Michael Russo
Michael Russo
Investigador do Centro de Estudos do Ambiente e do Mar (CESAM) e do Departamento de Ambiente e Ordenamento (DAO) da Universidade de Aveiro (UA)

Com a eletrificação total da frota automóvel, é necessário e imperioso analisar o fornecimento elétrico. De onde virá a energia?

Veículos elétricos, o passado e o futuro

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Automóveis elétricos não são uma tecnologia nova. A construção do primeiro automóvel elétrico é muitas vezes atribuída a Thomas Parker, um engenheiro elétrico e inventor Britânico, que em 1884 construiu o primeiro automóvel elétrico. As peças que Parker utilizou eram uma mistura de desenhos próprios e apropriação de outras tecnologias existentes, desde baterias recarregáveis a motores elétricos.

Durante os 20 anos seguintes os automóveis elétricos estiveram em alta, sendo uma opção de fácil condução comparado aos equipados com motores de combustão interna (gasolina), para além de serem silenciosos e não emitirem poluentes com mau cheiro quando passavam na rua. 

Cerca de um terço dos automóveis na estrada eram elétricos, muito populares entre cidadãos em zonas urbanas. Mas foi em 1908 que o sonho elétrico encontrou o seu maior obstáculo, o Model T de Henry Ford, um automóvel a gasolina a metade do preço dos elétricos da altura. Juntamente com o preço do petróleo a baixar e as novas redes viárias a serem construídas para ligar as grandes cidades, o automóvel a gasolina estabeleceu o seu domínio na indústria.

O reaparecimento de automóveis elétricos surgiu em duas etapas. Primeiro, nos anos 70, devido à crise petrolífera provocada pelo embargo dos países da OPEP de distribuição de petróleo, houve uma grande falta de combustível nos Estados Unidos e na Europa, e muitos viram os automóveis elétricos como uma possível solução. 

Mais tarde, nos anos 90, com os novos acordos ambientais, como a implementação da norma EURO 0 para a redução de emissões de poluentes de veículos, há um renascimento da discussão de sustentabilidade rodoviária e dos veículos elétricos.

Hoje, 134 anos depois de Parker apresentar o seu automóvel, temos empresas como a Tesla, dedicada a fornecer elétricos de luxo como o Model S e X, ou a Audi, com o recente anúncio do E-Tron GT no passado dia 28 de novembro. A questão agora é se os automóveis elétricos irão continuar a crescer. 

A Alemanha e a Dinamarca já apoiaram a nova era dos elétricos com a intenção de banir vendas de automóvel a diesel e gasolina até 2030. É uma forte declaração tanto para o futuro dos veículos elétricos como para os esforços destes países em reduzir as emissões dos veículos a circular no país. 

A questão da energia

Mas com a eletrificação total da frota é necessário e imperioso analisar o fornecimento elétrico. De onde virá a energia? A distribuição de produção de energia elétrica em Portugal para 2016 foi 54% renovável e 46% combustíveis fósseis. 

A taxa de renovável apresenta um valor superior ao da grande parte da Europa, e tem estado em contínuo crescimento. No entanto, existem perto de seis milhões automóveis em Portugal, e apenas 0.1% são completamente elétricos. Neste panorama nacional carregar os automóveis existentes não é um problema, todavia, e se todos fossem elétricos? 

Com distribuição atual em Portugal, pontualmente conseguimos fornecer toda a eletricidade que é necessária para o consumo elétrico do país apenas com fontes de energias renováveis. 

Mas se contabilizarmos a adição de seis milhões de automóveis elétricos a entrar na rede nacional de energia, esta distribuição não seria suficiente para conseguir corresponder à quantidade de eletricidade exigida. 

Em todas as casas durante a noite haveria baterias a serem carregadas, as quais têm quase três mil vezes a capacidade dos nossos telemóveis. O que pode ser traduzido num consumo de eletricidade anual de 1.26 MWh/habitante. 

Tendo em consideração que o consumo atual de eletricidade é de 4.59MWh/habitante, com as nossas percentagens de produção de energia elétrica teríamos de recorrer a combustíveis fósseis adicionais para conseguir suportar a demanda de eletricidade de todos os automóveis, o que levaria a uma grande emissão de poluentes para a atmosfera e a uma severa degradação da nossa qualidade do ar.

Este cenário poderá ser, no entanto, mais pessimista do que a realidade por várias razões. O aumento dos automóveis elétricos existentes é gradual, quem comprar um automóvel a gasolina ou diesel hoje poderá apenas trocar o automóvel daqui a dez anos ou mais, e o futuro poderá não passar por automóveis 100% elétricos, mas sim uma mistura de híbridos e elétricos. 

Os híbridos que utilizam combustíveis alternativos ou sintéticos ou elétricos agirem como uma bateria para a rede (V2G, Vehicle-to-Grid) são algumas das alternativas a serem estudadas para reduzir o impacto que os elétricos teriam na nossa produção de energia renovável e permitir a que a indústria automóvel “limpa” cresça de uma forma sustentável.

O crescimento de forma controlada vai ser lento, e até o custo das baterias, e dos próprios automóveis elétricos, começar a diminuir para valores mais acessíveis à população geral, ainda vamos ter a companhia dos veículos a gasolina e diesel nas nossas viagens diárias.

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Nuno Matos
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Nuno Matos

Boa tarde,

opinião interessante, contudo, uma ressalva.
Este dado está correcto? Ou estou a fazer a interpretação de forma errada?
“O que pode ser traduzido num consumo de eletricidade anual de 1.26 MWh/habitante. “

Michael Russo
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Michael Russo

Boa tarde, não recebia notificações deste post por isso peço desculpa pela resposta atrasada.
Sim, o valor está correto, e conta com uma pessoa estar a carregar o carro quase todos os dias até à sua capacidade máxima durante 1 ano. É uma estimativa conservadora visto que há veículos em que este valor seria bastante maior (na ordem dos 2 MWh/ano).