Bruno Augusto
Bruno Augusto
Investigador do Centro de Estudos do Ambiente e do Mar (CESAM) e do Departamento de Ambiente e Ordenamento (DAO) da Universidade de Aveiro (UA)

A transição para economia circular passa por incentivar e desenvolver modelos de negócio, estratégias colaborativas e produtos e serviços centrados no uso eficiente de recursos e em novas dinâmicas de inovação.

O metabolismo urbano numa perspetiva de Economia Circular

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O conceito de economia linear, que se baseia na extração-produção-consumo-descarte tem vindo a ser substituído por uma economia circular, baseada na preservação do valor e utilidade dos materiais e energia utilizados e em melhorar a sua produtividade. A economia circular não se limita apenas à reciclagem ou eficiência energética, mas implica uma transformação da forma como hoje, a economia lida com a produção e o consumo, ao longo de todo o ciclo de vida. A transição para economia circular passa por incentivar e desenvolver modelos de negócio, estratégias colaborativas e produtos e serviços centrados no uso eficiente de recursos e em novas dinâmicas de inovação.

Portugal atrasado na transição

Em Portugal, a economia conta com um metabolismo lento, isto é, extrai e importa mais matérias-primas do que a quantidade de produtos que exporta, acumulando assim materiais. Por isso, a transição para uma economia circular é necessária para alcançar um desenvolvimento sustentável e garantir um nível de conforto e acesso a bens no futuro. Isto só é possível com uma gestão responsável de materiais e resíduos (que são um tipo de material).  Os benefícios para o país podem ser significativos, nomeadamente no que diz respeito a atingir os objetivos de desenvolvimento sustentável 2030, uma vez que está transição conduzirá a uma redução das pressões ambientais (e.g., redução de GEE), redução da dependência de importações, e criação de oportunidades de emprego.

Nos finais de 2017, Portugal aprovou o Plano de Ação para a Economia Circular (PAEC), que é um documento estratégico para o crescimento e investimento baseado no uso de recursos e na mitigação de impactos ambientais. Este documento vem assistir na transição para a economia circular e apresenta os vários níveis de ação. Um desses níveis de ação inclui as agendas regionais para a economia circular, que têm como objetivo definir estratégias de transição e acelerar a sua aplicação de forma apropriada para as diferentes regiões. Um dos passos mais importantes destas agendas regionais passa por caracterizar o metabolismo económica da região. Este está relacionado com a ligação entre os recursos consumidos e os resíduos produzidos no sistema socioeconómico, e o metabolismo dos seres vivos e dos ecossistemas, ou seja, pode ser caracterizado pelas entradas e saídas de materiais e energia, assim como o seu consumo e armazenamento.

Metabolismo urbano pode ser a chave

Ao avaliarmos o metabolismo de uma região (metabolismo regional) é possível conhecer a origem das matérias primas e produtos (se são produzidas ou importadas), e o seu destino (consumo, uso para produção, exportação), assim como o que é consumido (ex.: bens alimentares), armazenado e desperdiçado. A partir destes dados, em particular a informação sobre os materiais que são desperdiçados e nos que são armazenados, consegue-se identificar oportunidades de circularidade. 

Um dos grandes desafios associados a este tipo de avaliação é a ausência qualitativa e quantitativa de dados. Enquanto que muitos dados existem em bases de dados nacionais e de empresas, estes podem ter fontes indefinidas ou estar agregados de uma forma que não permite tirar conclusões. Um caso específico é o dos resíduos. Devido à sua natureza heterogénea, e dispersão geográfica, é difícil identificar o seu destino, não permitindo assim identificar oportunidades para a circularidade.

No entanto, se for feita de uma forma rigorosa e sistemática, a análise do metabolismo urbano de uma região permitirá identificar produtos e matérias primas que podem ser usadas em outros contextos dentro da região/área urbana, reduzindo desperdícios e criando simbioses entre o setor industrial e os restantes agentes da região, permitindo assim alcançar uma economia circular e neste âmbito, construir cidades circulares. 

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