Luis Carvalho
Luis Carvalho
Jurista. Utilizador diário de bicicleta na cidade de Lisboa desde 2012

As pessoas foram viciadas no carro e tudo é pensado em torno dele. O seu uso, em especial em meio urbano, continua a ser directa e indirectamente subsidiado e altamente incentivado. E basta lembrar que há apenas uns meses o denominado "passe social" significava pagar uma fortuna para andar em transportes públicos.

A minha mulher, o carro dela e as suas circunstâncias

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Nos últimos dias, porventura uma consequência das obras na Praça de Espanha, a minha mulher decidiu começar a lamentar-se da infraestrutura ciclável que a Câmara Municipal de Lisboa concluiu na zona da Avenida da República e ruas anexas. Não é difícil eu explicar-lhe que o problema não resulta dessas ciclovias, ou da supressão de vias rodoviárias, mesmo que para tão poucas bicicletas, mas do excesso de carros. Mais difícil é ela compreender esse meu argumento.

A minha mulher é o caso típico do utilizador de carro. Com facilidades de estacionamento, quer junto a casa quer no emprego, com folga financeira para gastar com o seu uso diário, continua a achar que é uma melhor opção em relação a outras em matéria de mobilidade urbana.

De facto, andar de transportes públicos é uma chatice. Não porque não seja uma opção, que é, mas porque é mais incómoda e menos conveniente. Se ela pode ir de garagem a garagem em cerca de 40 minutos, confortavelmente sentada, a ouvir música e com o A/C para controlar o frio ou o calor, não se sente particularmente motivada a ir para uma paragem, partilhar o autocarro com dezenas de pessoas, depois transitar para o Metro que partilha com centenas de pessoas, para depois ainda ter de palmilhar uns 300 metros a pé até ao local de trabalho. E se isso num dia agradável ainda se faz, com chuva, frio ou calor torna-se numa pepinada.

E outras formas de mobilidade, como a bicicleta por exemplo? Nem pensar! Ela acha, e bem, que andar de bicicleta em Lisboa é um perigo e só para loucos.

Olhando para este caso percebemos melhor a realidade que nos rodeia. As pessoas foram viciadas no carro e tudo é pensado em torno dele. O seu uso, em especial em meio urbano, continua a ser directa e indirectamente subsidiado e altamente incentivado. E basta lembrar que há apenas uns meses o denominado “passe social” significava pagar uma fortuna para andar em transportes públicos. De “social” certos passes, que custavam verdadeiras fortunas, nada tinham.

A importância do PART

O Programa de Apoio à Redução do Tarifário dos Transportes Públicos (PART) veio mitigar este problema e é um forte incentivo a deixar o carro em casa para com isso poupar muito dinheiro que a família pode aplicar melhor noutros gastos. Mas para aqueles que se inserem numa classe média ou média-alta o PART dificilmente terá impacto em decisões de mobilidade.

As alternativas ao transporte individual motorizado existem, não existe é vontade de as usar porque o uso do carro continua a ser a forma mais ‘natural’ de mobilidade que existe nas nossas cidades. E contrariar o domínio do carro é um pesadelo político, em especial para os autarcas. A doentia dependência do carro por parte de milhões e milhões de cidadãos não admite mudanças, por mais ínfimas e simbólicas, e os calendários eleitorais são mesmo o maior inimigo das mudanças de paradigma nas nossas mobilidades.

 

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