No seu último encontro, o International Club of Portugal convidou o Secretário de Estado Adjunto e da Mobilidade – Ambiente e Transição Energética para um almoço-debate sobre a mobilidade, ao qual o Watts On assistiu.

A intervenção de José Gomes Mendes foi subordinada ao título “Mobilidade, quo vadis” (“para onde vais mobilidade”), tendo o governante aproveitado a ocasião para mostrar a sua visão da mobilidade, sobretudo nas grandes cidades, e reforçar que as medidas que tem tomado, enquanto membro do atual Governo, estão em sintonia com as melhores práticas internacionais do setor.

José Mendes nasceu em Braga em 1962. É Licenciado em Engenharia Civil, Doutorado e Agregado em Planeamento do Território pela Universidade do Minho. É professor catedrático de Sistemas Regionais e Urbanos na Universidade do Minho, onde ocupou entre 2009 e 2015 o cargo de Vice-Reitor para a Valorização do Conhecimento. Como investigador, desenvolveu atividades na década de 90 na Clark University e na South Dakota State University, nos EUA. 

E, perante uma plateia de muitos empresários, sem rodeios, José Gomes Mendes, declarou que “quem está a dormir a pensar que isto [dos veículos elétricos] é uma coisa para as gerações futuras desengane-se”, tendo que, ao “sair daqui, hoje à tarde chamar a [sua] equipa para se preparar, porque isto vai acontecer”.

Em jeito de balanço da governação

Quando faltam cerca de cinco meses para a legislatura terminar, José Gomes Mendes, engenheiro civil de formação, fez uma espécie de balanço da governação, fazendo recurso dos seus pergaminhos de formação enquanto professor catedrático pela Universidade do Minho para fazer uma pequena aula sobre os desafios da mobilidade, referindo que, depois da disrupção que foi a chegada dos automóveis para substituírem a tração animal no início do século XX, este é o segundo grande momento transformador em termos de mobilidade que a humanidade atravessa. Tudo por causa dos automóveis elétricos.

O Watts On recupera aqui as principais ideias do discurso do Secretário de Estado Adjunto e da Mobilidade – Ambiente e Transição Energética.

Primeira disrupção chegou com o automóvel

“Entendia-se no início do século passado que não havia uma alternativa à tração animal, mas é verdade é que o génio humano e a iniciativa privada empresarial resolveram o problema em 10 anos. Entre 1898 – a data em que na grande conferência do planeamento urbano ocorrida em Nova Iorque se concluiu que não havia alternativa à tração animal – e 1908, aconteceu a massificação da produção do automóvel moderno tal como conhecemos. Entre 1908 e 1927, com a adaptação da transformação da fabricação em linha e o valor unitário do Ford T a passar de 850 dólares, em 1908, para 299 dólares, em 1927, levou a que, no final da primeira década do século XX, já não houvesse cavalos nas grandes cidades do mundo”, apontou José Gomes Mendes.

O membro do Executivo recorda que “a verdade é que esta introdução do veículo a combustão interna alterou completamente o padrão da mobilidade durante todo o século XX, criando um modelo de mobilidade que tirou centenas de milhões de pessoas da pobreza. E por que é que as tirou da pobreza? Porque o objetivo do sistema de mobilidade é levar pessoas até junto das oportunidades. E mais mobilidade significa mais pessoas a chegarem a mais oportunidades – emprego, cultura, saúde, educação. Sem um sistema de mobilidade, as pessoas não conseguem chegar às oportunidades, já que elas não estão localizadas em todo o lado”.

Segunda disrupção é agora

José Gomes Mendes entende que “100 anos depois estamos a viver já uma segunda disrupção”. Para o governante, a mobilidade que conhecemos “gerou externalidades negativas, como o congestionamento, produção de gases de efeito estufa, poluição atmosférica e sinistralidade rodoviária, que começam a ficar absolutamente insustentáveis, sobretudo em meios urbanos muito densos”.

Continuando a sua intervenção, José Gomes Mendes diz “que devemos ter orgulho do sistema de mobilidade criado até agora. Não há nada de errado em chegar a um patamar de externalidades que obriga à mudança. O primeiro passo de encontrar uma solução é assumirmos que fazemos parte também do problema. Uma manga que nós comemos fatiada no nosso prato aqui em Lisboa viajou 21.000 km vinda da América do Sul. A manga que vem do Peru, que é uma das origens mais conhecidas, viaja em camiões até São Paulo, onde fica armazenada em arcas frigoríficas e depois viaja de avião para Madrid, de seguida segue por camião para Lisboa ou de barco para Roterdão”.

“Chegámos a um patamar de externalidades que obriga a uma mudança”

José Gomes Mendes deu ainda o exemplo das bolas de ténis que são utilizadas nos torneios de Roland Garros ou Wimbledon, cujos materiais vêm de diferentes pontos do globo, incluindo Nova Zelândia, com as bolas a andarem de Inglaterra para Manila, nas Filipinas, depois para a Carolina do Norte, nos EUA, até terminarem o seu percurso em Inglaterra a levar pancadas de uma raquete, 80.000 km depois: “Portanto cada vez que vimos um jogo de ténis em Wimbledon naqueles magníficos relvados ou estivermos a saborear a nossa manga temos que perceber que fazemos todos parte de um padrão de consumo. Mas temos que perceber que caminhamos para um certo caminho de insustentabilidade e, portanto, o caminho a fazer agora é resolver e alterar essa situação”.

De 10 Gigatoneladas para 2 Gigatoneladas

O governante declara que o setor dos transportes tem, a nível mundial, de reduzir de 10 Giga toneladas de CO2 emitido por ano para 2 Giga toneladas de emissões de CO2 até 2050: “Obviamente, que parece difícil, mas ainda é mais difícil do que parece porque a procura por transporte vai aumentar, esperando-se que ela possa duplicar até 2050. Não menos de 1 milhão de pessoas irá passar de áreas rurais para áreas urbanas até 2050. Esse bilião de pessoas vai querer ter padrões de mobilidade iguais àqueles que nós temos e, portanto, vai aumentar a procura”.

“A procura por transporte vai aumentar, mas temos de descer o impacto das emissões”

José Gomes Mendes chegou ao Governo no final de 2015, declarando que o desafio que colocou a si próprio foi o de “fazer a quadratura do círculo, isto é, eu vou tutelar um setor em que a procura vai crescer, mas eu vou ter que fazer descer o impacto das emissões dramaticamente e, portanto, isto é a quadratura do círculo: mais acesso em mobilidade e menos impacto”, afirma o membro do Executivo.

Três metas estabelecidas

O secretário de Estado, que sublinha que os transportes são responsáveis por um quarto das emissões de CO2, aponta que o desafio a que o Governo se propôs foi de, no espaço de uma legislatura, “pôr no terreno uma nova geração de políticas de mobilidade acompanhada do respetivo investimento”.

Por isso – explica o governante – foram identificadas três metas:

  1. transição energética,
  2. redução da densidade energética dos transportes
  3. e aumento da competitividade do transporte público.

Em relação à transição energética, “era importante passamos dos combustíveis fósseis para combustíveis de menor teor de carbono”.

“Portugal tem um mix energético exemplar”, elogia o governante, dada a integração de fontes de energia renováveis de 57% na produção de eletricidade, considerando que esse valor irá aumentar para 80% em 2030. “Acho que vamos chegar lá porque estão já em concurso muitas licenças de energia solar”. Ao mesmo tempo, acrescenta o secretário de Estado, as duas centrais de carvão existentes em Portugal (Sines e Pego) vão ser descomissionadas até 2030, aspeto que permitirá que o abastecimento elétrico em Portugal seja grandemente originário de fontes limpas.

“Há dias vi um artigo de opinião, até de uma pessoa que eu respeito muito, que, citando um estudo, dizia que os veículos elétricos afinal poluem mais do que os veículos de combustível fóssil. A verdade é que isso se refere ao mix energético da Alemanha, onde, tal como, em Inglaterra, há muita mais intensidade carbónica do que nós temos”, afirma o governante.

“Temos de transferir as viagens de modos pouco sustentáveis para modos mais sustentáveis”

Por seu lado, a diminuição da intensidade energética, a segunda meta estabelecida pelo Executivo em termos de transportes, está associada aos modos de mobilidade: “Em termos práticos e em linguagem corrente, isto significa fazermos a transferência modal – a transferência de viagens de modos pouco sustentáveis para modos mais sustentáveis”, sublinha José Gomes Mendes que aponta que, entre os modos mais sustentáveis, sobressai, por excelência, o transporte público, pois é aquele que “por passageiro e por quilómetro tem menores impactos nas externalidades”.

Ainda assim, o governante afirma que “é preciso deixar claro que nem todas as viagens se conseguem realizar através de um transporte público. Então terá que haver sempre aqui outras opções e outras modalidades para satisfazer outro tipo de necessidades”.

“Para cada tipo de viagem, as pessoas vão escolher o meio de transporte mais adequado”

Por fim, o membro do Executivo, esclarece que o terceiro pilar da estratégia implementada foi o aumento da competitividade do transporte público, o que, num país como Portugal, para além de implicar melhorar a qualidade da oferta do transporte, passa por “baixar o custo”, dado que “há demasiada gente a ganhar na casa de 600 euros e não nos podemos esquecer dessas pessoas que são portugueses como todos os outros”.

Transporte público subsidiado

José Gomes Mendes realça o facto de, nas grandes cidades, em quase todos os países da Europa, o transporte público ser fortemente subsidiado, por se considerar um bem de primeira necessidade. “Em Portugal, as pessoas olham com naturalidade que o Estado financie o Serviço Nacional de Saúde, mas já têm alguma dificuldade em aceitar que financie o sistema de transporte público”, aponta.

“O transporte público em meio urbano nas horas de volta parece que nunca chega. Mas depois durante o resto do dia, fora das horas de ponta, está ocupado a 30% ou 25% ou 35%. Evidentemente, um transporte público com uma capacidade instalada utilizada de apenas 35%, se não for subsidiado não sobrevive. Por isso, apoiámos a medida de redução do tarifário”, justifica.

O secretário de Estado acrescenta que, com base naquilo que são os modelos clássicos neste tipo de estudos, o Governo estima poder vir a ter um aumento de 10% na procura de transporte público, o que, na prática, significa que haverá mais 100 mil pessoas a utilizar os transportes coletivos e serão retirados 73 mil carros por dia de uma cidade como Lisboa, o que valerá, anualmente, menos 72.000 toneladas de CO2 emitidas.

“O paradigma da mobilidade
alterou-se”

“O que procurámos fazer nesta legislatura em todos os elos – transição energética, diminuição da intensidade energética e aumento da competitividade do transporte público – foi fazer leis para desbloquear esses elos”, diz o governante, citando a regulamentação dos serviços como a Uber (o chamado TDVE – transporte em veículo descaracterizado a partir de plataformas eletrónicas), bike sharing ou car sharing.

“Evidentemente que eu também não gosto de tropeçar nas trotinetes, mas temos que nos lembrar que estamos a disponibilizar novas modalidades de transporte sobre uma estrutura que foi desenhada para o modo de transporte do século passado virada para o automóvel. É necessário outro ‘layer’ de organização, pois o paradigma alterou-se agora”.

Automóvel não serve para tudo

José Gomes Mendes declara que a ideia enraizada de que o automóvel serve para tudo, desde ir ao café que fica a 250 metros até ir de férias para o Algarve, é um modelo ultrapassado. O que se coloca aos cidadãos – afirma o secretário de Estado – é que definam o meio de transporte mais adequado em função do destino e objetivo que pretendam. “Qual é o meio mais adequado para esta viagem?” é a pergunta a colocar. Mediante isso, selecionar-se-á o veículo mais apropriado: “Pode ser a trotinete, a bicicleta, o autocarro ou o carro”, diz o governante que defende a mobilidade como um serviço: “E isso vai ser possível através de integradores. São aplicações que permitem para cada viagem escolher qual é o modo mais adequado, em tempo real. Os construtores de automóveis já estão a perceber que vão ter que migrar de entidades que vendem automóveis para entidades que disponibilizam mobilidade e pacotes de mobilidade”.

“Uma família média não precisa de ter todos os dias um automóvel à porta da garagem”.

“É absolutamente expectável que, numa cidade, uma família média não precisa de ter todos os dias um automóvel à porta da garagem mas, no dia em que precisar dele para uma deslocação, nessa altura quem disponibiliza pacotes de mobilidade vai ter que garantir no seu pacote de serviços que as pessoas tenham direito a um certo número de dias de utilização de um veículo”.

Para José Gomes Mendes, a paisagem da mobilidade e dos sistemas de tarifário “vai mudar substancialmente e vai mudar nos próximos três quatro anos; não vai demorar mais”.

Todos vão querer um elétrico

O representante do Governo neste evento entende que “vai haver um momento, e não está muito longe, em que todos vão querer ter um automóvel elétrico, em vez de ser uma pequena margem. A verdade é que quando eu olho para os números das vendas de veículos elétricos em Portugal, estão mais do que a duplicar desde 2016. Em matéria de veículos elétricos, Portugal é hoje o terceiro país da Europa, em termos percentuais”, diz.

“Quem está a dormir a pensar que isto é uma coisa para as gerações futuras desengane-se”, enfatiza.

“Vem aí um admirável mundo novo. Os governantes têm de preparar o quadro regulatório, mas o papel dos governantes deve ser facilitador, de acreditar na iniciativa privada”, diz José Gomes Mendes que terminou a sua intervenção como que a passar a pasta para o próximo titular dos assuntos do ambiente e mobilidade: “Deixo aqui um caderno encargos para quem vier a seguir na próxima legislatura!”.

 

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