Já foram publicados vários estudos desenvolvidos com o intuito de alertar para comprovadas consequências da poluição e de outros problemas ambientais na saúde da população. No entanto há um estudo em particular que merece a nossa especial atenção. 

O King’s College, em Londres, foi pioneiro na tentativa de perceber qual a relação entre o facto de se viver perto de zonas com muito trânsito e acentuada poluição atmosférica com o surgimento de complicações em diversos campos da nossa saúde. Os responsáveis por esta pesquisa tentaram perceber, por exemplo, de que forma é que a inalação de ar poluído pode desencadear patologias como a bronquite, os acidentes vasculares encefálicos e as doenças cardíacas.

Importa também esclarecer que a amostra de população que serviu de base a este estudo é proveniente de 13 cidades do Reino Unido e da Polónia. 

Quais foram as conclusões?

Segundo os autores deste estudo a sua análise permitiu concluir que o risco de uma pessoa vir a ser diagnosticada com cancro nos pulmões torna-se ainda mais acentuado se viver a 50 metros ou menos de uma estrada movimentada. 

Neste âmbito, também se chegou á conclusão de que o normal desenvolvimento dos pulmões das crianças é condicionado pela frequente exposição a ambientes severamente poluídos. Falando em valores concretos, o crescimento deste órgão nas crianças que vivem nestas zonas é cerca de 3 a 14% menor. 

Especificando mais ainda os valores, foi avançado pelos autores deste estudo que os níveis de poluição atmosférica nas zonas onde a circulação de veículos motorizados é mais recorrente afetam o correto desenvolvimento pulmonar das crianças em 14% na cidade de Oxford, 13% em Londres, 8% em Birmingham, 5% em Briston e Liverpool, 4% em Southampton e 3% em Nottingham. 

De realçar que as estimativas apontam para que cerca de 3 milhões de londrinos morem perto de uma estrada movimentada.

Níveis de poluição devem ser alvo de redução

São várias as empresas que vêm apelando a que os níveis legais de poluição por partícula sejam reduzidos aos limites sugeridos pela Organização Mundial da Saúde (OMS) até 2030. Neste apelo estão envolvidas 15 ONG’s ligadas á área da saúde e do ambiente, nomeadamente: ClientEarth e British Lung Foundation. 

É pertinente ainda contextualizar que os limites da OMS relativamente às partículas pequenas conhecidas como PM 2.5 sugerem que os níveis não devem exceder um valor anual de 10 microgramas por metro cúbico. 

O mais preocupante é que os limites legais do PM 2.5 em Inglaterra apresentam valores que chegam a ultrapassar o dobro dos recomendados pela OMS. Para agravar ainda mais a situação, nenhum partido político se comprometeu, até agora, a regularizar os limites para que estes se venham a encaixar nas diretrizes da OMS até 2030. 

O depoimento de uma família londrina

“Eu e a minha família moramos à beira da A10, uma das maiores estradas em Inglaterra. Além disso a escola dos meus filhos também está localizada numa zona onde o trânsito é elevado”, começa por explicar Lucy Harbor, fundadora da Clean Air 4 Schools. 

A londrina confessa-se preocupada com as conclusões partilhadas pelos autores do estudo uma vez que estas vêm de encontro a alguns dos seus receios, “pelo que concluíram através desta pesquisa, a nossa saúde pode realmente estar a ser altamente afetada pelo sítio onde vivemos e pelo percurso que fazemos até à escola dos nossos filhos”, refere Lucy. 

Foram vários os episódios na vida desta família que acabam agora por dar ainda mais força ás afirmações tecidas pelos profissionais do King’s College – “um dos nossos filhos foi hospitalizado com pneumonia e também lhe foi diagnosticado asma”, recordou esta mãe do Norte de Londres. 

Os resultados desta pesquisa alarmaram Lucy Harbor ao ponto de esta colocar em causa a eficácia das medidas até agora implementadas – “o facto de afirmarem que o crescimento pulmonar dos meus filhos pode estar a ser condicionado em 12.5% faz-me colocar seriamente em causa se está efetivamente a ser feito tudo o que é possível para se reduzir os níveis de poluição nas principais estradas de Londres, o mais rápido possível”, confessa. 

O que os autores do estudo preveem

Com base nas suas observações e análises, os autores deste estudo preveem que se houver uma efetiva redução dos níveis de poluição consegue-se também baixar o número de casos de cancro do pulmão. 

Falando de valores concretos, o diagnóstico desta doença oncológica diminuiria 5.6% em Londres, 6.4% em Birmingham, 5,9% em Bristol, 5.3% em Liverpool, 5.6% em Manchester, 6.7% em Nottingham, 6% em Oxford e 5.9% em Southampton. 

Os pesquisadores do King’s College acreditam também que a proximidade a zonas movimentadas pode estar diretamente associada a sintomas de bronquite nas crianças asmáticas. Por essa razão foram analisados sintomas que afetam um grande número de pessoas, dando segurança aos pesquisadores para estes defenderem que é possível registar menos 3865 casos clínicos deste género em Londres. Para isso é necessário que também os níveis de poluição nesta cidade britânica baixe pelo menos 1/5 face aos valores atuais. O mesmo deve acontecer em outras cidades “vizinhas”. 

O que os profissionais da saúde têm a dizer

Heather Walton, professora sénior de saúde ambiental do colégio londrido “Kings” afirmou que através deste estudo desenvolveu-se “pela primeira vez uma análise critica que relaciona as consequências no estado de saúde da população com um vasto conjunto de fatores, cidades e cenários”. 

Os anteriores estudos tinham em conta apenas “mortes, expectativa de vida e amplos tipos de internamentos hospitalares”, já o estudo da entidade onde trabalha “tem em conta sintomas que afetam uma maior ‘fatia’ da população como infeções no peito associadas à bronquite aguda em crianças” focando-se também em “possíveis consequências em grupos específicos de pessoas como os asmáticos”, considera Heather Walton. 

“O ar tóxico é um indiscutível ‘fardo’ que pesa demais na vida da população em geral”, começa por referir Andrea Lee responsável pelas políticas e campanhas de limpeza do ar com assinatura da ClientEarth. Conhecida por ter levado o estado a tribunal devido aos ilegais níveis de poluição por dióxido de nitrogênio do tráfego, esta considera também que “ainda há soluções que se podem adotar”.

Todo este lado positivo que é realçado por Andrea Lee deve-se ao facto da primeira zona de ar limpo em Londres já estar a ter impacto. No entanto, “ainda há muita coisa que é preciso ser feita no sentido de ajudar as pessoas a optarem por meios de transporte mais sustentáveis”, frisa.

Foto de Alvaro Reyes

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