O Relatório Especial do Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas (IPCC) que está a ser divulgado esta segunda-feira, na Coreia do Sul, traz novas evidências sobre o problema do aquecimento global.

O Relatório Especial do IPCC sobre o aquecimento global de 1,5°C é o mais importante relatório de ciência climática da década. Foi solicitado e aprovado por todos os governos do mundo.

O documento acaba por trazer alguma esperança já que refere que muitas das terríveis consequências futuras do aquecimento global podem ser evitadas, se se respeitar o limite do aquecimento global de 1,5ºC.

O relatório também confirma que ainda é possível manter o aumento de temperatura global abaixo deste limite, algo que, todavia, requer uma mudança rápida e de longo alcance em todos os setores da economia.

O Relatório Especial do IPCC sobre o aquecimento global de 1,5°C é o mais importante relatório de ciência climática da década. Ele oferece a avaliação mais abrangente e inequívoca dos impactos do aquecimento global em 1,5°C acima dos níveis pré-industriais, e as medidas necessárias para ficar abaixo deste limiar. “Isso prova, além de qualquer dúvida, que ficar abaixo de 1,5°C irá reduzir significativamente os impactos adversos das alterações climáticas para os países mais pobres e vulneráveis, mas também para todos os países europeus”, esclarece a associação ambientalista Zero que considera que “o relatório especial do IPCC vai influenciar, de forma extremamente importante, a tomada de decisões de política climática internacional, ao nível da União Europeia (UE) e dos países ao longo dos próximos anos”.

Atualmente: 1°C acima dos níveis pré-industriais

O organismo científico mais importante do planeta na área do clima confirmou que o aquecimento geral se encontra, atualmente, 1°C acima dos níveis pré-industriais. Trata-se de um aquecimento que já afeta todos os países e regiões do mundo, tornando os eventos climáticos extremos cada vez mais frequentes e severos.

O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas é uma organização científico-política criada em 1988 no âmbito das Nações Unidas (ONU).

“Os cientistas descobriram que o efeito das alterações climáticas mais do que duplicou a probabilidade de graves prejuízos, devido à severa onda de calor que afetou este ano a Europa e outras regiões do mundo. Estes eventos extremos mostram que as alterações climáticas não são algo que acontece apenas fora da Europa ou num futuro distante, mas afeta todos aqui e agora”, comentam a Zero.

O IPCC mostra que os prejuízos futuros dependerão muito da rápida redução das emissões de carbono e, portanto, do nível de aquecimento que podemos evitar no futuro.

“As ondas de calor semelhantes às testemunhadas durante o verão deste ano, mas também a ocorrência de grandes fogos florestais, chuvas fortes, inundações e tempestades são esperados e serão cada vez mais frequentes e prejudiciais, se as temperaturas globais continuarem a subir. Qualquer nível de aquecimento traz impactos adversos, mas existe uma diferença substancial entre os limiares de aumento de temperatura de 1,5°C e de 2ºC, e temperaturas para além de 3°C, o caminho atual em que o planeta se encontra”, alertam os ambientalistas da Zero.

Para esta associação, “o relatório do IPCC constitui um forte argumento para manter o aumento de temperatura abaixo de 1,5°C, trazendo evidências de que muitas das consequências nefastas do aquecimento futuro podem ser evitadas, respeitando este limite”.

Meio grau faz toda a diferença

Pode um aumento de meio grau de temperatura fazer toda a diferença? Sim, respondem os cientistas. “Manter o aquecimento global abaixo de 1,5°C significa uma diminuição das pessoas expostas a ondas de calor, chuvas fortes, secas, tempestades e inundações. O limiar de 1,5°C irá poupar a maioria das espécies de plantas e animais das consequências das alterações climáticas. Comparado com o limiar de 2°C, manter o aquecimento global abaixo de 1,5°C significará que o aumento do nível do mar poderá ser 10 cm abaixo do esperado até 2100, poupando as habitações de milhões de pessoas que vivem em zonas costeiras ou ilhas”, declara a Zero.

Qualquer nível de aquecimento traz impactos adversos, mas há uma diferença substancial entre os limiares de aumento de temperatura de 1,5°C e de 2ºC, e temperaturas para além de 3°C, o caminho atual em que o planeta se encontra

Mais, advertem os ecologias: “O limiar de 1,5°C também significa ser possível evitar uma cascata de pontos de rutura, tais como a perda de gelo polar, o que traria mudanças abruptas e irreversíveis para a sobrevivência. Poderia ainda reduzir de forma significativa os riscos, especialmente para os países com menos recursos económicos e as comunidades que vivem na pobreza, e que estão na linha de frente das alterações climáticas. Para muitos deles, é a diferença entre a vida e a morte. 2°C já não pode ser considerado como um limite de segurança ou aceitável”.

Ondas de calor

Segundo Francisco Ferreira, responsável da associação Zero, “manter o aquecimento global abaixo de 1,5°C é um objetivo no melhor interesse de todos os europeus. Sendo um continente densamente povoado, os últimos verões quentes com ondas de calor atingiram a Europa com picos nas taxas de mortalidade. Se o aquecimento global se mantiver entre os 2°C e 1,5°C, significaria que menos europeus seriam expostos ao calor extremo, reduziria os riscos de seca, escassez de água e de alimentos na Europa Central e na região mediterrânica. Nos Alpes e na região boreal, ajudaria a evitar mudanças dramáticas para o ambiente natural, as pessoas que habitam estas regiões, o comércio e a indústria. Manter o aquecimento global abaixo de 1,5°C também irá reduzir significativamente as consequências das alterações climáticas em todos os setores da sociedade e da economia”.

Perda de vidas

Para a associação zero, “as alterações climáticas poderão levar à perda de vidas e meios de subsistência, diminuir o acesso a água potável e alimentos, ameaçar o turismo, prejudicar a saúde, causar prejuízos à indústria, produção de energia e infraestruturas de transportes, limitar o crescimento económico, causar extinções em massa de espécies e contribuir para a pobreza, os conflitos e as migrações. As alterações climáticas já estão a forçar milhares de pessoas a deslocarem-se de suas casas e limitar o aquecimento global a 1,5°C irá minimizar o risco de migrações no futuro”.

Mudança necessária para um futuro mais seguro

Na opinião de Francisco Ferreira, a manutenção do aquecimento global abaixo de 1,5°C requer uma mudança sem precedentes, rápida e de longo alcance, em todos os setores de atividade (energia, uso do solo, urbano e indústria).

“Ainda é possível, mas somente se os decisores políticos agirem agora. O objetivo 1,5°C não deixa espaço para atrasar a ação. Precisamos de fazer a transição da mudança incremental para a mudança transformacional. Essa tarefa pode ser esmagadora às vezes, mas o relatório do IPCC traz esperança. É possível criar um futuro mais seguro e próspero, se trabalharmos juntos para repensar a forma como organizamos as nossas sociedades”, aponta o presidente da Zero.

Fontes renováveis

Segundo os ambientalistas, “é preciso fazer mais do que já está provado que funciona, o que significa passar para um sistema de energia 100% renovável, acelerando a substituição de toda a energia poluente, começando com o carvão, pelas fontes de energia renovável mais sustentáveis, como a eólica e a solar. Significa intensificar os investimentos em eficiência energética, produção industrial e consumo mais limpos, parar imediatamente os investimentos em infraestruturas baseadas em combustíveis fósseis para os setores da produção de energia e transportes, e proteger e restaurar ecossistemas naturais, como as florestas”.

Estilo de vida terá de ser alterado

Refere a Zero que “também serão necessárias mudanças profundas de estilo de vida, incluindo a alteração para uma dieta mais saudável e equilibrada e usar modos de transporte mais limpos. Será necessário ir além da dependência de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) para novas políticas económicas que criam bem-estar para todos, respeitando os limites do planeta”.

Para Francisco Ferreira, “os benefícios são muito superiores aos custos. Para além de evitar um desastre climático, o investimento na ação climática constitui uma grande oportunidade para a economia europeia e para os seus cidadãos. Será possível modernizar o sistema de transportes e produção de energia, melhorar a independência energética, despoluir o ar, melhorar o uso do solo, criar empregos e tornar as cidades mais limpas, mais seguras e mais sustentáveis. Irá formar uma base sólida para a prosperidade partilhada e a estabilidade financeira, e contribuir diretamente para a realização dos objetivos do desenvolvimento sustentável”.

Caminho difícil

De acordo com a Zero, “há um forte impulso para manter o aumento da temperatura abaixo de 1,5°C, o que nos dá esperança para um futuro melhor. As empresas europeias, grupos de investidores, autoridades locais e regionais e grupos da sociedade civil estão na linha da frente, convidando os líderes da UE para acelerar a transição para uma Europa de carbono zero em linha com o limite de 1,5°C. É o momento de exortar os líderes políticos a agir, seja através de manifestações públicas ou ações legais. Cada vez mais os líderes da UE e de outros países estão a trabalhar juntos para colocar o mundo num rumo compatível com 1,5ºC. Existem sinais por todo o mundo de que uma transição global de energia está no bom caminho e imparável: no desenvolvimento das energias renováveis, no declínio do carvão ou no aumento da ação climática liderada pelas cidades, regiões, comunidades locais, investidores e empresas”.

O caminho, no entanto, não se avizinha fácil, até porque – recordam os ecologias – o Acordo de Paris, adotado em 2015, “aumentou a ambição para os objetivos globais de temperatura e comprometeu todos os países a prosseguir os esforços para limitar o aumento da temperatura em 1,5°C. Mas as contribuições apresentadas nas conversações de Paris, incluindo o compromisso da UE de reduzir as emissões em pelo menos 40% até 2030, só iria manter o aquecimento global em cerca de 3°C, na melhor das hipóteses. O relatório do IPCC mostra que, se as emissões continuarem a seguir a tendência atual, o aumento de temperatura será superior a 1,5°C, por volta de 2040”.

O ritmo das reduções de emissões, na próxima década, será determinante para manter o aquecimento global abaixo ou acima de 1,5ºC

O que há, então, a fazer? “Os países devem comprometer-se, até 2020, a fortalecer as suas metas climáticas, a atingir em 2030, para manter o aquecimento global abaixo de 1,5°C. O relatório do IPCC mostra que o ritmo das reduções de emissões, na próxima década até 2030, vai fazer ou quebrar as perspetivas de manter o aumento da temperatura abaixo de 1,5°C. Os governos do mundo, incluindo a UE, solicitaram um relatório especial do IPCC em Paris, e agora devem utilizar as suas descobertas para se comprometerem a intensificar os seus objetivos climáticos, o mais tardar na COP24. Alguns Estados-Membros da UE, como a Holanda e a Suécia, apelaram recentemente para que a meta climática da UE em 2030 fosse aumentada para, pelo menos, 55%”, lembra Francisco Ferreira, presidente da Zero – Associação Sistema Terrestre Sustentável.

Estratégia europeia em novembro

Na Europa, os ambientalistas afirmam que estarão atentos à estratégia climática de longo prazo, a ser apresentada em novembro, pela Comissão Europeia, esperando que esse plano reflita “a urgência da ação consagrada no relatório do IPCC, consistente com o limite de aquecimento global de 1,5ºC do Acordo de Paris e estimular a transformação da sua economia em grande escala”.

Para o líder da Zero, “os líderes europeus têm uma janela de oportunidade, ainda que esta possa fechar rapidamente, para mostrar a sua liderança, combinando ação climática da UE com a escala do desafio”.

Para os ambientalistas, “a UE também precisa aumentar o seu apoio financeiro para a adaptação nos países mais pobres e mais vulneráveis que já estão a sofrer os impactos das alterações climáticas. Apoiar a adaptação climática é efetivamente apoiar a sua sobrevivência e capacidade de prosseguir um desenvolvimento próspero e sustentável”.

Portugal tem de ir mais além

Francisco Ferreira, presidente da Zero, considera que “o relatório reforça a necessidade de cada um dos países, incluindo Portugal, ir muito mais além e mais depressa em relação ao atualmente previsto. O roteiro para a neutralidade carbónica em 2050 que o governo está a preparar é uma oportunidade única que tem de ser concretizada pelos próximos governos, num consenso alargado de todas as forças políticas e assumido por toda a sociedade. Portugal é dos países europeus mais afetados pelas alterações climáticas e não pode falhar uma transição para 100% de energias renováveis e uma rápida descarbonização dos transportes, entre outras medidas”.

Cimeira do Clima das Nações Unidas

Na véspera da reunião dos ministros do ambiente da UE que terá lugar a 9 de outubro no Luxemburgo, na qual se espera que seja adotada a posição da UE na próxima Cimeira do Clima das Nações Unidas (COP24), Wendel Trio, diretor da Rede Europeia para a Ação Climática (CAN-Europe) de que a Zero faz parte disse: “A ciência trouxe-nos uma mensagem de urgência e esperança. Este relatório traz ao mundo uma réstia de esperança: de que ainda temos uma possibilidade de manter o aquecimento global abaixo de 1,5°C, com as soluções que estão ao nosso alcance e que irão ajudar a construir uma Europa mais segura, mais próspera”.

A próxima Cimeira do Clima das Nações Unidas (COP24) realiza-se de 3 de dezembro de 2018 a 14 de dezembro.

Wendel Trio acrescenta: “Os cientistas do IPCC estão a enviar esta forte mensagem, em antecipação da mais importante cimeira climática global, a COP24 que irá decorrer em Katowice ainda este ano, onde se espera que os governos se comprometam a intensificar os seus objetivos climáticos. Todos os olhos estão agora sobre os Ministros do Ambiente da UE, dos quais os cidadãos esperam uma ação firme sobre os avisos do IPCC e o compromisso de aumentar significativamente o objetivo de redução das emissões de gases com efeito de estufa da UE em 2030 bem além dos 45%, em linha com as recomendações do IPCC sobre o caminho necessário para atingir o limiar de 1,5°C. Para manter o aquecimento global abaixo dos 1,5°C, significa que a Europa tem de reduzir drasticamente as suas emissões domésticas para atingir emissões líquidas zero até 2040, e isso precisa ser refletido na nova estratégia climática de longo prazo da UE”.

Síntese do sumário para decisores do relatório especial do Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas (seleção da responsabilidade da Zero que aqui reproduzimos)

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