Michael Russo
Michael Russo
Investigador do Centro de Estudos do Ambiente e do Mar (CESAM) e do Departamento de Ambiente e Ordenamento (DAO) da Universidade de Aveiro (UA)

Fusão nuclear: o futuro da produção de eletricidade?  

0
248

O consumo de energia global tem vindo a aumentar cerca de 2% ao ano. Este aumento foi coberto, em grande parte, por produção de energia a partir de combustíveis fósseis, uma atividade que tem como consequência a libertação de CO2 para a atmosfera. 

Segundo a comunidade científica, 350 partes por milhão é o limite superior da concentração de CO2 na atmosfera para que o planeta seja habitável por seres humanos sem grandes consequências. No início do ano de 2019, a concentração de CO2 registada foi a mais alta da história da humanidade, 415 partes por milhão.

Os desafios do nuclear

Uma possível solução para produção de energia “limpa”, sem emissões de poluentes nocivos para a atmosfera, é a energia nuclear. Neste momento, cerca de 10% do fornecimento de eletricidade mundial é proveniente de energia nuclear, mas a atualmente utilizada é a fissão nuclear.

Até à data, os grandes desafios desta fonte de energia tem sido a segurança da sua operação e lidar com os subprodutos radioativos.

Além dos desafios tecnológicos e ambientais, também existe as preocupações de caráter social, a reduzida aceitação da sociedade por este tipo de energia, reforçada por desastres nucleares como os casos de Chernobyl (Ucrânia) em abril de 1986 e mais recentemente Fukushima (Japão) em março de 2011.

Vantagens da Fusão Nuclear

Ao contrário da fissão, a fusão não gera material radioativo nem emite poluentes atmosféricos nocivos, sendo o principal subproduto da fusão o hélio, um gás inerte.

Além disso, um reator de fusão é inerentemente seguro, uma vez que o processo não é uma reação em cadeia, qualquer alteração ao funcionamento do reator causa o arrefecimento do plasma ou incapacidade de o conter, fazendo com que ele pare de funcionar dentro de poucos segundos sem consequências para o exterior. 

Como funciona

A fusão é a fonte de energia do Sol e de todas as estrelas. No núcleo de cada estrela, a elevadas temperaturas e intensa pressão devido à força da gravidade, núcleos de hidrogénio colidem e fundem-se para formar átomos de hélio, libertando uma enorme quantidade de energia.

Para conseguir atingir a fusão num ambiente controlado é necessário trabalhar a temperaturas extremamente altas (na ordem dos 100 a 150 milhões ºC, quase 10 vezes a temperatura no centro do Sol) e ainda ter uma densidade de plasma elevada durante algum tempo.

O Projeto ITER

No dia 23 de julho de 2019, realizou-se mais uma cerimónia de entrega de componentes nas instalações do projeto International Thermonuclear Experimental Reactor (ITER) no sul de França.

O ITER visa atingir os primeiros passos para produção de energia através de fusão nuclear, com uma capacidade de 500 MW (o que poderá alimentar quase 1 milhão de casas por ano), utilizando apenas 50 MW térmicos para iniciar o processo (um retorno de energia 10 vezes maior). Este projeto também tem como objetivo testar a viabilidade de reatores de fusão de larga escala e comprovar a sua segurança, tanto para a humanidade como para o meio ambiente.

No futuro, a fusão nuclear pode ser a resposta para fornecimento de energia segura com impactos desprezáveis para o meio ambiente, no entanto, o principal desafio poderá não ser o tecnológico, mas sim o social.

A aceitação do público da energia nuclear, mesmo sendo a fusão, vai ser um tópico sensível, e a grande aposta para que seja aceite será a divulgação e formação do público sobre o que é a fusão nuclear e de como difere da clássica fissão.

O projeto ITER é um esforço conjunto entre 35 nações, contando com a cooperação da União Europeia, China, Índia, Japão, Coreia, Rússia e Estados Unidos. Dezembro de 2025 é a data prevista para o “First Plasma”, a primeira ignição do reator.

Deixe um comentário

avatar
  Subscribe  
Notify of