A Carris está a renovar a sua frota, visando a descarbonização. Para tal, está já a seguir uma estratégia que passa pela descontinuidade das motorizações a gasóleo. Tiago Farias, Presidente do Conselho de Administração da Carris, refere textualmente que na transportadora da capital, “o último ano do Diesel já foi”.

Esta é a primeira parte de uma entrevista exclusiva que o responsável da Carris deu ao Watts On e na qual explica de que modo será feito o “phase out” do Diesel na companhia.

 Watts On (W): O facto de a Carris ter estado “parada” até 2017 e de estar agora a confrontar-se com o desafio da sustentabilidade, implica que o esforço para alavancar a mudança esteja a ser muito maior?
Tiago Farias (TF): O esforço era incontornável porque para nos tornarmos mais sustentáveis e descarbonizados temos de fazer uma reflexão sobre que tecnologias é que queremos usar. Como tínhamos que revitalizar a empresa e aumentar a oferta conseguimos, no fundo, casar esses dois aspetos.

Perfil de Tiago Farias

Tiago Farias nasceu em 1966 e é desde 1 de janeiro de 2017 presidente do Conselho de Administração da Carris. O seu trajeto, académico e profissional, teve sempre uma forte ligação aos transportes e à mobilidade. No Instituto Superior Técnico, depois de se licenciar e doutorar em engenharia mecânica, passou a integrar o elenco de docentes, do qual ainda faz parte como Professor Associado com Agregação. De 2009 a 2012 foi vogal do Conselho de Administração da EMEL e de 2014 a 2015 assumiu o cargo de Diretor Municipal de Mobilidade e Transportes da Câmara de Lisboa. De 2016 a 2017 foi Presidente do Conselho de Administração das empresas Carris, Metropolitano de Lisboa, Transtejo e Soflusa, Ferconsult e Metrocom, CarrisBus e da gerência da CarrisTur.

W: E que tecnologias são essas, dado que vemos agora muitos autocarros a gás natural a circular…
TF: A Carris, em 2017, tinha cerca de 600 autocarros. Também tinha elétricos de carril que se dividem em duas categorias: os históricos, que são muito emblemáticos, e aqueles mais modernos, os articulados. Relativamente à frota de 600 autocarros, temos um plano estratégico que prevê que cheguemos ao fim deste ano, de 2020, com um valor médio de 700 autocarros. Portanto, temos aqui um crescimento da dimensão da frota. De forma complementar a isso, temos uma renovação completa da frota que estava a ficar muito envelhecida, com idades médias muito elevadas. Portanto, este grande investimento para o qual a cidade deu luz verde para a Carris renovar a sua frota passa por renovar para ampliar e por renovar para descarbonizar em termos de emissões. E o que é que fizemos? Temos um plano estratégico, mediante o qual estamos a fazer o “phase out” do Diesel, utilizando gás natural como um caminho de transição.

W: E o “phase out” do Diesel estará terminado quando? O último ano do Diesel na Carris quando será?
TF: Eu diria que, o último ano do Diesel já foi.

W: Ou seja, já não há mais autocarros a gasóleo a serem comprados pela Carris?
TF
: Vou clarificar: nós lançámos ainda no ano passado um concurso para comprar 33 autocarros de pequena dimensão a gasóleo porque no mercado não encontrámos alternativa tecnológica robusta e viável que aguentasse o serviço.

W: Esses são para as carreiras de bairros?
TF: Há um projeto muito ambicioso que está a ser implementado. Nós já introduzimos cerca de 15 carreiras de bairro que não existiam há dois anos. Ou seja, quando iniciámos [a reestruturação da empresa, n.d.r.] em 2017 não havia nenhuma carreira de bairro e, neste momento, em cima de tudo o que já havia, implementámos 15 destas carreiras de bairro. Fizemos também melhorias de serviço em 90 carreiras. Uma melhoria de serviço [é uma linha, n.d.r.] passar a funcionar ao fim-de-semana para zonas que não eram satisfeitas, é prolongar o percurso das carreiras, é efetuar um reforço dos horários ou é ampliar o serviço nos períodos noturnos. Isto [as melhorias, n.d.r.] foi quase semana-sim-semana-sim. Havia uma necessidade enorme de servir a cidade e também fizemos as carreiras de bairro. O que é que temos de ter a noção? Para algumas carreiras o autocarro deve ser articulado, para outras carreiras deve ser um standard [de 12 metros de comprimento, n.d.r] e médio e ainda há os autocarros pequenos para carreiras muito sinuosas.

“Havia uma necessidade enorme de servir a cidade e fizemos as carreiras de bairro”.

W: E esses 33 autocarros Diesel pequenos já chegaram?
TF: Esse foi o último concurso para autocarros a gasóleo. Ainda não chegaram. O concurso está a decorrer e vão começar a chegar até ao fim deste ano.

W: Mas terá sido a última aquisição de autocarros a gasóleo pela Carris?
TF: Nós não temos no nosso plano de aquisições para os próximos anos, 2020, 2021 e 2022, nenhuma projeção de vir a comprar Diesel e achamos que, até lá, a indústria terá oferta a propor, pois há que ter em atenção que a indústria dos autocarros reagiu em pleno aos veículos elétricos em janeiro 2019 e no final de 2019  cenário já mudou, com todos os grandes construtores europeus a lançarem os seus produtos elétricos. Nós estamos confiantes que, nos próximos três a quatro anos, o mercado vai começar a ter oferta de autocarros elétricos, como já têm os chineses, de modo a poder disponibilizar [aos operadores interessados, n.d.r.] a versão do autocarro de 12 metros, mas também a de 8 e de 7 metros.

Para ler a segunda parte da entrevista, “clique” na imagem.
Para aceder à terceira parte da entrevista “clicar” na imagem.

 

 

 

 

 

 

W: Nesta fase de transição, a Carris está a apostar nos autocarros de gás natural…
TF: Para o Diesel, como disse, não temos mais nenhuma projeção de compra e achamos que, quando tivermos necessidade de adquirir para cada um dos segmentos, o mercado já responderá [ao nível dos elétricos, n.d.r]. Entretanto, temos um “phase out” [do Diesel, n.d.r.] em que nos próximos anos ainda vamos comprar um “mix” entre gás natural e elétrico, até porque nós precisamos de autonomias que, muitas vezes, os veículos elétricos atualmente garantem, mas é no limite. A nossa maior preocupação é garantir a autonomia de um autocarro elétrico para a cidade de Lisboa que é francamente de trajetos de sobe e desce, com ar-condicionado ligado, muita abertura de portas e muito desgaste energético; nesse sentido até é uma cidade interessante como ‘case study’. Portanto, nós estamos a fazer um caminho que está plenamente traçado: queremos chegar a 2035 a uma frota já sem qualquer veículo Diesel. Atenção: muito antes praticamente já não haverá, mas [a projeção de 2035, n.d.r.] é para o último [a ser retirado, n.d.r.].

“Não temos nenhuma projeção de comprar Diesel nos próximos anos”

W: Portanto, estes 33 autocarros a gasóleo que irão chegar, que são os mais recentes, hão-de expirar o seu prazo de vida em 2035?
TF
: Os autocarros duram tipicamente 14, 15 anos, pode até ser mais cedo. Nós queremos, também nessa altura ou um pouco mais à frente, conseguir cumprir com uma emissão zero global em 2040.

W: E nessa altura, em 2040, o mix energético seria 100% elétrico?
TF: Sim!

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