A notícia de fusão 50%/50% entre a Peugeot Citroën (PSA) e a Fiat Chrysler Automobiles (FCA) abre campo a novas realidades no domínio da eletrificação da mobilidade.

Tanto Grupo PSA, como FCA partilham a convicção de que há uma lógica evidente por trás desta iniciativa “tão audaz e decisiva”, nas palavras dos próprios, que levaria à criação de um líder industrial, com a escala, as capacidades e os recursos necessários para aproveitar, com sucesso, as oportunidades e gerir eficazmente os desafios da nova era da mobilidade.

Na prática em que é que isto se pode traduzir?

Apesar das cautelas de Tavares (ver caixa aqui em baixo), o Grupo PSA está muito mais avançado em termos de mobilidade elétrica do que a FCA, dado que o grupo italo-americano, excetuando o Fiat 500e, não tem nenhum puro elétrico no seu portefólio.

As reservas (passadas?) de Carlos Tavares

Há alguns aspetos que merecem acompanhamento, dado que Carlos Tavares, o português que dirige os destinos da PSA, chegou no passado a mostrar reservas pelo modo como a indústria automóvel está a ser empurrada para os EV, tendo dado público conhecimento de que não está disposto a pagar pela instalação de infraestruturas de carregamento. Em declarações à imprensa, Tavares salientou que se os políticos europeus estão a pressionar os fabricantes de automóveis para promover a mobilidade de emissões zero, deverão ser eles a custear isso. E em 2017, no contexto do salão de Frankfurt, Carlos Tavares assumiu que a corrida aos elétricos colocava em risco a indústria automóvel. Admite-se que a opinião de Carlos Tavares possa, entretanto, ter evoluído, mas são registos para memória futura que não devem ser ignorados.

Nesse sentido, uma das possibilidades é que a plataforma da PSA eCMP, desenvolvida com a chinesa Dongfeng, pode ser posta ao serviço da FCA. Ou seja, para além dos já apresentados Opel Corsa-e, Peugeot e-208, Peugeot e-2008, DS3 Crossback e-Tense e DS 7 Crossback e-Tense, todos construídos a partir da eCMP, poderíamos ter modelos Fiat ou Alfa Romeo elétricos ou eletrificados.

A proposta de combinação das atividades do Grupo PSA e da FCA surge após intensas discussões entre os líderes dos dois grupos.

A FCA tinha muitos planos – que inclusive abrangiam a Maserati com o Alfieri – para o lançamento de EV, os quais, no entanto, ainda não se tinham concretizado.

Quarto maior construtor mundial

Esta anunciada fusão PSA/FCA permitiria criar o quarto maior construtor mundial em termos de vendas anuais (8,7 milhões de veículos), com um volume de negócios consolidado de aproximadamente 170.000 milhões de euros, um resultado operacional corrente superior a 11.000 milhões de euros, considerando os resultados agregados de 2018, excluindo-se a Magneti Marelli e a Faurecia. A criação de valor gerada por esta transação é estimada em cerca de 3.700 milhões de euros de sinergias anuais. Estas resultariam, principalmente, de uma alocação mais eficiente de investimentos de longa escala em plataformas de veículos, cadeias de tração e tecnologias, e uma maior capacidade de compra, inerente à nova dimensão do grupo. Essas estimativas de sinergias não são baseadas no encerramento de qualquer fábrica. Prevê-se que 80% das sinergias sejam alcançadas até ao final do quarto ano. A estimativa de custo para alcançar as sinergias é de 2.800 milhões de euros.

Esta aliança com a mais dinâmica PSA pode, assim, ser o empurrão para a FCA entrar na era elétrica, permitindo que as siglas do grupo, que incluem ainda a Jeep e a Dodge, possam ter EV para os seus clientes.

Entre os projetos que a FCA vinha a desenvolver e que podem avançar agora de um modo mais assertivo, até em mais mercados, contam-se um Wrangler PHEV, um Jeep Commander PHEV (este para a China) e um PHEV para a Alfa Romeo, o Tonale (cujo concept foi visto no salão de Genebra deste ano). Outros modelos previstos e que estavam numa fase mais adiantada para serem introduzidas são o Compass PHEV e o Renegade PHEV.

Mais: com a plataforma eCMP, a própria versão 100% elétrica do 500, que nasceu apenas para o mercado americano e resultou em prejuízo para a FCA, pode, com este enquadramento, ganhar viabilidade comercial e até ser fabricada em Mirafiori, Itália. Tudo graças à maior escala de produção que o grupo passa a ter, inclusive, na negociação com fornecedores. Do mesmo modo, um Panda EV não é de descartar.

Em termos de veículos comerciais, a FCA também poderia beneficiar do maior desenvolvimento em que se encontra a PSA, a qual anunciou que a partir de 2020 terá versões 100% elétricas de Peugeot Expert, Citroën Jumpy e Opel Vivaro.

Para o Grupo PSA, os benefícios desta aliança traduzem-se em maiores economias de escala (que lhe darão outro poder negocial junto de fornecedores e lhe permitirão reduzir custos de produção, designadamente nas motorizações elétricas), bem como acesso ao knowhow em matéria de SUV e “jipes” (e as suas tecnologias AWD) e ao mercado norte-americano.

Tecnologia de condução autónoma

A entidade resultante desta fusão reuniria ainda as competências dos dois grupos nas tecnologias que suportam, além da mobilidade sustentável e cadeias de tração eletrificadas, automóveis autónomos e tecnologias digitais e conectadas.

“Num ambiente em rápida mutação, em que se enfrentam novos desafios em matéria de mobilidade conectada, eletrificada, partilhada e autónoma, a nova entidade conjunta poderia tirar partido da sua forte pegada mundial de Pesquisa e Desenvolvimento e do seu ecossistema, para acelerar a inovação e enfrentar esses desafios com agilidade e eficiência económica”, afirma o Grupo em comunicado.

Empresa-mãe holandesa

Os acionistas de cada empresa irão deter, respetivamente, 50% do capital da nova entidade. A concretizar-se, a transação ocorrerá mediante uma fusão dos dois grupos, através de uma empresa-mãe holandesa. A governação da nova entidade será equilibrada entre os acionistas e a maioria dos administradores seria independente. O Conselho de Administração será composto por 11 membros. Cinco membros do Conselho seriam nomeados pela FCA (incluindo John Elkann como Presidente) e cinco membros pelo Groupe PSA (incluindo o Administrador de Referência e o Vice-Presidente). Carlos Tavares teria um mandato inicial de 5 anos como CEO, sendo, também, membro do Conselho de Administração. A empresa-mãe holandesa da nova entidade será cotada no Euronext (Paris), Borsa Italiana (Milão) e no New York Stock Exchange, continuando a manter uma presença importante nas sedes operacionais dos dois grupos, em França, Itália e nos EUA.

O analista sénior da consultora americana Morningstar, Richard Hilgert, considera que a união das duas companhias vai dar maior musculatura ao grupo em mercados gigantescos, como a China. Segundo Hilgert, apenas com ganhos de sinergia desta ordem de grandeza, as duas empresas seriam capazes de disputar o maior mercado automóvel e de consumo do mundo, responsável por comprar 50% de todos os veículos elétricos produzidos atualmente no globo.

Apesar do anúncio da fusão, o processo não está finalizado. Os dois Conselhos de Administração, da Fiat e da PSA, deram às respetivas equipas um mandato de finalização das negociações para se alcançar um Memorando de Entendimento nas próximas semanas.

A proposta seguirá depois o habitual processo de informação e consulta às entidades representativas dos trabalhadores, estando sujeita às habituais condições de implementação, incluindo a aprovação final pelos Conselhos de Administração do inerente Memorando de Entendimento e de um acordo sobre a documentação definitiva.

“Um futuro promissor”

“Esta convergência traz uma criação de valor significativa para todas as partes envolvidas e abre um futuro promissor para a empresa resultante da fusão. Estou muito satisfeito com o trabalho já realizado com o Mike e terei um enorme orgulho em trabalhar com ele para construir uma empresa de referência” – Carlos Tavares (PSA)

“Fusão com potencial para mudar a nossa indústria”

“Sinto-me orgulhoso por ter a oportunidade de trabalhar com o Carlos e a sua equipa nesta fusão que tem o potencial para mudar a nossa indústria. Temos uma longa história de cooperação frutuosa com o Grupo PSA e estou convicto de que, em conjunto com as nossas excelentes equipas, podemos criar um protagonista na mobilidade de classe mundial” – Mike Manley (FCA)

 

 

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