“Fiz-te um avião de papel/Daqueles dos quantos queres/Para voarmos daqui/Em lua de mel/Para te levar para onde quiseres”. A canção e letra de Carolina Deslandes que muito tem passado na rádio bem se podia aplicar a esta história que lhe vamos contar. A de aviões comerciais de transporte de passageiros de propulsão elétrica como se fossem aviões de papel: silenciosos, ecológicos e com o romantismo e glamour que a aviação tinha nas décadas de de 1970, em que voar ainda era um verdadeiro acontecimento, na altura.

Atualmente, fazer viagens de avião é tão corriqueiro quanto andar de autocarro, mas há ainda uma grande diferença: a eletrificação já é comum nos “bus” mas ainda dá os primeiros passos nos grandes aviões de transporte de passageiros.

No entanto, no futuro o cenário pode alterar-se de modo a podermos passar a ter, também, aviões 100% elétricos.

A empresa norte-americana Wright Electric está a trabalhar com esse propósito em mente: “O nosso objetivo é que todos os voos de curta distância sejam zero emissões dentro de 20 anos. O nosso primeiro avião é uma aeronave concebida para voos entre Nova Iorque e Boston [cerca de 300 km], Londres-Paris [cerca de 345 km] e Seoul-Jeju [cerca de 455 km]”, aponta esta jovem empresa, criada por engenheiros aeroespaciais e cuja uma das próximas etapas passa pela construção de um protótipo de avião elétrico para dez pessoas.

Um dos acordos que a Wright Electric estabeleceu já foi com a britânica EasyJet. No caderno de encargos está o desenvolvimento de um aparelho elétrico de grande porte capaz de assegurar ligações aéreas abaixo de duas horas. E que poderia entrar ao serviço numa década.

Aviões elétricos em ligações regionais

Tal como a Tesla buscou inspiração para o seu nome em Nikola Tesla, também esta empresa Wright Electric quis homenagear com a sua designação os irmãos Wright (Wilbur e Orville), considerados os pais da aviação com o seu voo inaugural de 17 de dezembro de 1903.

A Wright Electric estima, com efeito, poder apresentar um avião com um alcance de 450 km o que daria para as necessidades de cerca de um quinto dos passageiros que atualmente utiliza a EasyJet.

Viabilizando-se este projeto, a EasyJet poderia no futuro substituir parte dos seus Airbus A319 e A320 por aparelhos elétricos para assegurar algumas dos seus corredores comerciais na Europa, como Londres-Paris, Londres-Amesterdão ou Edinburgo-Bristol.

Transpondo para a realidade nacional, isto significaria que a atual ponte aérea feita pela TAP entre Lisboa e Porto ou mesmo a ligação Porto-Faro (na ordem dos 465 km de extensão) poderia, no futuro ser efetuada por este tipo de aparelhos aéreos mais ecológicos.

Jeff Engler CEO e fundador da Wright Electric declara que “a forma como a tecnologia atua [num avião elétrico] é semelhante à de um carro elétrico”.

Neste avião 100% elétrico, as baterias estão pensadas para poderem ser facilmente removidas das suas bases ou docks de carregamento e colocadas na aeronave.

Carolyn McCall, ex-CEO da EasyJet, entende que a indústria aeroespacial seguirá o caminho da indústria automóvel no desenvolvimento de motores elétricos que levem à redução de emissões e ruído.

A Wright Electric afirma que os aviões elétricos serão 50% mais silenciosos e 10% mais baratos para as companhias aéreas adquirirem e operarem, com a poupança de custos a potencialmente ser transferido também para os passageiros.

“Agora é mais uma questão de quando, e não se, um avião elétrico de curta distância voará”
Carolyn McCall, ex-CEO da EasyJet

De resto, nesta corrida à eletrificação da aviação, o próprio Governo norueguês anunciou a intenção de tornar todos os voos de curta distância dentro do próprio país operados por aviões elétricos, em 2040.

“Pensamos que em todos os voos que tenham uma duração de até uma hora e meia possam ser utilizados aeronaves que sejam totalmente elétricas”, refere Dag Falk-Petersen, CEO da Avinor, empresa de aviação da Noruega detida pelo Estado.

A Avinor e a Norges Luftsportforbund (Associação Norueguesa de Aviação Desportiva) criaram uma parceria com a Widerøe e a SAS para o desenvolvimento de aeronaves elétricas. No âmbito deste projeto, a Noruega foi escolhida como base de testes e centro de inovação.

Paralelamente, a Airbus, Rolls-Royce e a Siemens estão a trabalhar num motor híbrido (programa E-Fan X) para um avião. Os primeiros testes deverão decorrer num BAe 146. A Airbus será responsável pelo controlo da arquitetura do aparelho do sistema de propulsão híbrido-elétrico e das baterias e a sua integraçã com os comandos de voos. A Rolls-Royce terá a tarefa de criar o motor turbo-eixo e o gerador de 2 megawatt, enquanto a Siemens desenvolverá o motor elétrico de 2 MW.

Têm vindo a ser implementados vários projetos de transporte aéreo elétrico, mas sempre para transporte de um número reduzido de pessoas, em jeito de táxi aéreo.

Na Austrália, por exemplo, o governo local certificou o pequeno avião elétrico Pipistrel Alpha Electro para poder estar já ao serviço de uma escola de aviação gerida pela empresa Electro.Aero.

Desenvolvido pelo fabricante Pipistrel (da Eslovénia), este Alpha Electro é um bilugar leve com dois packs de baterias de iões de lítio. Tem uma autonomia para voar durante uma hora, com mais 30 minutos extra de reserva. Carrega em cerca de uma hora.

“Este é o início da próxima revolução na aviação de uma forma geral” declara Richard Charlton, diretor financeiro da Electro.Aero. “Temos já vindo a responder a perguntas de aeroportos localizados em grandes cidades, onde as reclamações pelo excessivo ruído se tornaram a sua preocupação número um”.

O desafio agora está mesmo na conceção de aviões de grande porte para o transporte comercial de muitas pessoas e de os tornar, como a música de Carolina Deslandes, numa espécie de avião de papel, silencioso, ecológico e romântico, “para voarmos daqui/Em lua de mel/Para te levar para onde quiseres”.

 

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