Ontem, para assinalar o dia 1 de Abril, publicámos uma notícia sobre um projeto de um EV desportivo que existe apenas no papel.

Muitos dos nossos leitores identificaram de imediato a brincadeira e um dos principais motivos para tal é a falta de credibilidade geral dos projetos deste tipo. Somos um país de sonhadores, com muitos entusiastas de veículos e, desde tempos imemoriais, vários tentaram lançar o seu próprio veículo.

Já experimentamos quase todas as possibilidades, desde veículos artesanais que adaptavam componentes de outros fabricantes, a outros mais elaborados, com importante incorporação nacional.

Casos de sucesso são muito raros e podemos apontar a indústria de produção de bicicletas e motociclos da região de Águeda como provavelmente o mais bem sucedido, sobretudo no período pós-Guerra até ao final dos anos 70.

Experiências que deram frutos

Nos automóveis, os resultados da Lei da Montagem de 1963 permitiram uma atividade industrial contínua até meados dos anos 80 e o desenvolvimento de clusters industriais que ainda se mantêm muito ativos, particularmente na região de Setúbal e de Viseu, respetivamente com as fábricas da Volkswagen em Palmela e da PSA em Mangualde.

Nos veículos pesados, a fábrica da Mitsubishi Fuso Trucks no Tramagal continua uma tradição de muitas décadas na região, que teve momentos de importante criatividade nacional, tecnológica e comercial. Este polo industrial está na vanguarda da produção de veículos elétricos, com o camião elétrico Fuso eCanter já em produção.

A Caetano Bus é outra importante referência, desta feita, nos autocarros, com importante historial na mobilidade elétrica. Tem certamente reservado um papel muito importante na mobilidade dos centros urbanos, tendo previsto entregar algumas unidades do seu autocarro elétrico e.City Gold em várias cidades portuguesas. Entretanto, Guimarães já tem o seu, como pode ler aqui.

A espaços houve outras histórias promissoras. Nos automóveis desportivos existiram dois picos de interesse. O primeiro foi no final dos anos 30, com o projeto Edfor, de Eduardo Ferreirinha. Possuía mecânica Ford, mas tinha uma carroçaria e soluções técnicas muito originais. Dos cinco exemplares que teriam sido produzidos, há registo de apenas dois.

A competição foi um grande incentivo

No princípio dos anos 50, surgiram diversos pequenos automóveis de competição, que adotaram mecânica de modelos de produção da Fiat, Simca, Peugeot, Borgward e Panhard. Com carroçarias bonitas e muita criatividade, quase todos se desvaneceram em meados dos anos 50.

Provando que não há impossíveis, um destes projetos, o Alba, fabricado em Albergaria-a-Velha, desenvolveu mesmo o seu próprio motor, uma iniciativa inédita até então.

A seguir foi preciso esperar até aos anos 80 para voltarmos a ter um projeto de mobilidade português com visibilidade. Tratou-se do Sado 550, um veículo citadino de dois lugares, com uma qualidade de concepção e execução fora do vulgar. Dificuldades no desenvolvimento e sobretudo na implementação do processo de fabrico fizeram o Sado 550 perder a sua janela de oportunidade, que lhe poderia ter dado sustentabilidade.

Na mesma altura, o Entreposto Comercial produziu os utilitários comerciais Sado furgão e Pick-up, com mecânica do Datsun 1200, de reduzida difusão. A GM produziu o Opel Amigo, com motor do Opel Kadett.

A União Metalomecânica (UMM) e os Portaro tornaram-se também nomes importantes na história da indústria automóvel nacional.

Os Veículos Elétricos trazem outra oportunidade

Durante muitos anos, o isolamento do nosso mercado acabou por ser o principal obstáculo para que projetos de veículos não apresentassem viabilidade.

Atualmente, sobretudo no âmbito dos veículos elétricos, com muitos dos componentes necessários disponíveis em quantidade, parece que poderia ser mais fácil o surgimento de novas ideias.

Além disso, não podemos esquecer que temos uma indústria de fornecedores de componentes para os principais construtores, aliada a formação técnica de excelência, de norte a sul do país.

Veeco e Famel

Certamente que nunca dispusemos de condições tão boas para produzir veículos Made in Portugal. E, no entanto, contamos com um número de projetos recentes muito reduzidos, onde se destacou, nos últimos anos, o pequeno desportivo Veeco, que resultou de um consórcio entre a VE Lda. e o Instituto Superior de Engenharia de Lisboa (ISEL). Neste momento, já existe mesmo a empresa Veeco, que prepara o seu regresso, com Quartel-General em Cerzedo, Vila Nova de Guia.

O outro diz respeito ao regresso da Famel, com a sua primeira moto elétrica em fase de prototipagem e testes.

A dificuldade de financiamento para estes projetos parece ser a barreira final para o sucesso, mas também aqui estamos provavelmente num momento de viragem.

Numa nota final, o Watts On não está ainda envolvido em qualquer projeto de produção de um veículo elétrico, mas gostava de poder ajudar a divulgar todas as iniciativas do género.

Desde esboços e ideias a projetos mais sustentados e com potencial de industrialização, porque acreditamos num futuro em que os sonhos se tornam realidade.

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