Em nome do ambiente e de uma melhor qualidade de vida, várias cidades do mundo estão a tomar sérias medidas para virarem a página daquilo que foi, durante décadas, o paradigma da mobilidade (assente sobretudo no automóvel) para – literalmente – se livrarem dos veículos.

As mudanças estão a acontecer um pouco por todo o globo, consistindo as mais drásticas na supressão de grandes áreas de espaço antes dedicadas a automóveis e na restrição à circulação em locais e em diversos períodos dos veículos mais poluentes.

Para a maioria das cidades, a principal razão para a mudança prende-se com a poluição do ar, responsável pela morte de milhares de pessoas.

Porém, é igualmente uma forma das cidades lidarem com as metas impostas pelo Acordo de Paris com vista à luta contra as alterações climáticas.

Levando em consideração o crescimento demográfico nas grandes cidades e o facto de não haver espaço suficiente nas ruas das cidades para que todos possam entrar com a sua própria viatura, torna-se inevitável que se coloquem barreiras à entrada e circulação de veículos. E o problema ambiental dita ainda que os veículos que podem entrar nalguns locais sejam os elétricos.

Damos o exemplo de nove grandes metrópoles (na América do Sul, Europa, Ásia e África) onde esta alteração do “status quo” está a ser feita de modo mais rápido.

BUENOS AIRES, Argentina

Na capital argentina, os ventos de mudança também chegaram. Os responsáveis locais têm vindo a implementar um plano que abrange o período 2014-2034 cujo objetivo é introduzir na cidade mais áreas verdes, mais zonas pedonais e restringir o número abissal de viaturas que diariamente circulam nas suas artérias. Algumas das principais avenidas foram dedicadas aos transportes públicos e em diversos bairros a entrada de automóveis é condicionada. A Área Central, o Retiro, o Casco Histórico e as imediações do Palacio de Tribunales fazem parte do projeto Centro Pedonal, o que significa que apenas transportes coletivos e residentes podem circular (para os demais veículos é imprescindível ter uma autorização especial). O plano pretende erguer 78 novas praças, a ampliação de 30 praças existentes, a criação de doze novos grandes parques verdes, de modo a que, quando o plano estiver executado um habitante de cada bairro de Buenos Aires possa ter um espaço verde a uma distância de 350 metros. Cidade inclusiva e sustentável.

CAIRO, Egito

Esta alteração de paradigma está a ter um efeito de contágio e a chegar a mais cidades. O Cairo, no Egito, por exemplo, uma megacidade de cerca de 18 milhões de habitantes que enfrenta graves problemas de poluição atmosférica e engarrafamentos gigantescos equaciona implementar um plano que possa atenuar este cenário. Num projeto delineado entre as autoridades locais, a ONU, a fundação Drosos e o ITDP Africa (Instituto para o desenvolvimento de políticas transportes de África), está previsto numa primeira fase um esquema de partilha de bicicletas para a zona mais central do Cairo. Isso irá levar à criação de 700 linhas de ciclovias na baixa da cidade. O plano contempla ainda a expansão de zonas pedonais. O objetivo é diminuir o caótico volume de automóveis na capital egípcia.

CHENNAI, Índia

Chennai, como outras cidades da Índia, luta contra a poluição do ar, em grande parte devido ao transporte rodoviário. E com o objetivo de reduzir a poluição, algumas medidas estão a ser tomadas. A tradicionalmente congestionada estrada Thyagaraya, em Chennai, exemplifica o que se está a alterar nalguns locais da populosa Índia, já que esta estrada está a transformar-se numa praça para peões, que deverá ficar concluída nos próximos meses. Foi igualmente já lançado um novo sistema de partilha de bicicletas e a nível nacional, o governo indiano está a canalizar um orçamento generoso (1,2 mil milhões de euros) como incentivos para alavancar as vendas de veículos elétricos e híbridos no país.

LONDRES, Inglaterra

Em 2003, Londres foi pioneira na criação de uma taxa de congestionamento que os condutores teriam de pagar para poder entrar no centro de Londres. Com o crescimento que se prevê que Londres venha a ter nas próximas duas décadas, mais 100 mil pessoas irão mudar para o centro histórico da capital londrina, estimando-se ainda que a área ganhe cerca de mais três mil moradores. Com este esperado afluxo, se nada mais substancial fosse feito, o trânsito simplesmente ficaria petrificado. Para resolver este cenário futuro e poluição do ar que também já enfrenta, Londres está a trabalhar num novo plano, cuja prossecução levaria a que metade das ruas ficassem livres de carros. Depois de em 2010 ter inaugurado a sua primeira “autoestrada para bicicletas” em ruas movimentadas, a “city” também quer construir mais ciclovias e ciclovias reservadas na maioria das ruas principais para garantir maior segurança aos velocípedes. Nos locais onde os automóveis serão permitidos, o plano propõe um limite de velocidade de 15 km/h.

MADRID, Espanha

Em novembro último, a capital espanhola começou a introduzir fortes restrições em todo o centro da cidade para tentar resolver a sua poluição atmosférica e os problemas de tráfego. Veículos mais antigos e poluentes foram proibidos (com a exceção de moradores dos bairros e de pessoas com deficiência) e os carros elétricos são os podem percorrer as ruas madrilenas desta “Área Cero Emisiones”. Os táxis movidos a gasolina ou Diesel, se forem recentes, ainda podem circular. Este área de baixas emissões foi projetada para ser “um pulmão para a cidade no coração de Madrid” e, inspirado pelo sucesso, no final de 2018, o governo espanhol propôs a proibição da circulação de quaisquer automóveis que não sejam veículos com emissões zero nos grandes centros urbanos em todo o país.

OSLO, Noruega

No centro da cidade de Oslo, os antigos espaços de estacionamento nas ruas foram transformados em ciclovias e foram ocupados por bancos e pequenos parques. Já no início deste ano, a capital norueguesa finalizou um processo de remoção de 700 vagas de estacionamento como forma de incentivar as pessoas a não levarem os seus veículos particulares para estas zonas, aumentando, paralelamente, o número de postos de carregamento para veículos elétricos e o número de lugares de estacionamento exclusivos para condutores com deficiência motora. Outra medida que Oslo está a implementar passa pela melhoria do transporte público e pelo esforço para tornar a utilização de bicicletas mais fácil. O propósito é diminuir a poluição e criar condições aprazíveis para que os habitantes possam aproveitar melhor o espaço público. Hanne Marcussen, vice-presidente da autarquia de Oslo com o pelouro do desenvolvimento urbano afirma mesmo que “cidades, como Oslo, foram construídas para os automóveis há várias décadas e é hora de mudarmos. É importante que todos nós pensemos em que tipo de cidades queremos viver. Tenho a certeza de que quando as pessoas imaginam essa cidade ideal, não pensam em ar poluído, carros parados em filas intermináveis ou ruas cheias com veículos estacionados”.

PARIS, França

Paris tem-se empenhado na melhoria ambiental, tendo vindo a implementar nos últimos anos algumas medidas de restrição à circulação automóvel. Em 2017, uma das movimentadas estradas próxima do rio Sena deu lugar a um caminho para peões, sendo essa apenas uma das facetas de um plano maior, em curso, para reduzir a poluição, através da diminuição da circulação automóvel. Durante os dias úteis, Paris veda a entrada a automóveis mais antigos e mais poluentes. Até 2024, a autarquia já fez saber que não serão permitidas viaturas Diesel e, até 2030, também os automóveis exclusivamente a combustão serão proibidos. Os cruzamentos estão a ser redesenhados para dar prioridade às pessoas sobre os carros e o número de ciclovias e as opções de transporte público estão a crescer.

PEQUIM, China

Para combater o congestionamento do tráfego e reduzir os elevados níveis de poluição, Pequim fechou 23 grandes ruas a veículos de não residentes. Nas situações em que os condutores podem circular, foi criada uma regra de alternância, baseada na matrícula dos seus carros. A capital da China também oferece pequenos incentivos financeiros para as pessoas que optem por não conduzir um dia a mais. Além do mais existe (não apenas em Pequim) uma espécie de quota para a concessão de novas matrículas, um modo do governo local tentar refrear o desejo de ter um novo automóvel. No novo distrito de Xiong’na (a cerca de 100 km a sudoeste de Pequim), encara-se a possibilidade dos veículos particulares serem proibidos de circular e de se incentivar o uso de viaturas autónomas elétricas.

SEUL, Coreia do Sul

No primeiro ano após Seul ter concluído a conversão de um viaduto rodoviário num caminho pedestre (Skygarden), em 2017, 10 milhões de pessoas utilizaram esta passagem e os negócios melhoraram na área, com as vendas a crescer 42%.

Curiosidade
O projeto sul-coreano Skygarden é semelhante ao High Line em New York.

Agora, a capital da Coreia do Sul planeia adicionar novas zonas para peões. Algumas faixas de tráfego nas principais avenidas serão convertidas em ciclovias e em faixas exclusivas para autocarros. A cidade também está a começar a lançar novos bus elétricos, tendo o objetivo de vir a colocar em circulação três mil até 2025, ao mesmo tempo que melhora as carreiras atuais para encorajar mais pessoas a escolher o transporte coletivo em vez do individual. O sistema de classificação para automóveis desenhado por Seul para manter os veículos mais poluentes arredados do centro da cidade levará a que, em 2020, apenas os automóveis elétricos ali possam entrar.

 

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