Sandra Rafael
Sandra Rafael
Investigadora de pós-doutoramento do Centro de Estudos do Ambiente e do Mar (CESAM) e do Departamento de Ambiente e Ordenamento (DAO) da Universidade de Aveiro (UA)

Sabemos hoje que as características da morfologia urbana tornam as cidades vulneráveis a um conjunto alargado de desafios, a que teremos de dar resposta num futuro que é já amanhã.

Infraestruturas verdes decisivas para a qualidade do ar

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Ao longo dos últimos anos a melhoria da qualidade do ar nas áreas urbanas tem vindo a ser conseguida através da redução de emissões de poluentes atmosféricos, por via da aplicação de soluções tecnológicas (como é o caso da implementação de tecnologias limpas na indústria e nos veículos automóveis).

No entanto, segundo o último relatório da Agência Europeia do Ambiente sobre qualidade do ar na Europa, continuam a verificar-se excedências aos valores-limite de alguns poluentes atmosféricos, em particular de material particulado (PM10) e dióxido de azoto (NO2), em algumas cidades europeias.

Num mundo em mudança em que as questões ambientais estão na ordem do dia e com uma tendência de aumento da população a residir em áreas urbanas, a procura por soluções inovadoras é urgente.

Neste sentido, recentemente, e reconhecendo que as medidas tradicionais continuam a ser necessárias, a Comissão Europeia tem defendido que estas devem ser reforçadas por soluções inspiradas nos ecossistemas, as designadas soluções baseadas na natureza. 

A natureza na cidade

Referimo-nos a elementos paisagísticos naturais, como pequenos cursos de água, zonas arborizadas ou edifícios com coberturas e/ou fachadas verdes. Estas soluções, aplicadas estrategicamente, permitem assegurar múltiplas funções num mesmo espaço, podendo ser mais eficientes em termos de custo-benefício. 

A qualidade do ar, a regulação do microclima urbano (muito importante num contexto de alteração climática) e a gestão da água são significativamente potenciados por esta via.

O Departamento de Ambiente e Ordenamento da Universidade de Aveiro tem vindo a desenvolver trabalho nesta área de investigação, tendo este sido iniciado em 2013 com o projeto CLICURB – Qualidade da Atmosfera Urbana, Alterações Climáticas e Resiliência. 

O projeto teve como objetivo analisar de forma integrada as alterações climáticas e o desenvolvimento urbano no município do Porto, considerando a inclusão de estratégias de adaptação no planeamento urbano e no processo de tomada de decisão, atribuindo particular relevância ao binómio alterações climáticas/poluição atmosférica. Mais informações sobre o projeto podem ser consultadas aqui. 

Estudo inovador no Porto

Dando continuidade ao trabalho iniciado, procurou-se compreender a influência da implementação de infraestruturas verdes na qualidade do ar à escala local, tendo o bairro da Rua da Constituição do município do Porto sido selecionado para o efeito.  

A qualidade do ar à escala local depende fortemente das singularidades de cada área urbana, pelo que a morfologia do território (onde se enquadra a presença de vegetação e edificado) e as condições meteorológicas locais são fatores preponderantes. Estamos a falar de um escoamento atmosférico complexo cujo comportamento pode variar de hora em hora.

Apesar desta complexidade, temos hoje disponíveis um conjunto de ferramentas que nos permitem realizar uma análise detalhada e realista de todos estes parâmetros. Estas ferramentas, as chamadas técnicas de computação da dinâmica de fluidos, são modelos numéricos que permitem avaliar a qualidade do ar à escala local. 

Resultados significativos

O estudo realizado revelou que a implementação de um parque verde na área de estudo, e comparativamente à situação de referência (sem parque verde), permitiria reduzir as concentrações de PM10 em 16% e de NO2 em 19% (em média).

Estas reduções serão maiores ou menores dependendo das condições meteorológicas que se verificarem. Estes resultados são explicados pela introdução das árvores, que sendo materiais porosos (ao contrário do que acontece com os edifícios), promovem um aumento da velocidade do vento e consequente aumento da dispersão dos poluentes atmosféricos na região em estudo. Mais detalhes sobre este estudo podem ser consultados aqui.

A investigação desenvolvida permitiu concluir, através de uma análise quantitativa, o potencial das soluções baseadas na natureza para a melhoria da qualidade do ar nas cidades, demonstrando que estas podem (e devem) ser consideradas como um instrumento de gestão da qualidade do ar pelos decisores políticos.

Para além disso, é evidenciado neste estudo que os benefícios destas soluções estão diretamente dependentes de um adequado ordenamento do tecido urbano. Isto significa que o planeamento do território, por exemplo a seleção do local a aplicar estas soluções, a área dessa solução, o tipo de vegetação, entre outros fatores, é imprescindível, requerendo que as medidas sejam avaliadas antes da sua implementação, o que só é possível através de modelos numéricos. 

Sabemos hoje que as características da morfologia urbana tornam as cidades vulneráveis a um conjunto alargado de desafios, a que teremos de dar resposta num futuro que é já amanhã. Um desses desafios é garantir um ar de qualidade. O direito a um ar de qualidade é um direito de cada cidadão. Será por isso crucial ter uma visão transversal do espaço urbano, garantindo um espaço para a natureza e para as suas múltiplas funções.

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