As cidades inteligentes (Smart Cities) configuram aquilo a que qualquer centro urbano aspira: ser ambientalmente sustentável, com processos geridos de forma eficiente e que faz uso dos sistemas de informação com um único propósito: melhorar a qualidade de vida dos seus habitantes.

Este cenário idílico – que, há algumas décadas, dificilmente alguém ousaria associar a uma metrópole, com os seus problemas de poluição, sobrelotação e engarrafamentos –, está, porém, agora mais perto do que nunca. Múltiplas cidades, incluindo portuguesas, estão já a apostar no conceito Smart City para tornar os seus cidadãos mais felizes.

Na definição da União Europeia, as Smart Cities “são um misto de capital humano e tecnologia que tem por objetivo uma melhoria no desenvolvimento de uma cidade de forma sustentável. As Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC) são utilizadas para viabilizar o crescimento económico e uma melhoria na qualidade de vida, uma boa gestão de recursos naturais e energéticos, com participação do Estado”.

Nalguns casos, há mesmo cidades noutras latitudes do globo a serem construídas de raiz segundo este conceito que encerra um segredo: fazer tudo de modo inteligente. Da mobilidade à gestão dos resíduos urbanos. Tendo a tecnologia como aliada.

Esta “coligação” de tecnologia e urbanização nas Smart Cities leva a que haja pessoas que empregam outro termo como equivalência das cidades inteligentes: Cidade Ubíqua, referindo-se à existência de computadores interligados entre si e presentes em todos as partes e domínios, integrando-se às atividades humanas.

A introdução da inteligência artificial e da racionalidade de procedimentos são, atualmente, vistos como pedras basilares para o desenvolvimento sustentável, movimentando um mercado global de soluções tecnológicas que é estimado rondar os 408 mil milhões de dólares até 2020. E se esta previsão falhar será, garantidamente, por defeito.

Para o americano Boyd Cohen, guru em urbanismo, as Smart Cities são as que conseguem desenvolver-se economicamente ao mesmo tempo que aumentam a qualidade de vida dos habitantes ao gerar eficiência nas operações urbanas.

Uma simples App para fornecer informações sobre a frequência de circulação dos autocarros é um exemplo do uso da tecnologia para melhorar a infraestrutura urbana. E embora seja muito simples, é, porém, um exemplo do tipo de funcionalidades – pensadas no bem-estar das pessoas e alicerçadas na tecnologia – que uma cidade inteligente pode oferecer aos seus habitantes.

No entanto, quando falamos em cidades inteligentes não é em App destas que pensamos (elas, na realidade quase que funcionarão como a ponta do iceberg de alguns serviços disponibilizados). O mundo das Smart Cities é muito vasto, tendo um alcance quer na vertical, quer na horizontal a todas as atividades desenvolvidas.

Podemos organizar os investimentos em cidades inteligentes em torno de cinco grandes áreas: meio ambiente; mobilidade; interação cidadão-governo; qualidade de vida; e economia/pessoas criativas.

1)            MEIO AMBIENTE
A cidade norte-americana de Dubuque, no estado de Iowa, tem trabalhado nos últimos anos em soluções inteligentes. Em colaboração com a IBM Research, esta cidade de pouco mais de 60 mil habitantes apostou na utilização racional de recursos naturais, implementando medidores de água, eletricidade e gás inteligentes capazes de fazer a leitura em tempo real do consumo, transmitindo-a para a Cloud, ficando ao alcance da câmara municipal e dos seus moradores.

Esta transparência de informação permitiu que a cidade passasse a saber na hora o que gastava, o que possibilitou a gestão dos seus recursos de uma forma mais sustentada e racional. Logo nos primeiros meses do projeto, Dubuque registou uma queda de cerca de 7% nos gastos de água, graças ao facto de alguns habitantes se terem apercebido que tinham pequenas ruturas na canalização – das quais não tinham noção. Na eletricidade, a poupança foi de 11%.

Segundo os responsáveis deste município, o modelo de controlo dos gastos ali implementado pode ser replicado em localidades entre 50 mil a 200 mil pessoas, que são a maior fatia das cidades americanas.

As cidades inteligentes são também polos fervilhantes de inovação. Vancouver, no Canadá, assumiu o objetivo “Zero waste” (Zero Desperdício), utilizando o plástico reciclado para a pavimentação de ruas, conseguindo aplicar o asfalto a temperaturas mais baixas, economizando, deste modo, combustível para, e reduzindo a quantidade de vapor com toxinas libertado.

Em benefício do ambiente, as cidades desta nova era podem aplicar diversas soluções inteligentes como investir em medidas de neutralização de toda a emissão de gases estufa das construções da cidade (ordenamento do território inteligente que crie mais espaços verdes), em sistemas pneumáticos de recolha de resíduos que suprimam a necessidade da coleta de lixo, de micropurificação para reaproveitar quase a totalidade da água (incluindo dos sanitários, como tem a cidade americana Santa Ana, no Orange) e de instalação de iluminação LED (pública ou privada) que se desliga quando não há pessoas a passar.

Construções mais sustentáveis pressupõem ainda poupança de recursos naturais. Nas cidades inteligentes, o uso dos espaços urbanos é repensado para respeitar a sustentabilidade.

2)            MOBILIDADE
Um dos problemas sérios das grandes metrópoles é o do trânsito. A inteligência artificial pode, igual modo, aqui ter um papel fundamental para a sua resolução, através da instalação de mecanismos baseados em câmaras e sensores capazes de prever congestionamentos e sugerir prontamente rotas alternativas. Nas Smart Cities também podemos ter sensores no pavimento que detetam as condições de tráfego e reprogramam os tempos de abertura e fecho dos semáforos em função da maior ou menor intensidade de tráfego.

De resto, nas cidades inteligentes, os próprios carros comunicam com a infraestrutura (V2I – Vehicle to Infrastructure) para que a monitorização do tráfego seja feita de modo eficaz.

Bucheon, cidade de 900 mil habitantes na Coreia do Sul, colocou de parte um sistema de monitorização da circulação dos veículos através de circuitos fechados de vídeo controlados por uma central (que tinha uma margem de fiabilidade inferior a 50%) para abraçar um projeto tecnológico que gere toda a semaforização em tempo real e de forma automática.

Com a nova tecnologia de análise de vídeo inteligente, os tempos de abertura e fecho dos semáforos passaram a ser melhor geridos, segundo o volume de tráfego existente em cada instante, contribuindo para uma maior fluidez de trânsito.

Mais da metade das cidades europeias acima de 100 mil habitantes já possuem ou estão a implementar iniciativas, produtos e serviços dentro do espírito das Smart Cities.

De forma imediata, passaram a ser disparados alertas de trânsito, em tempo real, para os condutores (em painéis de informação variável), incluindo quando ocorrem acidentes, tendo também sido criada uma App que sugere as melhores rotas.

Outra virtude do sistema é conseguir antecipar até dez minutos antes onde haverá engarrafamentos, graças à análise de dados de tráfego (velocidade de rolamento e quantidade de carros a passar).

Dentro da mobilidade, nas cidades inteligentes, os serviços de partilha de veículos (de duas e de quatro rodas), tendo como base a plataforma de internet são comuns.

3)            INTERAÇÃO CIDADÃO-GOVERNO
A par das empresas tecnológicas e instituições de ensino, os governos locais e nacionais mostram estar empenhados em aproveitar as potencialidades da tecnologia para conseguirem a aproximação entre eleitores e eleitos.

As cidades inteligentes utilizam a tecnologia, como a internet e App, para estimular a interação entre o poder público e os habitantes.

Nesta grande transformação, a e-governance cria ferramentas que permitem que os cidadãos tenham uma palavra no destino das suas cidades. Através de uma plataforma web e à distância de um smartphone, a opinião de quem é governado pode ser auscultada regularmente por quem governa, dada a facilidade de comunicação que as tecnologias permitem, num exercício de democracia participativa.

4)            QUALIDADE DE VIDA
A qualidade de vida nas cidades anda de mão dada à segurança. Percebendo isso, Charleston, na Carolina do Sul, EUA, tem vindo a recorrer à análise de dados para perceber quais as áreas da cidade, dias e horas da semana em que se verificam mais roubos. Em função disso, é reforçado o policiamento nesses locais e nessas datas, conseguindo uma redução na ordem dos 40% da criminalidade.

A qualidade de vida de cada pessoa pressupõe ter saúde. Graças à Internet of Things (IoT), os pacientes podem informar os seus médicos sempre que algum episódio de doença as afetar, enviando, no momento, dados  relativos ao seu estado clínico, como batimento cardíaco, oxigenação ou despiste de açucar no sangue.

A qualidade de vida urbana passa também por termos uma habitação eficiente. Aqui se inclui a domótica (como forma de rentabilizar e gerir os recursos e sistemas da casa através da eletrónica e inteligência artificial, conseguindo elevados desempenhos térmicos, energéticos e acústicos) e a simplificação da própria construção (que se traduz em dimensionar a própria área da habitação às necessidades de cada família, sem desperdícios).

Se o tempo é dinheiro, nas cidades, a máxima também se estende ao espaço, cuja ocupação é preciosa. E isso, nas cidades inteligentes, aplica-se aos próprios veículos citadinos, mais pequenos e partilháveis.

O Hiriko, da City Science Initiative do MIT, é elétrico e dobrável que ocupa 60% menos espaço do que um automóvel médio. Quando estacionado, fqace a um Smart é bastante menor. 

Uma casa mais pequena representa menos gastos no terreno, na construção e na energia para a manter com condições de conforto.

Os apartamentos de dimensão micro (com áreas por vezes até 50 m2), com aproveitamento máximo do terreno disponível, são uma nova tendência e um traço da nova geração millennial.

Cada divisão assume diferentes funções e o mobiliário é amovível para se ajustar às necessidades de cada momento.

O grupo de pesquisa City Science (anteriormente designado Changing Places) do Media Lab do MIT (Massachusetts Institute of Technology), liderado por Kent Larson, desenvolveu um protótipo de um apartamento modular equipado com paredes robóticas que se deslocam e que permitem mudar as configurações do espaço útil de acordo com o uso: receber uma festa com muitos amigos, uma reunião de trabalho com várias pessoas sentadas numa ampla mesa, trabalhar, fazer atividades físicas ou dormir.

“Less is more” (“menos é mais”)
é o lema.

Trata-se de habitações com design inteligente que apostam em construções que privilegiam a luz, que podem ser altamente tecnológicas, com controlo das diferentes funções da casa por gestos, como também o mesmo MIT demonstrou num minúsculo apartamento de 18 metros quadrados.

5)            ECONOMIA/PESSOAS CRIATIVAS
As cidades inteligentes contribuem também para a criação de novas formas de negócios e empregos ligados à inovação. Barcelona, por exemplo, tem vindo a planificar um bairro tecnológico e de arquitetura moderna, numa área anteriormente industrial. O Distrito 22@ (ou Distrito da Inovação, em Poblenou) acolhe empresas e startups de setores de atividade como as tecnologias de informação, energia ou design que criaram milhares de postos de trabalho qualificados.

Songdo, na Coreia do Sul, é um exemplo ainda mais flagrante de uma cidade inteligente que está a ser erguida do zero, desde 2004, numa ilha de 600 hectares para se tornar um centro económico internacional de referência com elevados altos padrões ambientais de consumo de energia e resíduos. Os norte-americanos da Gale International são quem lidera este investimento, com 61% do capital.

Nesta cidade coreana, a recolha de lixo na rua é feita não por camiões, mas por intermédio de condutas subterrâneas que conduzem o lixo para unidades de tratamento e reciclagem.

O sucesso da implementação de muitas das medidas de eficiência tipicamente desta era das cidades inteligentes tem ainda outra razão de ser: elas motivam as pessoas, as quais percebem que a tecnologia as beneficia. E, por isso, se empenham na sua concretização. E também apuram a sua própria criatividade para reinventarem novas formas de economia – para si e para os seus concidadãos.

Nas cidades inteligentes, uma comunidade ativa e interessada no seu bem-estar é também, portanto, uma componente chave deste género de projetos sustentáveis.

Inerente ainda à economia (e à poupança), está a aposta em energia renováveis, como é o caso de painéis solares, os quais permitem que os moradores injetem na rede a energia excedente que produzem, ganhando créditos na conta.

De resto, nesta mentalidade do século XXI, os benefícios ambientais estão intimamente conectados aos benefícios para a economia.

A lógica das cidades inteligentes é, por isso, de outra ordem, desconstrutivista até face ao status estabelecido, podendo aplicar-se a frase de Albert Einstein: “Não podemos resolver os nossos problemas com o mesmo pensamento que usámos quando os criámos”.

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