O relatório sobre “Ciência e tecnologia em Portugal”, da autoria de Armando Vieira e Carlos Fiolhais, e publicada em 2015 pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, destaca o facto de Portugal ser, “apesar da sua relativa pequenez, um país geograficamente bastante desigual, com fortes contrastes entre o litoral e o interior, entre o Norte e o Sul, entre o continente e as ilhas.

Também a rede de I&D exibe essa desigualdade”. Por isso, quando tivemos conhecimento de que, no interior do país, em pleno coração da Serra da Estrela, havia uma empresa de referência no domínio da domótica, fizemo-nos à estrada para a conhecer.

Fomos a Gouveia, concelho do distrito da Guarda, entrevistar Luís Jorge Pinto, CEO e fundador da Ioline, IOLine, empresa dedicada às casas inteligentes designada Mordomus.

A particularidade desta firma está no facto de se encontrar mesmo a montante do processo de domótica: desenvolve hardware e software para casas inteligentes, concebendo soluções específicas à medida de cada cliente. Tudo com engenharia portuguesa. Tudo “know-how” “Made in” Gouveia.

Luís Pinto calcula que, só desde 2007, tenham sido instaladas em cerca de 11 mil casas portuguesas equipamentos com a assinatura da Mordomus.

Países com dispositivos Mordomus são inúmeros indo desde Israel, Canadá ou França até Itália, Hungria ou Angola. Isto só para citar alguns.

“Não somos instaladores. Para isso temos uma rede de instaladores que fazem essa tarefa de instalação. Somos, isso sim, fabricantes de domótica, de hardware e de software”, explica Luís Pinto.

O desenvolvimento do hardware e do software é feito localmente, em Gouveia, num laboratório de acesso restrito. Também o próprio design industrial das peças nasce em Gouveia. Já a produção em série dos produtos é efetuada em regime de outsourcing: as placas PCB (Printed Circuit Boards ou Placas Circuito Impresso) são produzidas na China, vindo as encomendas dos componentes eletrónicos destinados a serem colocados nas placas PCB (e uma destas “placas verdes” inteligentes pode ser facilmente composta por 500 componentes) de diferentes locais, consoante as necessidades.

Novamente, em outsourcing, é o “casamento” das placas PCB com os seus respetivos componentes eletrónicos, o qual é feito em Braga (produtos destinados à Europa) e no México (para os produtos para exportação para a América Latina). Por fim, “em Gouveia são efetuadas as últimas etapas do processo: a programação, os testes de qualidade (alguns dos quais são realizados durante 48 horas contínuas) e o embalamento”.

De Gouveia para o mundo
Luís Jorge Pinto é o CEO e fundador da IOLine. Natural de Angola, onde nasceu em 1973, veio ainda criança morar para Gouveia, onde fez todo o seu percurso académico, com exceção da formação superior, como engenheiro de eletrónica e de automação, realizada no Reino Unido.

Quando regressou a Portugal, a sua ideia era investir num produto novo. E assim surge a aposta na domótica e a criação da Mordomus. Esta empresa Mordomus tem a sua sede em Gouveia desde a sua fundação, em 2003.

À medida que se foi expandindo abriu delegações em Braga e Lisboa e internacionalizou-se, marcando presença na Colômbia (em Barranquilla), México (em Querétaro), Alemanha (em Dusseldorf) e Espanha (em Vigo). Em 2015 foi adquirida em 40% por uma SGPS, a IVV SGPS, uma empresa de inovação, vídeo-vigilância e segurança eletrónica.

“Desde o princípio de 2018 começámos a usar uma nova tecnologia, mais barata, com mais características e de maior facilidade de instalação que designamos de iThink”.

A IOLine emprega 60 pessoas, 16 das quais em Gouveia. “Muitas das ideias e soluções que desenvolvemos são inspiradas em tecnologias presentes no mundo automóvel”, adianta este gestor.

Tudo controlado por um smartphone
Luís Pinto recebeu-nos em Gouveia, no seu escritório, cujas instalações são também inteligentes. Luís Pinto demonstrou-nos, de resto, como, a partir do seu smartphone, consegue gerir a temperatura e o débito do ar condicionado das diferentes divisões da sede, abrir e fechar os portões da garagem e do acesso ao edifício, acender e desligar as diferentes lâmpadas, ligar ou desligar o sistema de som ou multimédia na casa ou ainda a abertura ou fecho de janelas ou estores, entre outras funções.

“Numa casa inteligente, qualquer equipamento deve ser controlado todo pela mesma app. Através de uma única app, o utilizador pode fazer tudo, pois tudo está interligado e em comunicação”, sublinha o diretor da Mordomus.

Mas se este tipo de controlo à distância com o telemóvel é aquilo que mais prende a atenção de quem está a assistir a uma demonstração de domótica, há, porém, outras virtudes que a domótica representa para os seus utilizadores e que se relaciona com a existência de soluções ao nível de controlo energético, as quais proporcionam ganhos financeiros que ajudam a amortizar o investimento feito.

“A redução de consumo de gás, eletricidade e gás obtida com a gestão feita por uma casa inteligente é na ordem dos 30%” – Luis Pinto

O CEO da Mordomus reforça a sua ideia: “As pessoas têm de sentir que a domótica que compraram se autojustifique em termos de uso, para além de ser um conforto, um luxo e um gadget. Têm de sentir que têm um retorno do seu investimento e o dinheiro que gastaram se dissolve na utilização”.

Este engenheiro afirma que uma casa inteligente “cria estatísticas dentro do sistema que lhe permitem criar políticas de consumo energético de modo a que se reduza o desperdício, o acidente e a má utilização de eletricidade, gás e água. Isso é conseguido através da tecnologia que integra todos os equipamentos”.

Um exemplo prático: “Se alguém vai de férias e recebe a informação de que está a haver um consumo de água quando não há lá ninguém pode perceber que uma torneira ficou mal fechada e evitar esse desperdício que daí resultaria”.

Energeticamente eficientes
O responsável da Ioline e da Mordomus acrescenta outras virtudes a uma casa inteligente, para além de “muito mais eficiente” em termos energéticos: “Tem de ser adaptável à constante evolução dos interesses do cliente e dos equipamentos que os clientes vão adquirindo ao longo da vida da casa”.

E depois há o imperativo argumento financeiro: “O projeto da domótica também tem de custar menos de 2% do valor da casa para ser apelativo”. E de quanto estamos a falar em termos de investimento? “Equipar uma moradia T3 com domótica ronda os 4 mil euros”.

Casas em construção ou existentes
O CEO da Mordomus — ele próprio reside numa habitação inteligente — explica que as soluções de domótica criadas pela sua firma tanto podem ser introduzidas em casas existentes, como em casas em construção. “A solução ideal para a domótica é trabalharmos numa casa nova. Mas nota-se um crescimento da procura de soluções inteligentes para casas existentes, as quais já representam cerca de 30% das aplicações. E acreditamos que esta percentagem ainda crescerá”.

Vida mais facilitada
Na visão de Luís Pinto, a domótica “não deve ser vista como algo que atrapalha ou que complique”, mas sim “algo com que se convive e para nos servir”. Um exemplo prático de uma casa inteligente ocorre quando o seu proprietário chega de carro, faz sinal de luzes e o sistema reconhece que se trata do automóvel correto, abrindo o portão e as luzes da garagem: “A pessoa não anda à procura de comandos, nem entra às escuras na garagem”, realça este gestor.

A inteligência associada à casa permite que haja igualmente uma maior racionalidade na utilização de cada equipamento. Luís Pinto dá outro exemplo:

“Numa casa não inteligente, um sensor de movimento tem apenas uma função, a de fazer disparar um alarme. Numa casa inteligente, um sensor de movimento tem múltiplas funções”.

“Pode também detetar se há algum intruso (acionando o alarme), mas vai mais além: deteta se há alguém presente na sala (para ligar as luzes), deteta a não ocupação (desligando a climatização), mede a temperatura e a luz (para tomar decisões quanto à iluminação e climatização), controla qualquer equipamento por infravermelhos presente nessa divisão (como ar condicionado ou televisão, por exemplo)”.

O CEO da Mordomus refere ainda que uma intervenção para dotar uma casa de inteligência passa, por exemplo, por “permitir controlar qualquer coisa na casa, através de um comando de televisão, usando teclas que estão por usar”.Cliente-tipo é cada vez mais novo
Luís Pinto identifica o perfil do cliente de domótica como sendo maioritariamente do litoral e “cada vez mais novo” que procura este tipo de solução para a “primeira habitação”. Este gestor declara que “houve uma altura em que a aplicação preferencial da domótica recaia em moradias. Mas os apartamentos estão já a ganhar terreno”.

Com base na experiência acumulada nesta área, este gestor identifica algumas diferenças no cliente-tipo da América Latina, onde também comercializa as soluções da Mordomus, relativamente a Portugal: “Aí, quem procura a domótica são já os construtores para valorizarem os seus projetos. Nesse aspeto e por estranho que pareça, o construtor da América Latina é mais evoluído, procurando a diferenciação dos produtos imobiliários que vendem”.

Kits de domótica e consultoria
Em termos de evolução da empresa, Luís Pinto criou uma domótica “do it yourself com a intenção de que qualquer pessoa pode comprar um equipamento e instalá-lo”. Esta inovação não deverá, porém, ser introduzida em Portugal. O responsável da Mordomus mostra-se reticente em fazê-lo no mercado nacional devido à possibilidade da ideia ser mal acolhida por parte dos instaladores deste género de equipamentos.

Um caminho por onde esta empresa de domótica irá avançar entre nós, de acordo com o Luís Pinto, é a implementação de um “conceito Mordomus”, que consiste num serviço de consultoria à habitação, com sugestão de equipamentos e a sua melhor localização. “Esse tipo de aconselhamento será prestado pelos instaladores com quem trabalhamos que no país todo são cerca de 70”, explica o CEO da firma.

Aposta na formação
“Faço gosto em estar no interior”, aponta este gestor. De resto, sendo quase natural de Gouveia e atendendo a que frequentou o ensino secundário nesta cidade da Serra da Estrela, Luís Pinto decidiu há cerca de dois anos fornecer aos alunos de eletrónica da Secundária de Gouveia uma “Sala Mordomus”. “É uma sala composta por quatro salas simuladas para formação. Foi apadrinhada por nós”.

Entraves ao desenvolvimento da domótica
De acordo com o responsável da Mordomus, “a domótica depara-se com um grande entrave na sua cadeia de produção e consumo. Esse entrave situa-se entre quem faz e quem compra a domótica que é o desconhecimento que há nas entidades intermediárias, ou seja, arquitetos, projetistas e eletricistas”.

Luís Pinto desenvolve a sua ideia: “A falta de historial de conhecimento dos clientes é uma das barreiras ao negócio. Mas o maior é mesmo a falta de abertura por parte dos intervenientes da construção da casa, pois são excessivamente conservadores e têm medo da mudança”.

Luís Pinto afirma também que “as pessoas não sabem bem o que é a domótica – pensam que os alarmes e a videovigilância são domótica”. O CEO da Mordomus aponta que a domótica tem de ser vista como um todo na casa. “Inclui tudo que se pensa que é a domótica (como iluminação, videovigilância ou porteiro eletrónico), mas é bastante mais do que isso, passando também pela interligação da moto, do telefone, do automóvel, do alarme, dos hábitos, do estudo lumino-técnico e da ergonomia da casa”.

Aceitação tem crescido
Não obstante todas as dificuldades, este especialista em casas inteligentes, assume que a “curva de aprendizagem e a aceitação da domótica está já a ser maior. O mercado a nível nacional está a crescer”. Para isso tem contribuído o fator do passa a palavra: “Um produto vende-se porque um outro produto se vendeu em primeiro. E isso tem ajudado bastante. O que nos acontece e joga a nosso favor é que o cliente final vai pedir ao eletricista para montar aquele produto específico que viu exposto numa feira”.

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