibra sintética composta por plástico. É o mesmo que dizer que grande parte daquilo que nos é apresentado como vestuário não é biodegradável e demora até 200 anos para desaparecer completamente.

Privilegiar qualidade e não quantidade, reciclar e eleger fibras naturais ou semissintéticas são alguns dos passos que podemos dar no sentido de não contribuir para o agravamento deste problema da indústria da moda.

Substâncias químicas no vestuário

Na indústria da moda recorre-se a várias técnicas nas quais são usadas substâncias químicas, é o caso do tingimento, do branqueamento e da lavagem das peças de roupa. Também na produção de fibras são empregues agentes químicos.

A grande regularidade com que se aplicam estes químicos resulta no adoecimento dos agricultores que trabalham, por exemplo, no cultivo do algodão. Em muitos dos casos o desfecho chega mesma a ser morte prematura destes profissionais.

Contaminação massiva das águas do planeta e degradação do solo são dois dos exemplos do que o uso destas substâncias pode provocar no meio ambiente.

Por ser perigoso para a nossa saúde e para o próprio planeta há que colocar em práticas algumas medidas, por exemplo, lavar a roupa antes de a estrear. Devemos também optar por fibras orgânicas, marcas sustentáveis e peças de roupa com selo de garantia de controlo de substâncias químicas nomeadamente: OEKO-TEX, GOTS e BLUESIGN.

Elevados níveis de CO2

É do conhecimento geral que são elevados os níveis de dióxido de carbono registado nos últimos anos, o que talvez não sabe é que 10% do CO2 à escala mundial está associado à indústria da moda. 

Todos os anos se gasta muita energia para que sejam levadas a cabo todas as atividades de produção, fabrico e transporte dos milhões de peças de roupa.

As fibras sintéticas (poliéster, ácido acrílico, nylon, etc.), presentes na maioria das nossas roupas, são feitas de combustível fóssil, o que significa que o seu processo de produção requer mais energia do que o das fibras naturais.

Outros dos aspetos que temos que ter em conta é o país de fabrico do vestuário, isto porque na Índia, China e Bangladesh o combustível utilizado na produção têxtil é maioritariamente o carvão. Esse é, em termos de emissões de carbono, o combustível mais poluente.

A solução aqui passa por elegermos fibras naturais, comprar menos roupa, apostar em peças de qualidade superior e dar preferência a artigos originários de países que utilizem energias renováveis.

Degradação e desertificação do solo

Um número excessivo de caprinos e ovinos a pastar com o intuito de se produzir lã, a grande quantidade de químicos usados na produção de algodão e a desflorestação em prol da produção de fibras como Rayon são alguns dos exemplos de como a qualidade dos solos se encontra neste momento comprometida pelas atividades da indústria que nos veste. 

É de realçar que o solo é um elemento essencial do nosso ecossistema na medida em que, por exemplo, contribui em muito para a absorção de CO2. A sua degradação à escala global é um dos principais problemas do meio ambiente com que o nosso planeta se está a deparar neste momento. 

O facto de ser no solo que se produzem muito dos alimentos que integram a nossa cadeia alimentar faz com que a frágil situação deste seja uma ameaça para a segurança alimentar.

Desflorestação em massa

Todos os anos são cortados milhares de hectares de florestas que já existem há vários séculos para que se avance com a plantação de árvores destinadas à fabricação de algumas fibras como rayon, viscose ou o modal.

Na última década, por exemplo, a Indonésia sofreu uma severa desflorestação.

É importante referir que é nestas zonas que muitas comunidades indígenas vivem e por isso a sua vida acaba por ser ameaça em prol do fabrico de mais peças de roupa. O mesmo acontece com o ecossistema que é, em muito, influenciado pela existência ou não de bosques.

Por esta razão deve privilegiar sempre fibras como a Lyocell/Tencel e evitar ao máximo as fibras Rayon, Viscose e Modal.

Esperemos que este artigo o tenha ensinado e incentivado a fazer melhores escolhas, mas acima de tudo escolhas mais sustentáveis, da próxima vez que for comprar roupa.

Foto da abertura por freestocks no Unsplash

 

 

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