A Renault apresentou aos jornalistas portugueses o novo Zoe na Sardenha. Trata-se da terceira geração do mais popular veiculo elétrico em Portugal. Apesar de manter uma imagem muito próxima da anterior geração, a Renault anuncia que o Zoe é um automóvel quase 100% novo. 

Com que então, Sardenha?

É verdade. A ilha italiana famosa por ser destino de férias dos aristocratas e milionários do sul da Europa foi o palco escolhido para a apresentação de um dos mais importantes VE do mercado. Não me pareceu particularmente bem equipada para a revolução elétrica. Houve quem avistasse um carregador público, numa estação de serviço, mas eu devia ir demasiado concentrado na estrada e não a vi. A ilha é bonita, polvilhada de praias por todo o lado e a cor do mar estava tentadora, num belo verde turquesa. Mas não houve tempo para um mergulho. Foi pena.

E o novo Renault Zoe?

Para o Zoe houve todo o tempo possível, felizmente. É um automóvel bastante diferente da geração anterior. As aparências iludem e, por fora, pouco parece ter mudado, já que a carroçaria mantém-se inalterada. As afinações estéticas mais notórias prendem-se com os farolins traseiros e os faróis dianteiros de LED com a forma da letra C. Existem ainda umas entradas de ar inferiores e o logotipo bastante realçado.

No conjunto, o Zoe 2 está um pouco mais agressivo e tem cores novas, mas continua elegante, de uma forma relativamente discreta. É o que não se vê que faz toda a diferença.

Como por exemplo?

São tantos os destaques que vamos ter que os organizar. Há quatro vetores fundamentais: dinâmica, bateria e carregamento, vida a bordo e sustentabilidade. Posso explicar assim?

Vamos a isso. Quão dinâmico está o novo Zoe?

Há dois níveis de “dinamismo” para esta geração. O motor R110 (80 kW ou 110 cv) passa a ser o de entrada de gama, disponibilizando a Renault uma nova unidade com 100 kW (135 cv), designada R135. 

O primeiro é uma unidade relativamente recente, introduzida há um ano no Zoe 40. No novo Renault Zoe 50, permite acelerar dos 0-50 km/h em 3,9 s. e dos 0-100 km/h em 11,4 s. A velocidade máxima está limitada aos 135 km/h.

Na Sardenha, pudemos ensaiar apenas a versão R135. Face ao R110, acelera mais rápido (3,6 s e 9,5 s, respetivamente), reduzindo ainda em 2,2 segundos a recuperação entre os 80 e os 120 km/h: 7,7 s. Em vez de 9,9 s. A velocidade máxima de 140 km/h mostra que esta versão estará mais à vontade nas auto-estrada.

E muda alguma coisa na condução?

Há um novo comando para a transmissão, o e-Shifter. Naturalmente, continua a ter apenas uma velocidade, com um seletor que associamos às caixas automáticas. A diferença é que existe um modo B, que acionamos movendo ligeiramente o pequeno comando para baixo. Comuta com o modo de condução normal D. Serve para potenciar a recuperação de energia na travagem e reduz também a utilização do pedal do travão. Não o elimina completamente, porque não chega a imobilizar o Zoe, colocando-o num modo “tartaruga”. Esta geração dispensa também, finalmente, o travão de estacionamento convencional, substituído por um elétrico. E há discos nas quatro rodas.

E o alcance? Quantos quilómetros faz o novo Zoe?

Passamos então ao tema da bateria e carregamento. Em ciclo WLTP, o R110 com jante de 15’’ consegue 395 km, um aumento de 25%. O R135 com jante de 16’’ promete 386 km.

O segredo para este aumento de alcance relativamente ao Zoe 40 deve-se, sobretudo, à nova bateria. Por fora, é idêntica, mas por dentro, é totalmente nova. Os 55 kWh resultam numa capacidade útil de 52 kWh, o que significa um valor de buffer mínimo, a rondar os 6%. O novo pack é pouco mais pesado (326 kg em vez de 305 kg), mas a capacidade útil aumentou 11 kWh. Os responsáveis da marca confirmaram que trabalharam em conjunto com a LG Chem para a produção de novas células de iões de lítio. Um redesenho da arquitetura interna libertou o máximo de espaço possível para as células. A melhoria dos componentes fez o resto.

Onde é que a Renault produz as baterias?

A Renault trabalha com a LG Chem, que produz as células na sua fábrica na Polónia. Mas o pack de baterias é fabricado pela Renault na fábrica de Flins, onde é produzido o Zoe. O Batery Management System (BMS) também foi desenvolvido internamente. 

E quanto à velocidade de carregamento, há novidades?

Sem dúvida. O modelo distinguiu-se por permitir carregar em AC até 22 kW, que o novo Renault Zoe mantém. Mas além disso, permite agora carregamento em DC até 50 kW. Desta forma, aumenta a escolha ao utilizador. 

Mas, com um pack destas dimensões, os tempos de carregamento aumentam?

Sem dúvida, mas com a possibilidade de carregar em AC (monofásico ou trifásico), de 2 a 22 kW, e em DC até 50 kW, há uma solução para cada necessidade. Numa tomada doméstica de 10A, são precisas 34h30 para uma carga completa do zero. Numa wallbox de 3,7 kW (16A), são precisas 16h10 e numa wallbox de 7,4 kW (16A trifásico), bastam 9h25. Se tivermos 11kW, 6h00 chegam e, a 22 kW, bastam 3h00. Em DC, a 50 kW, em 1h10 dá para carregar de zero a 80%.

Naturalmente, o novo Zoe tem uma versátil tomada CCS, combinando a tomada tipo 2 e o conector de dois terminais para carregamento em corrente contínua.

E outras coisas boas do novo Renault Zoe?

Bom, o habitáculo também teve uma evolução significativa. A começar pelo ecrã TFT de 10’’, que reune toda a instrumentação à frente do condutor. Há depois um segundo ecrã tátil multimédia com 9,3’’. Este permite controlar diversos parâmetros, visuais e técnicos do novo Zoe, incluindo os vários sistemas de ajuda à condução e o sistema de navegação. Além disso, tem o sistema Easy Link, compatível com Android e Apple Play. O sistema de navegação funciona muito bem, com informações precisas e muito claras. Nas curtas viagens que realizámos, não foi preciso andar à procura de postos de carregamento, mas asseguraram-nos que não só o Zoe os identifica como sabe quais estão realmente funcionais. Vai dar muito jeito por cá…

E como está a condução do novo Zoe? Continua suave e relaxante?

A verdade é que está melhor do que nunca. E um importante fator é a insonorização. A Renault incrementou a qualidade dos painéis isolantes na carroçaria e nas portas, bem como um novo pára-brisas acústico. A melhoria é muito significativa. O Zoe continua a fazer o som de nave espacial até aos 30 km/h, mas por dentro, quase não se ouve. E, mesmo quando andamos depressa, impressiona com o pouco ruído que chega até nós. Um trabalho muito bem conseguido.

Quanto à sustentabilidade…

Acho que foi a evolução de que mais gostei. Com este modelo a Renault deu um importante passo na aplicação de princípios de economia circular. Muitos dos materiais do habitáculo são produzidos com plástico reciclado. Mas a grande novidade é que muitos deles estão agora visíveis e são indistinguíveis, em aspeto e durabilidade, dos não reciclados. Mas o mais interessante é o novo tecido de bancos feito com tecido 100 reciclado. A matéria-prima são desperdícios têxteis, cintos de segurança velhos e garrafas de plástico. O resultado é muito bom e o processo, assim que estiver amortizado o investimento inicial, terá um custo semelhante ao dos tecidos anteriormente utilizados.

Então e o test-drive? Deu para fazer teste de consumos?

Foi bastante útil. Eu e o Jorge Flores — Motor 24 — fizemos duas viagens interessantes no novo Renault Zoe R135. A primeira, um pouco mais longa, foi para nos familiarizarmos com o modelo. Com a extensão de 135,5 km, sempre em estradas com apenas uma faixa. Até cerca de metade, num ritmo descontraído, estávamos com 12 kWh/100 km. Na segunda parte, testámos as acelerações e velocidade máxima, bem como o comportamento em curva, num ritmo mais animado. Chegámos ao fim com um consumo energético de 13,1 kWh/100 km.

E chegaram a fazer um carregamento? 

Sim. Aliás, o nosso Zoe foi o único a carregar durante a hora de almoço, no posto de 50 kW que a Renault ali estabelecera. O carregamento entre 63%-99% demorou cerca de hora e meia. Quando interrompemos, ainda estava a carregar.

E a viagem de regresso?

O Jorge e eu combinámos que íamos tentar reduzir o consumo ao mínimo. Ar condicionado desligado e sem passar dos 70 km/h. Era uma viagem de 94 km. 

E como é que correu?

Ao princípio, não foi famoso, apesar da condução suave do Jorge. Passados 10 km estávamos com uma média superior a 30 kWh/100 km! 

O que é que aconteceu?

Estamos convencidos de que o sistema de arrefecimento das baterias — interrompemos o carregamento rápido e arrancámos — foi o responsável pelo maior consumo nos primeiros quilómetros. Mas depois normalizou. Conseguimos a proeza de chegar ao destino com 10,9 kWh/100 km. Foi de longe a marca mais baixa do nosso grupo. Claro que fomos os últimos a chegar, mas perfeitamente dentro do programa.

Quando é que vamos ter o novo Zoe em Portugal?

As encomendas vão abrir nas próximas semanas. Ainda não sabemos os preços todos, mas já sabemos o valor de entrada.

E são más notícias?

Pelo contrário. A Renault Portugal anunciou que o novo Zoe vai ser 1200 euros mais barato do do que a versão equivalente da geração anterior. As condições só não são mais vantajosas, porque os incentivos do Fundo Ambiental são muito limitados. Em Itália, por exemplo, o total de incentivos pode chegar aos 14.000 euros, entre apoio nacional e regional. Por cá, como era restrito a um número de unidades, já terminou há muito e não se sabe qual o plano para 2020.

Em Portugal, o novo Zoe — na versão R110 — vai ter um preço a começar nos 23.690 euros, com aluguer da bateria e 31.990 euros com a aquisição daquela. No nosso mercado, mais de 70% dos particulares escolhe o aluguer.

Vão existir três níveis de equipamento que, em princípio, adotarão as designações já presentes na gama Clio: Zen, Intens e Exclusive. 

O novo Zoe está preparado para a concorrência, com a chegada de vários novos VE europeus?

O Zoe é o veterano dos EV para as massas, tendo já uma carreira de sete anos e mais de 160.000 unidades vendidas. Esta nova geração é resultado de um acumular de experiência que poucos construtores — nenhum deles europeu — têm nesta área. Maior oferta e variedade é sempre positivo, mas a julgar pela nossa experiência na Sardenha, o novo Zoe tem tudo para continuar a ser um VE de referência, para particulares e empresas.

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