O município de Leiria aprovou um plano concelhio de adaptação às alterações climáticas, passando a ser a segunda câmara do país com um documento de natureza científica que identifica riscos e aponta medidas de ação para minorar os impactos dos fenómenos climatéricos extremos resultantes do aquecimento global.

Participaram no processo os vários setores/parceiros do desenvolvimento local através da realização de workshops para disseminação de informação e recolha de contributos.

O Plano Municipal de Adaptação às Alterações Climáticas de Leiria (PMAAC-L), que ainda será submetido à Assembleia Municipal de Leiria mas que o Watts On já disponibiliza na íntegra aqui, foi desenhado “tendo por base o conhecimento climático do concelho, nomeadamente da sua diversidade climática, a análise das vulnerabilidades atuais e futuras, a análise da vulnerabilidade territorial e a identificação dos territórios vulneráveis prioritários, de que resulta a definição de medidas de adaptação tanto de nível geral, setorial e territorial, como de carácter específico para os territórios vulneráveis prioritários”, explica a autarquia.

Nesse contexto, o PMAAC-L identifica as principais ameaças que o município de Leiria enfrenta, como o aumento da média da temperatura do ar, a diminuição do nível de precipitação, em especial no outono, primavera e verão com fenómenos extremos associados, e ainda secas mais frequentes e severas e subida do nível do mar.

As alterações climáticas são identificadas como uma das maiores ameaças ambientais, sociais e económicas que o planeta e a humanidade enfrentam

No documento elaborado foi desenvolvida uma visão adaptativa do concelho às alterações climáticas, tendo sido definidos objetivos estratégicos e identificadas vulnerabilidades climáticas prioritárias.

De acordo com os estudos de previsão climática desenvolvidos no âmbito deste PMAAC Leiria, as principais alterações projetadas nas variáveis climáticas para o território concelhio, para meados e final do presente século são as seguintes:
» Aumento da temperatura média anual do ar;
» Aumento da temperatura máxima em todas as estações, mas sobretudo no outono e no verão;
» Aumento da temperatura mínima em todas as estações, mas sobretudo no outono e no verão;
» Aumento do número de dias muito quentes;
» Aumento do número de noites tropicais;
» Diminuição da precipitação total;
» Redução da precipitação na primavera, no verão e no outono;
» Aumento da precipitação no inverno;
» Redução do número de dias com precipitação;
» Secas mais frequentes e severas.

Mais dias de calor em Leiria

Num cenário mais pessimista de aumento da temperatura, para o período 2041-2070, Leiria poderia enfrentar aumentos de temperatura de 1,7ºC (planície e plataforma litoral; e colinas) e 1,8ºC (vales do Lis e do Lena; e serras). No período 2071-2100, os termómetros na zona de Leiria podem subir 3º C (planície e plataforma litoral), 3,1º C (colinas e vales do Lis e do Lena) e 3,2ºC (serras).

O outono será a estação do ano onde a subida das temperaturas se sentirá com mais intensidade: mais 2,1 ºC a 2,2 ºC (período 2041-2070) e 3,5º C a 3,7º C (2071-2100). A estação com o segundo aumento mais acentuado será o verão.

Sabia que…
a comunidade científica defende que Portugal se encontra entre os países europeus com maior vulnerabilidade aos impactes das alterações climáticas?

“À escala anual, a frequência de dias de calor irá aumentar significativamente ao longo do século XXI”, aponta a análise, com esse aumento a ser repartido pelo verão, outono e primavera.

À escala anual, até ao final do século e num cenário mais conservador, o aumento da frequência de dias de verão é de 21 a 25 dias, na planície e nas colinas, e de 30 a 31 dias, nos vales e nas serras do concelho. Num cenário mais pessimista, esse aumento é muito superior, podendo registar-se mais 55 a 60 de dias de verão do que durante o período histórico atual, esbatendo-se a diferenciação entre as várias zonas do conselho.

Os dias muito quentes verão a sua frequência também aumentar, “incremento que ocorrerá essencialmente no verão e, em muito menor proporção no outono”, explica o documento.

Redução da precipitação

Face às condições médias do período 1971-2000, o estudo perspetiva que, no final do século, a redução da precipitação total anual para o conselho de Leiria seja de -14 a -18%, no pior cenário.

Quanto à distribuição sazonal da precipitação, é projetada uma redução da precipitação na primavera, no verão e no outono.

A redução do número de dias de precipitação em termos anuais poderá corresponder a um decréscimo que, em meados do século, será entre -9 a -12 dias (cenário moderado) ou entre -6 e -14 dias (cenário menos conservador).

Impactos negativos…

O estudo elenca ainda os possíveis impactos e vulnerabilidades climáticas futuras para o conselho de Leiria. São os seguintes:

… e oportunidades

“Não obstante a provável ocorrência destes impactos negativos resultantes (ou agravados) das alterações climáticas, é possível também identificar uma série de impactos positivos decorrentes direta e indiretamente das alterações climáticas, que devem ser considerados como oportunidades para o desenvolvimento futuro do concelho”, é afirmado no documento. Neste sentido, sintetizam-se também os principais impactos positivos futuros para o concelho de Leiria associados às alterações climáticas:

Identificados oito territórios vulneráveis

Considerados todos os aspetos, o documento identifica para o concelho de Leiria um total de oito territórios vulneráveis:

  • Cidade de Leiria – Centro Histórico
  • Cidade de Leiria – Sismaria/Quinta do Alçada
  • Praia de Pedrógão
  • Ponte das Mestras
  • Monte Real
  • Aproveitamento Hidroagrícola do Vale do Lis
  • Interior / Serra
  • Pinhal Litoral – Matas Nacionais

Ações previstas

Para estes oito territórios vulneráveis quais foram delineadas 22 medidas de ação, 103 linhas de intervenção e 54 ações prioritárias, que o município pretende passar para a prática, através de duas linhas de atuação – a mitigação e a adaptação.

A mitigação é o processo que visa reduzir a emissão de gases com efeito de estufa para a atmosfera. A adaptação é um processo que procura minimizar os efeitos negativos dos impactes das alterações climáticas nos sistemas biofísicos e socioeconómicos e potenciar os efeitos positivos.

Essas medidas podem ser consultadas no documento, essencialmente a partir da sua página 249 (que corresponde à página 251 do ficheiro pdf).

Neste sentido, recomenda-se a criação de um Conselho Municipal de Adaptação às Alterações Climáticas, um órgão consultivo e de apoio ao município de Leiria, que terá como missão assegurar o envolvimento das entidades que acompanharam a elaboração do plano e monitorizará a implementação das medidas preconizadas.

 

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