Joana Ferreira
Joana Ferreira
Investigadora de pós-doutoramento do Centro de Estudos do Ambiente e do Mar (CESAM) e do Departamento de Ambiente e Ordenamento (DAO) da Universidade de Aveiro (UA)

Não podemos deixar de aquecer as nossas habitações, mas podemos atingir esse objetivo de uma forma mais eficiente

O inverno, as lareiras e a qualidade do ar

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Este ano, foi quase de um dia para o outro que substituímos a t-shirt por uma camisola quentinha, e preparámo-nos para enfrentar mais um inverno que chega. Com ele chegam também alguns cheiros característicos… o das queimadas no mato e o das lareiras nas zonas urbanas. 

A queima de biomassa é uma das principais fontes de poluição atmosférica em Portugal, especialmente nas cidades e nos dias frios. 

A arquitetura das zonas urbanas, ruas e avenidas, entre corredores de edifícios altos, impede a dispersão dos poluentes emitidos pelo tráfego rodoviário. Em dias frios e secos, as concentrações de poluentes, com destaque para o material particulado, aumentam devido à combustão para aquecimento doméstico e à ausência de precipitação (que ajuda a “limpar” a atmosfera).

Normas europeias limitam concentração de poluentes

Portugal, como Estado-Membro da União Europeia, tem de cumprir as normas europeias, nomeadamente a legislação de qualidade do ar para a proteção da saúde humana, que obriga a não ultrapassar determinados valores de concentração de poluentes no ar ambiente para evitar riscos para a saúde. 

Se no verão os problemas de poluição estão associados às elevadas temperaturas que levam a aumentos das concentrações de ozono, já no inverno as partículas inaláveis são o poluente mais crítico, especialmente nas noites secas e frias com vento fraco.

E é um facto que esta é a origem da maioria dos episódios de poluição registados nesta altura do ano…  

Investigadores e políticos têm unido esforços no sentido de definir e implementar medidas para reduzir a poluição nas zonas urbanas de forma a garantir o cumprimento da legislação europeia e dos valores-guia recomendados pela Organização Mundial de Saúde para a proteção da saúde humana.

São exemplo a promoção da utilização dos transportes públicos em detrimento do veículo próprio, a limitação da circulação de veículos automóveis anteriores ao ano 2000 (correspondente à denominação EURO 3), a criação das denominadas Zonas de Emissões Reduzidas (ZER), a lavagem das ruas para controlar a ressuspensão de partículas nas vias de tráfego, entre outras. 

Aquecimento doméstico mais eficiente

As estratégias para a redução da poluição atmosférica centram-se essencialmente em medidas associadas ao tráfego rodoviário. No entanto, estudos científicos mostram que para melhorar a qualidade do ar que respiramos nas cidades é também necessário atuar ao nível do aquecimento doméstico. 

Não podemos deixar de aquecer as nossas habitações, mas podemos fazê-lo de uma forma mais eficiente.

Podemos melhorar o isolamento térmico para evitar perdas de calor, substituir as tradicionais lareiras abertas por recuperadores de calor mais eficientes do ponto de vista energético e com menos emissões associadas pelo facto de serem fechados.

Também podemos ser seletivos na escolha do combustível e recorrer à queima de “pellets” (madeira prensada) em salamandras. 

Em Portugal não existe ainda regulamentação para certificação de recuperadores de calor como noutros países da Europa, mas uma pequena percentagem da população portuguesa (menos de 10%) já opta por esta alternativa, que emite menos de metade de material particulado que uma lareira aberta.

Estas soluções são, não só, ambientalmente mais corretas, como também sócio-economicamente mais vantajosas, com benefícios em termos de eficiência energética e saúde pública.

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