Rui Lima
Diretor pedagógico do Colégio Monte Flor e professor do 1º ciclo considerado pela Microsoft, em 2014, como um dos 18 professores mais inovadores do mundo. Autor do Livro “A Escola que Temos e a Escola que Queremos”.

Quem, como eu, trabalha diariamente com crianças bastante jovens, constata facilmente que, hoje, elas são bem diferentes das que tínhamos há relativamente poucos anos. São mais interventivas na vida familiar, revelam maior capacidade de argumentação e devido ao fácil acesso à informação, estão mais sensibilizadas para muitos problemas que não faziam parte das nossas preocupações da infância.

Que Filhos para o Planeta?

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A pergunta “Que Planeta queremos deixar aos nossos Filhos?” é recorrente quando se reflete acerca das nossas ações no presente e de como elas irão impactar a vida das gerações vindouras. No entanto, na qualidade de pais, professores ou meros cidadãos conscientes do mundo que nos rodeia, é importante olharmos para o problema segundo outra perspetiva e colocar também a questão “Que Filhos queremos deixar ao Planeta?”.

O Mundo Mudou

O Mundo atravessa um período de grandes transformações que implicam desafios com os quais a Humanidade terá de lidar a curto prazo ou até mesmo, com os quais já tem de lidar neste momento. Se por um lado, alguns destes desafios como a automação, os avanços na medicina ou a melhoria dos sistemas de comunicação e transporte alimentam em nós a esperança num futuro melhor, muitos outros, como a empregabilidade, o regresso do radicalismo e da intolerância ou o agravamento da qualidade ambiental colocam-nos perante uma situação de emergência em refletir acerca da educação das futuras gerações.

Por sua vez, a Escola atravessa neste momento um período de transformações para dar resposta às exigências de uma sociedade também ela em constante mudança. As competências que se esperam de um indivíduo que entra no mercado de trabalho atualmente são muito diferentes das que se esperavam há duas ou três décadas. A importância que, hoje, a tecnologia assume na vida de todos torna fundamental o desenvolvimento de competências digitais nos alunos, não apenas na utilização de ferramentas e dispositivos, mas essencialmente na interpretação e reflexão acerca dos conteúdos online e na aquisição de conhecimento de fundo em áreas com o Pensamento Computacional, a Programação ou a Inteligência Artificial.

E as crianças? Também mudaram? 

Quem, como eu, trabalha diariamente com crianças bastante jovens, constata facilmente que, hoje, elas são bem diferentes das que tínhamos há relativamente poucos anos. Mas tal não tem de ser considerado forçosamente negativo. As nossas crianças são hoje mais interventivas na vida familiar, revelam maior capacidade de argumentação e devido ao fácil acesso à informação, estão mais sensibilizadas para muitos problemas que não faziam parte das nossas preocupações da infância. No que toca à tecnologia, têm uma enorme facilidade em assimilar a mudança e ainda que nem sempre da forma adequada, usam os dispositivos digitais com grande à vontade.

No entanto, temos uma sociedade extremamente competitiva e consumista, caracterizada por muitas incoerências na Educação das nossas crianças. Se, por um lado, somos hoje bastante protetores, por outro, devido à velocidade a que vivemos, nunca o tempo dedicado aos nossos filhos foi tão reduzido, cabendo aos Tablets e à Internet a tarefa de entreter os mais pequenos. Se por um lado, damos hoje a oportunidade das crianças e jovens serem mais participativos nas decisões familiares, por outro, há uma enorme dificuldade em dizer “não” ou contrariar as suas vontades e desejos. Se por um lado, queremos o seu sucesso na vida, por outro, procuramos cada vez mais fazer por eles aquilo que eles deveriam fazer sozinhos, cortando-lhe por completo a autonomia. Ser por um lado, há uma preocupação, a meu ver excessiva, em defender as crianças do fracasso e da frustração, hipervalorizando tudo o que elas fazem, por outro, as expectativas demasiadamente altas comprometem frequentemente o bem-estar da criança perante o insucesso ou a adversidade. No fundo, queremos a felicidade dos nossos filhos, mas esquecemo-nos de que só sabe o que é a felicidade quem experimenta a frustração, o desalento, a infelicidade.

Tempo de Agir

É por isso urgente uma reflexão por parte de todos nós, sobre estas questões e aproveitar, por um lado, as vantagens que o século XXI nos trouxe, mas também os ventos de mudança que sopram no sistema educativo, de forma a contribuirmos de uma forma efetiva para um mundo melhor, não apenas através de ações concretas para resolver os problemas que enfrentamos, mas principalmente na formação de indivíduos com valores, conscientes do seu papel na sociedade e que sejam capazes de assegurar a continuidade da espécie e mais importante, do planeta. 

Desenvolver o Espírito Crítico, a Capacidade de Reflexão, a Resolução de Problemas, a Colaboração e a Criatividade são ideias que surgem recorrentemente no discurso de quem perspetiva novos cenários para a Educação. Colocar os alunos perante desafios e problemas do Mundo Real, estimulá-los a analisarem o mundo que os rodeia, mas também a olharem para História e para as lições que ela nos tem dado, incentivar a realização de projetos que articulem diferentes áreas podem ser os primeiros passos rumo a uma Escola mais ajustada ao mundo em que vivemos. No entanto, mais importante que tudo isso, acredito que uma Escola que promova estas competências será certamente uma Escola que irá deixar gerações ainda mais responsáveis e conscientes do que aquelas que as antecederam e assegurar o futuro de todos nós.

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