A Secretária de Estado do Ambiente, Inês dos Santos Costa, aproveitou a sua intervenção na Conferência anual da APREN (Associação Portuguesa de Energias Renováveis), “Portugal Renewable Summit”, para fazer uma pergunta desconcertante aos presentes que era, no fundo, extensível a todos os portugueses: “Se de hoje para amanhã a nossa produção de energia fosse 100% renovável, do ponto de vista ambiental significa que eu posso ter a luz da minha casa sempre acesa?O carro sempre ligado? A fábrica sempre a produzir?”.

Com esta questão, este membro do governo quis sensibilizar os presentes para o facto de que, apesar da eletricidade renovável ser um pilar chave para a descarbonização, toda a cadeia de valor do setor deverá ser assente numa base de economia circular, com um princípio de reutilização de materiais e matérias-primas.

O objetivo é minimizar ao máximo os impactos ambientais associados à exploração de recursos naturais, à indústria de produção de equipamentos, à geração, ao transporte e à distribuição de eletricidade.

Energia limpa, mas captura não

“Existe entre muitos a ideia de que basta trocar combustíveis fósseis por energias renováveis para que todos os nossos problemas se resolvam; energia limpa, acessível e abundante para as nossas necessidades. Acontece que as energias renováveis são, por natureza, difusas – e, por isso, terão sempre de ser capturadas através de estruturas materiais. E embora a energia seja limpa, essas estruturas materiais podem não o ser”, sublinha a secretária de Estado.

 

A enorme quantidade de materiais necessários

Inês dos Santos Costa lembra que “produzir, de modo renovável, a energia necessária para a economia global até 2050 irá exigir, baseada em estimativas do Banco Mundial, 34 milhões de toneladas de cobre, 40 milhões de toneladas de chumbo, 50 milhões de toneladas de zinco, 162 milhões de toneladas de alumínio, e nada mais nada menos que 5 mil milhões de toneladas de ferro. Isto, para não falar de outros metais críticos e preciosos. Muito falamos de lítio, mas também há o neodímio, o índio, ou a prata”.

A governante deu o exemplo do México, nação onde existe uma das maiores minas de prata em todo o planeta: são 100 km2 que irão produzir 11 mil toneladas de prata em 10 anos, antes que as suas reservas se esgotem. “A transição global para as renováveis implicaria ter mais 130 minas desta escala: só para a prata. Mas poderemos também falar de minerais como a sílica – areia – componente essencial de componentes eletrónicos, também eles presentes nas tecnologias de produção de energia renovável, e que é o segundo recurso mais utilizado no planeta. Também ele enfrenta um problema de escassez, por mais surpreendente que isso possa parecer”, declarou Inês Costa, referindo, entretanto, que a “Europa apenas garante internamente 9% dos materiais críticos de que necessita para alimentar a sua economia”.

 

Perante os compromissos, “legítimos e necessários, que os países da União Europeia assumiram de atingir a neutralidade carbónica (Portugal, incluído), houve quem já tenha feito contas relativamente aos modelos de desenvolvimento económico esperado: para alguns metais críticos, não existem reservas, extração e produção suficientes para garantir a transição necessária no tempo que se exige. Perante esta evidência, um perito holandês terá dito: ‘Precisamos de pensar estrategicamente sobre estes materiais – não os devemos usar em Playstations, porque precisamos de painéis solares!’ Eu sei, são notícias difíceis de ouvir em época de compras de natal, não é verdade?”, declarou a secretária de Estado.

A governante, cuja formação foi engenharia do ambiente, enfatizou o facto da ciência indicar que a taxa de uso de materiais já exceder em muito o nível considerado como sustentável.

Os impactos da transição energética

“É verdade que precisamos de uma transição energética o mais rapidamente possível, mas é fundamental ter presente quais os impactes sistémicos do modo como fazemos essa transição”, adverte Inês Costa.

Na conferência da APREN dedicada ao tema “Da Transição ao Compromisso Energético”, a secretária de Estado defende que “uma transição de fóssil para renovável não pode ser feita transferindo impactes para outros sistemas ambientais – o solo, a água, o ar, a biodiversidade”.

Nessa medida é “importante pensar de modo integrado também ao longo de todo o sistema de valor das energias renováveis: por exemplo, minimizando a pegada hídrica na extração dos minerais, ou saber extrair materiais do banco que já existe, e que usamos e desperdiçamos todos os dias – veja-se os equipamentos elétricos e eletrónicos, ou as baterias”, sublinha.

Para Inês Costa, “a única energia verdadeiramente limpa é a que não consumimos. E não se trata apenas um desafio tecnológico, de eficiência ou de inovação. Portugal é hoje mais eficiente do ponto de vista energético: o consumo de energia por unidade de riqueza gerado tem vindo a decrescer. O mesmo podemos afirmar no que diz respeito à intensidade carbónica”, resultado de processos mais eficientes, menos poluentes, de uma mudança de produtos intensivos em materiais para serviços desmaterializados.

a única energia verdadeiramente limpa é a que não consumimos

Apesar deste movimento, a governante lembra que isso não significa que haja menos consumo: “em Portugal, o consumo interno bruto de energia e de materiais cresceu desde 2014, acompanhando, naturalmente, a retoma da economia. E isto é, também, o que se verifica a nível global”, diz Inês Costa.

“Crescem as emissões e cresce a extração e processamento de materiais. E para um gás de efeito de estufa, e para os recursos em termos gerais, o que acontece a nível global também conta. É quase como se os impactes da procura incessável pelo crescimento ultrapassassem sempre os ganhos tecnológicos ou políticos, como Sísifo: de cada vez que se chega ao cume, precisamente pelo avanço tecnológico ou político, logo se tem de começar de novo porque outro problema surge”, afirmou a titular da pasta do ambiente no Executivo.

Mais inteligentes com o uso dos nossos recursos

Perante a plateia da conferência da APREN, a secretária de Estado transmitiu a mensagem de que “precisamos de ser mais inteligentes com o uso dos nossos recursos – sejam os mesmos renováveis ou não. Para isso, não basta ser eficiente: temos também de ser eficazes e suficientes, pensando de forma sistémica”.

Inês dos Santos Costa, secretária de Estado do Ambiente

Inês Costa exemplificou: na União Europeia cerca de 100 a 150 milhões de toneladas de biorresíduos são desperdiçados anualmente. “A maioria é colocada em aterro ou em incineradoras, com óbvio impacto ambiental. É um desperdício de nutrientes, de energia e de matérias primas. Por isso a Comissão Europeia impulsionou a sua recolha seletiva, e está a orientar o próximo quadro de investimento para privilegiar formas mais eficazes de aproveitamento energético, renovável, através de digestão anaeróbia e do uso do biometano produzido, bem como a extração de materiais como bioplásticos, proteínas, lípidos ou biopesticidas. Verdadeiras biorrefinarias que produzem múltiplos materiais, além da energia e de composto orgânico”, afirma.

Integrar princípios de economia circular

No caso de Portugal, Inês Costa diz que o país deverá “saber agarrar as oportunidades quando elas se nos apresentam de modo tão evidente. É por isso que é tão central integrar uma visão sistémica e princípios de uma economia circular nas nossas estratégias, sejam elas políticas, tecnológicas ou de gestão. Precisamos de desenhar para zero poluição. Precisamos de manter os recursos em uso. E precisamos de regenerar o nosso capital natural”.

Inês Costa lembra que a Economia Circular é peça central do Green Deal Europeu da nova Presidente da Comissão Europeia e que o IPCC apelou para que os países mais desenvolvidos (e Portugal faz parte desse grupo) procurem reduzir o consumo de novos materiais, dado que a grande maioria da energia é utilizada para alimentar a extração e a produção.

Produtos que durem e que sejam reparáveis

E isso – aponta o membro do governo – “consegue-se através da luta contra a obsolescência programada, desenhando produtos que durem e que sejam reparáveis, passando do transporte privado para o transporte público, mas também desincentivando gradualmente indústrias socialmente desnecessárias, que servem nichos de consumo particularmente ineficientes em termos materiais e energéticos”.

Na parte final do seu discurso, Inês Costa destacou o facto de não podermos “continuar a achar que iremos resolver os problemas do presente com modelos de governança, de negócio, de produção, de consumo e de cidadania do século passado. Pois, se assim for, estaremos condenados a repetir exatamente os mesmos erros. Pior, estaremos a empurrar o rochedo, sabendo agora – de forma consciente – que ele irá rolar encosta abaixo”.

Em remate, a secretária de Estado do Ambiente insistiu na urgência de ser necessário “entender, de uma vez por todas, que não é uma escolha entre proteger o ambiente ou proteger a economia. O que enfrentamos é uma escolha entre proteger a economia protegendo o ambiente, ou permitir que o desastre ambiental crie um desastre económico. O desafio que se coloca perante nós é bem mais do que um desafio energético, tecnológico ou económico: é um desafio sistémico. É um desafio humano”.

“O desafio que se coloca é bem mais do que um desafio energético. É um desafio humano”, diz a secretária de Estado do Ambiente

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