Rui Lima
Rui Lima
Diretor pedagógico do Colégio Monte Flor e professor do 1º ciclo considerado pela Microsoft, em 2014, como um dos 18 professores mais inovadores do mundo. Autor do Livro “A Escola que Temos e a Escola que Queremos”.

As gerações mais novas, com todo o acesso que têm à informação disponível online, são precisamente as mais suscetíveis a acreditarem em ideias absurdas.

Dizemos planeta por ser plano

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Este planeta está, lentamente, a tornar-se um lugar demasiado estranho. Nos últimos anos, teorias da conspiração e ideias que pensávamos extintas há vários séculos aparecem disseminadas na Internet, colocando em causa avanços significativos da ciência e consequentemente, a evolução do conhecimento humano.

As “teorias” que mais frequentemente encontramos online são a de que a Terra é plana, a de que o Homem nunca chegou à Lua ou a de que o Aquecimento Global é um mito. Esta última, utilizada como arma política, pode inclusive colocar em causa o futuro da Humanidade e do nosso Planeta.

Tudo isto se torna ainda mais preocupante se pensarmos que as gerações mais novas, com todo o acesso que têm à informação disponível online, são precisamente aquelas mais suscetíveis a acreditarem nestas ideias absurdas. 

Em 2018, a agência YouGov perguntou a cerca de 8 mil americanos se acreditavam que a Terra era redonda. Na faixa etária a que correspondem os Millenials (geração que atualmente tem entre 19 e 36 anos), apenas 66% dos inquiridos acreditava plenamente que o planeta é redondo, sendo que os restantes referiram que ultimamente tinham dúvidas ou estavam certos de que a Terra era mesmo plana. Se estendermos o estudo a todas as faixas etárias, o número de pessoas que respondeu que acreditava que a Terra era redonda aumenta (felizmente) para os 84%. Ainda assim, 2% dos americanos inquiridos tinha a certeza de que a Terra é plana.

Aprender a questionar o que se lê

Os resultados deste inquérito, para além de nos colocarem perante uma realidade que muitos desconheciam ou que teimavam em negar, levanta-nos diversas questões relacionadas com a Educação para os Media, com a Literacia Digital e com a necessidade de usarmos o sentido crítico e a capacidade de reflexão acerca da informação que circula na Internet: Como podemos combater este fenómeno em crescimento nos últimos anos? Qual o papel da Escola na tomada de consciência da sociedade para esta realidade? Que competências desenvolver nos jovens para que estes sejam capazes de questionar o que leem? 

Como professor, acredito que é principal responsabilidade da Escola dotar as crianças e jovens de competências para conhecer, interpretar e viver num mundo repleto de desafios. É por isso necessário promover o espírito crítico através de atividades que coloquem os jovens a pensarem estas temáticas. Estimular o trabalho de projeto e a investigação com base em fontes fidedignas, sempre em articulação com a resolução de problemas reais será por isso essencial na valorização do conhecimento do mundo e dos fenómenos a ele associados.  

Numa sociedade onde os jovens devem ser ouvidos e considerados, é importante permitir que os alunos exprimam as suas ideias e opiniões, mas dotando-os de conhecimentos e alertá-los para o facto de que, quando se trata de ciência, as afirmações que fazemos carecem sempre de rigor e fundamentação.

Tecnologia oferece novos desafios

Por outro lado, num mundo cada vez mais tecnológico, não podemos deixar de fora do processo de aprendizagem os recursos digitais. Devemos incentivar o seu uso, mas alertar para a utilização do sentido crítico no questionamento da informação e na validação das fontes.

A Internet é um admirável mundo, que coloca nos nossos dedos a informação de milhares de anos de conhecimento da Humanidade, mas nela também circulam mentiras, ideias absurdas, opiniões sem fundamento, que qualquer um pode partilhar transformando-as, para os mais crédulos (e ignorantes), em factos e teorias científicas. 

Já dizia o historiador norte-americano Daniel Boorstin: “O maior inimigo do conhecimento não é ignorância, mas a ilusão do conhecimento.”

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